Tal como as personagens de Wim Wenders em “O Estado das Coisas”, vivemos tempos suspensos no tempo. Há quem diga que isto parece um filme. Sim, a realidade tornou-se finalmente espelho da ficção. Estamos submersos e em fluxo descontínuo. Nesta espera, há tempo para pensar, para refletir e desejar que o tempo volte com a promessa de dias melhores.

Não há, no entanto, memória de um cenário assim, com toda a indústria cinematográfica paralisada, com salas de cinema encerradas, sem estreias. Muitas salas não vão conseguir reabrir no final desta pandemia. Se a forma como vemos cinema estava já em transformação, 2020 vai deixar uma forte marca nessa mudança. O público vai menos ao cinema e procura conteúdos noutros ecrãs (mais pequenos). 

Claro que continuarão a existir salas de cinema e os filmes vão continuar a estrear em sala, mas o streaming é o futuro e, depois da pandemia, haverá muitos mais filmes que vão optar por essas plataformas digitais. Cada vez mais, as salas de cinema precisam de se reinventar se se quiserem manter abertas. Precisam de criar grandes eventos à volta das estreias e garantir uma experiência única aos espectadores. Grandes estreias, ciclos de cinema, conversas com realizadores e elenco e maratonas são exemplos do que já algumas salas de cinema têm vindo a fazer para se manterem vivas e dinâmicas. 

O regresso à normalidade vai ser lento, vai levar tempo e, até lá, será preciso continuar a procurar alternativas para exibir filmes.

Convidámos Paulo Branco, produtor, que dispensa apresentações, na produtora e distribuidora Leopardo Filmes, na produtora e distribuidora Alfama Films e dirigente da exibidora Medeia Filmes, para analisar estes tempos inéditos em que vivemos.

C7A: De que forma é que a COVID-19 afetou a produção, distribuição e exibição cinematográfica nacional?

Paulo Branco: Afetou em todos os aspetos, como afetou toda a sociedade. Neste momento, a atividade cinematográfica está, como as outras, parada, no sentido em que não se pode distribuir, não se pode fazer filmes e não se pode exibir. Portanto, isso é uma verdade de La Palice, como se costuma dizer.

 C7A: A Leopardo está a trabalhar em algum filme ou filmes que foram afetados pelo Covid-19?

PB: Não, a Leopardo terminou de produzir o filme do Mário Barroso, “A Ordem Moral”. Todos os outros projetos estavam filmados e temos projetos em que estava prevista a rodagem, um deles para o mês de maio e outro para o mês de agosto. Neste momento, estamos à espera de ver como evolui a situação para determinarmos as novas datas de rodagem, mas, felizmente, não interrompemos nenhuma rodagem. Interrompemos, apenas, o princípio da preparação de um dos filmes.

C7A: Como é que a Leopardo está a lidar com os efeitos da pandemia?

PB: Como qualquer outra sociedade, estamos em standby. A vantagem é que a Leopardo tem outras atividades e, neste momento, estamos a aproveitar não só para preparar melhor os projetos, por um lado, e, por outro, para desenvolver outros. E isso pode fazer-se no tempo da pandemia. Estamos também a servir-nos dos nossos sites para podermos fazer propostas de quarentena cinéfilas, como já é do conhecimento geral, na medeia filmes e na própria Leopardo. E estamos a preparar, também, se e quando houver a próxima abertura das salas, a programação mais ou menos alinhavada e os filmes prontos para podermos mostrar nas condições que vamos ver como serão, quando as salas poderem abrir. Particularmente a Nimas, que é o nosso ponto de referência, e as salas de província dependem muito, também, das câmaras municipais e, sobretudo, quanto à Nimas, estamos à espera de ver como é que vai evoluir a situação e já estamos a preparar a programação para quando isso for possível.

C7A: Sentem que estão a ter apoios suficientes por parte do estado?

PB: O cinema nunca teve apoio suficiente, de maneira nenhuma. Neste momento, o ICA tem feito um trabalho razoável e tem permitido, de uma certa maneira, que os produtores se mantenham à tona de água, isso é verdade. Agora, a maior parte das nossas empresas não têm acesso a linhas de crédito, vá se lá saber porquê. Até agora, têm sido recusadas. Isto é uma crítica muito mais geral ao que teria a fazer a tudo o que tem sido feito ultimamente, portanto, eu sou extremamente crítico a tudo o que se está a passar, Mas tenho as pessoas todas a trabalhar em teletrabalho para prepararmos a altura em que voltaremos a funcionar a cem por cento.

C7A: Neste momento, as plataformas de streaming são os canais principais de exibição por causa da pandemia. Acha que isto irá afetar a exibição cinematográfica pós-covid-19? Ou será um complemento?

PB: Para o cinema independente, as plataformas de streaming não têm peso praticamente nenhum, nem em termos de receitas, nem em termos de visibilidade. Quer dizer, o número de pessoas que podemos atingir, por exemplo, com a Filmin, é muito reduzido relativamente ao que se consegue nas salas de cinema. Por outro lado, a Netflix e a HBO estão muito pouco interessadas na distribuição de tudo o que é cinema independente. Só em termos de catálogo é que interessa. Por acaso, acabei de fazer um acordo com a HBO, mas é absolutamente secundário relativamente à possibilidade de os filmes terem visibilidade no cinema independente. Nós continuaremos e, pelo menos da minha parte, a bater-nos seriamente para dar cada vez mais visibilidade ao cinema independente e, felizmente, durante este período, o filme “A Herdade” vai ter muita visibilidade. Vai passar não só na RTP1, em prime time, como no canal Arte, também em prime time. Posso dizer, em primeira mão, que dia 11 de junho a série vai passar no Arte e, portanto, estamos sobretudo mobilizados para as televisões. No Arte,  espero ter cerca de um milhão de espectadores e espero conseguir cerca de trezentos a quatrocentos mil na RTP, quando passar agora no princípio de maio. Portanto, é essa visibilidade que me interessa dar aos filmes que produzo. A mesma coisa com “Mosquito”, de João Nuno Pinto, que, neste momento, já estamos a negociar passagens com um elevado número de espectadores e muito mais que em qualquer passagem em VOD.

C7A: Acha que, depois de terminado o estado de emergência, as salas de cinema poderão contar com o seu público habitual? Ou será um processo gradual?

 PB: Se eu tivesse uma resposta para isso… A situação que está criada e que não se sabe exatamente qual será a evolução vai transformar as salas no que eram, mas penso que, como se diz, o homem é um animal social e, portanto, por mais que o Covid-19 nos assuste, a certa altura, será secundário no relacionamento entre as pessoas e vamos habituar-nos a viver com ele e a sobreviver-lhe, como já aconteceu com outras pandemias no passado. Seria bom que estivéssemos um pouco mais protegidos, que os hospitais, os serviços nacionais de saúde estivessem à altura daquilo que não estiveram porque foram destruídos durante todos estes anos. Isso é que é grave. O que se passou nos últimos anos na Europa, em Portugal, sobretudo, foi a destruição do Serviço Nacional de Saúde e também a destruição de todos os orçamentos da cultura que transformaram a cultura numa aventura dificílima para qualquer pessoa que quisesse enveredar nela. O que se passa neste momento com o orçamento da cultura é absolutamente ridículo. Daí que é de um cinismo atroz quando o primeiro-ministro fala no interesse que pode ter pela cultura. Isso é que é gravíssimo. E vão ser os mesmos governantes a continuar com as suas políticas a tentar resolver a situação pós-pandemia. É isso que me assusta.

C7A: Fala-se numa nova crise económica. Como vê o futuro próximo?

PB: Como é que eu vejo? Não vejo. Acho que estamos a ser governados por um senhor que a única coisa que lhe interessa é que a troika volte, quando temos todas as condições, se nos batêssemos a sério, para que a Europa exista como deve existir e para que a troika não voltasse. Mas, neste momento, temos o ministro das finanças que tirou o seu renome desse período pós-troika e que se transformou, não sei como, no Ronaldo das finanças, e isso à custa de aumentar cada vez mais as desigualdades neste país. Por outro lado, temos um ministro da economia que aumentou substancialmente a sua riqueza, também no período pós-troika, aquando da privatização da TAP. E esteve ainda ligado aos fundos tóxicos do Banif. Portanto, pessoas dessas não serão aquelas que melhor nos poderão defender. E relativamente à cultura, há um desprezo absoluto e é absolutamente inadmissível que tenhamos, neste momento, um orçamento da cultura como temos, que nem o dobro chegaria para nos pôr a um nível mínimo para corresponder ao que o país merece neste setor.