O Estado das Coisas – O Panorama Cinematográfico Nacional em Tempos de COVID-19 – Anette Dujisin

Tal como as personagens de Wim Wenders em “O Estado das Coisas”, vivemos tempos suspensos no tempo. Há quem diga que isto parece um filme. Sim, a realidade tornou-se finalmente espelho da ficção. Estamos submersos e em fluxo descontínuo. Nesta espera, há tempo para pensar, para refletir e desejar que o tempo volte com a promessa de dias melhores.

Não há, no entanto, memória de um cenário assim, com toda a indústria cinematográfica paralisada, com salas de cinema encerradas, sem estreias. Muitas salas não vão conseguir reabrir no final desta pandemia. Se a forma como vemos cinema estava já em transformação, 2020 vai deixar uma forte marca nessa mudança. O público vai menos ao cinema e procura conteúdos noutros ecrãs (mais pequenos). 

Claro que continuarão a existir salas de cinema e os filmes vão continuar a estrear em sala, mas o streaming é o futuro e, depois da pandemia, haverá muitos mais filmes que vão optar por essas plataformas digitais. Cada vez mais, as salas de cinema precisam de se reinventar se se quiserem manter abertas. Precisam de criar grandes eventos à volta das estreias e garantir uma experiência única aos espectadores. Grandes estreias, ciclos de cinema, conversas com realizadores e elenco e maratonas são exemplos do que já algumas salas de cinema têm vindo a fazer para se manterem vivas e dinâmicas. 

O regresso à normalidade vai ser lento, vai levar tempo e, até lá, será preciso continuar a procurar alternativas para exibir filmes.

Convidámos Anette Dujisin, diretora da Filmin Portugal, para falar um pouco sobre a crise epidemiológica por que passamos.

C7A: Como é que a COVID-19 afetou a atividade da Filmin?

Anette Dujisin: O fecho dos cinemas, o adiamento de festivais de cinema e o isolamento social tiveram um impacto muito grande na Filmin. Não só no aumento da procura por parte do público cinéfilo, como também surgiu uma urgente e dinâmica colaboração com os distribuidores nacionais, em especial com filmes que tiveram de sair prematuramente das salas, como foi o caso de “Mosquito”, de João Nuno Pinto, que tendo tido só uma semana de exibição, encontra agora uma casa virtual na Filmin. Também foi o caso de “J’Accuse – O Oficial e o Espião”, de Roman Polanski, que estava ainda em sala aquando do fecho dos cinemas, e houve ainda “Para Sama”. São títulos que vieram parar à Filmin antes do tempo, com o intuito de fazer chegar os filmes aos seus espectadores. 

Outro caso interessante foi o da Festa do Cinema Italiano que, tendo sido adiado para uma data a definir, encontrou, entretanto, um espaço na Filmin para fazer uma amostra dos filmes que passaram em edições passadas e outros filmes inéditos. 

No geral, tivemos um aumento dos pedidos de novos filmes na plataforma, tanto de distribuidores, como de produtores e festivais, aos quais respondemos com um reforço do catálogo e tentando criar espaço para os filmes e eventos que precisam de visibilidade. 

C7A: Quando a pandemia terminar, a Filmin vai continuar a estrear filmes pouco tempo depois da sua estreia em sala?

AD: Sim, é uma prática que sempre existiu na Filmin. Os filmes entravam na plataforma logo após a saída das salas de cinema, mas num regime de aluguer individual (ou seja, não estavam incluídos na subscrição). É a lógica do mercado ao qual todas as plataformas obedecem. 

Agora tivemos um caso diferente, o de “Mosquito”, que mal saiu das salas, vai entrar diretamente na subscrição, saltando o período de aluguer individual para poder chegar ao maior número de pessoas possível. Este é um objetivo do distribuidor, do realizador e da Filmin. 

Também vão entrar filmes na Filmin que iam estrear nas salas, mas que, devido ao estado de emergência, não vão poder estrear no cinema e vão chegar diretamente à Filmin (em regime de aluguer individual). Estes serão casos únicos que são improváveis de voltar a acontecer quando regressarmos à normalidade. 

C7A: Se a tendência dos últimos anos tem sido o crescimento de espectadores nas plataformas de streaming, como a Netflix, HBO, ou Amazon Prime, tudo indica que 2020 será um ano de mudança/transformação na forma como vemos cinema. Como é que a Filmin avalia o seu crescimento? Poderá esta pandemia ter influência nisso?

AD: É ainda prematuro dizer como se vai transformar a indústria do cinema. O que é certo é que as coisas vão mudar. Há já grandes filmes de Hollywood que irão estrear diretamente em plataformas VoD, mas são soluções que respondem ao estado atual da indústria. O mesmo já aconteceu antes da pandemia em Portugal com “O Irlandês” e “Marriage Story”, que estrearam diretamente em VoD.

A Filmin sempre tentou trabalhar em sintonia com as salas, nunca tencionando ser um substituto e sim um complemento. Neste momento, tentamos ser uma opção alternativa aos filmes que não puderam estar em sala, mas quando tudo voltar à normalidade, a importância da sala tem de ser vincada. 

A nível de crescimento, a Filmin teve um aumento muito considerável. Em pouco mais de duas semanas, duplicámos o número de subscritores. Estávamos à espera de um crescimento, mas, honestamente, não esperávamos que fosse tão grande. E estamos a continuar a crescer. São números verdadeiros, sem contar com as pessoas que estão a experimentar a plataforma de forma gratuita. É evidentemente um efeito da quarentena e do isolamento social, mas visto que o nosso mercado é um nicho para quem gosta de cinema independente e de autor, esperamos que muitos destes subscritores fiquem e usufruam da Filmin após este período particular que estamos a viver.