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Os 10 melhores filmes de 2012, por Tiago Resende

Eis que chega o momento em que tenho de criar uma lista dos 10 melhores filmes do ano. Muitos criticam estas listas, outros abusam delas. A verdade é que não podem nunca ser levadas muito a sério. Como o próprio nome indica, é uma lista e nada mais. Pessoalmente achei ligeiramente mais complicada a realização desta lista comparando com a lista de 2011. Muitos bons filmes ficaram de fora, refiro-me até ao cinema português, que teve em 2012 um dos seus melhores anos de produção. Mas quanto aos filmes portugueses aqui presentes não tive qualquer dúvida. Eles tinham que constar neste Top 10. Quanto ao restante cinema mundial, houve igualmente filmes excelentes que marcaram o ano, mas não podem todos ser incluídos. Amor, infância e cinema são os temas que dominam este Top 10. Esta é a minha lista dos 10 melhores filmes de 2012 (filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas entre janeiro e dezembro de 2012).

 

Linha Vermelha (2011)_1

1º – Linha Vermelha (Linha Vermelha) de José Filipe Costa (Portugal)

Confesso que a minha primeira opção para o primeiro lugar da lista não tinha sido este filme. Mas ao rever com mais atenção os filmes que mais me marcaram este ano, cheguei à conclusão que tinha de ser o documentário português “Linha Vermelha”, de José Costa. Em parte por ter sido, para mim, uma enorme surpresa, talvez a maior de todas neste ano. Desconhecia por completo o realizador e o filme “Torre Bela” do realizador alemão Thomas Harlan, que é aqui analisado. Este é um filme que nos recorda um passado relativamente recente e muitas vezes esquecido, o Verão Quente de 75, revisitando os locais da ação e aos seus protagonistas. José Costa fala-nos do PREC e fala-nos do cinema. Mais do que um filme sobre o reviver de “Torre Bela”, “Linha Vermelha” é um estudo sobre o poder da imagem, sobre a força do cinema e como essa molda uma sociedade. Este é apenas um pequeno exemplo daquilo que foi uma grande revolução. Acredito vivamente que este filme irá tornar-se rapidamente num instrumento de estudo para professores e alunos de cinema e de história. Um dos melhores filmes do ano e um grandioso filme do cinema português. Cedo-lhe o primeiro lugar com uma vénia!

 

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2º – A Invenção de Hugo (Hugo) de Martin Scorsese (EUA)

Não venceu o Óscar de Melhor Filme, nem o de Melhor Realizador em 2012, mas este é um dos mais cativantes filmes do ano. Martin Scorsese põe de lado, pela primeira vez, a violência habitual dos seus filmes, dirigindo-se para um público mais novo. Adaptando uma história infantil, o best-seller “A Invenção de Hugo Cabret” de Brian Selznick, que se inspira na verdadeira história do cineasta Georges Méliès, este é um filme mágico e familiar que pode e deve ser visto por todos. Um filme bastante completo e perfeito, desde os cenários, fotografia, banda sonora e passando pelo elenco principal. O cineasta usa, também pela primeira vez, a tecnologia 3D e só para mostrar que é um dos maiores realizadores americanos ainda vivo ele dá-lhe um uso fenomenal. O melhor filme em 3D que já vi até hoje. Este é um filme que irá facilmente mexer com as nossas emoções, rir, chorar e sonhar. “Hugo” é diferente, é magnifico, é uma grande homenagem ao cinema.

 

O Artista_10

3º – O Artista (The Artist) de Michel Hazanavicius (França)

Conquistou quase tudo o que era prémios entre 2011 e 2012 e há boas razões para tal ter acontecido. Conquistou os Óscares 2012, ao ter recebido 5 estatuetas douradas, incluindo a de Melhor Filme. Michel Hazanavicius levou o público do século XXI a viver uma experiência única, a de ver um filme mudo (ou praticamente) a preto e branco numa sala de cinema. É como se de repente estivéssemos nos loucos anos 20 a ver um filme com uma orquestra a tocar a banda sonora. É mágico! Tal como “Hugo”, este também presta uma homenagem ao cinema, passando-se num dos períodos áureos do cinema, fala-nos sobre a mudança mais radical que o cinema sofreu até hoje, do mudo para o sonoro. Ao longo do filme lembramo-nos, certamente, de “Serenata à Chuva” (1952) e de “Crepúsculo dos Deuses” (1950). A brilhante realização de Michel Hazanavicius permitiu criar uma clássico nos tempos modernos. Destaco ainda a banda sonora soberbamente composta por Ludovic Bource, que tem um papel muito importante, é a “voz” do filme. É uma obra-prima!

 

"Tabu" (2012)_6

4º – Tabu (Tabu) de Miguel Gomes (Portugal)

Tinha que constar obrigatoriamente nos cinco primeiros filmes. “Tabu” acabou também por se revelar numa grande e bela surpresa de 2012. Miguel Gomes triunfou no Festival de Berlim de 2012 ao ter ganho os prémios Alfred Bauer e FIPRESCI e no final deste ano constou em quase tudo o que eram listas de melhores filmes do ano para os críticos estrangeiros e nacionais. “Tabu” fala-nos de uma história de amor impossível entre Aurora (Ana Moreira) e Gianluca Ventura (Carloto Cotta). Filmado num registo clássico e, portanto, pouco usual hoje em dia, com uma imagem a preto e branco, com grão e a 4:3, “Tabu” lembra “Tabu” (1931) de F.W. Murnau. A história divide-se em três partes, um prólogo, a 1ª parte (intitulada de “o paraíso perdido”) e a 2ª parte (intitulada de “paraíso”). Usa uma estrutura bi-partida no argumento e um estilo documental sempre presente, que se mistura de forma bastante natural com a ficção. Um filme magnifico, onde o trabalho de som e de fotografia, assim como o de realização se destacam, sendo este uma obra-prima do cinema português!

 

"Moonrise Kingdom" (2012)_4

5º – Moonrise Kingdom (Moonrise Kingdom) de Wes Anderson (EUA)

Era um dos filmes que mais ansiava ver, sendo eu grande fã do seu cinema extravagante, excêntrico, estilizado e diferente de Wes Anderson. Uma louca homenagem à infância e ao primeiro amor (temas sérios e dolorosos), que são aqui explorados recorrendo à comédia por um elenco juvenil bastante talentoso. Pessoalmente foi o filme que teve o melhor elenco e uma das melhores bandas sonoras do ano, composta por Alexandre Desplat“Moonrise Kingdom” é um filme com coração, um belo e criativo conto sobre o amor e a infância.

 

Destaque da Semana: "Amor"

6º – Amor (Amour) de Michael Haneke (Austria)

Muito dificilmente um filme de Michael Haneke não iria parar a um top meu. Depois de “O Laço Branco” (2009), Haneke realiza “Amor” onde nos explica como é morrer no século XXI e como é que os vivos lidam com ela (a morte). Com uma excelente dupla de atores, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, que dão vida a uma história comovente de um casal condenado à derradeira prova de dedicação, a última prova de amor. “Amor” é belo e comovente. Um dos melhores filmes do ano sem dúvida alguma!

 

"O Gebo e a Sombra" (2012)_1

7º – O Gebo e a Sombra (O Gebo e a Sombra) de Manoel de Oliveira (Portugal)

O nosso mestre Manoel de Oliveira, aos 104 anos, está fresco e recomenda-se. É de admirar toda esta energia que o cineasta mantém em querer fazer cinema e em elevar o cinema português. Oliveira não está cego, surdo e mudo, pelo contrário, está atento aos graves problemas que o país e os portugueses atravessam. A obra de Manoel de Oliveira tem por hábito contar histórias sobre uma classe social média alta, a burguesia, mas neste filme o realizador vira-se para a classe social baixa, para os pobres. “O Gebo e a Sombra” faz um retrato sobre a pobreza que, apesar de ter sido escrito nos anos 20 do século XX, continua a ser bastante atual, hoje mais do que nunca. “O Gebo e a Sombra” assume-se como um dos seus melhores filmes de sempre do realizador. Este é o terceiro filme português a constar na lista.

 

“O Meu Maior Desejo” (2011)_2

8º – O Meu Maior Desejo (Kiseki) de Hirokazu Koreeda (Japão)

Provavelmente passou ao lado de muitos espectadores, mas não devia. Koreeda é um dos mais conceituados cineastas japoneses da atualidade, que já nos brindou com filmes como “Ninguém Sabe” (2004) e “Andando” (2008). Com o seu estilo documental, simplista e natural, o realizador regressa ao tema infância com o belo e delicado “O Meu Maior Desejo”. Um filme surpreendente, com uma história comovente e magnifica, que nos fala dos limites da fantasia e da realidade durante a infância. Este é um belo e sensível filme sobre o fim da infância que infelizmente todos perdemos.

 

"O Monte dos Vendavais" (2011)_1

9º – O Monte dos Vendavais (Wuthering Heights) de Andrea Arnold (Reino Unido)

A realizadora inglesa, que se destacou internacionalmente com “Aquário” (2009), adaptou ao cinema o clássico da literatura “O Monte dos Vendavais” (1847) de Emily Brönte, numa versão mais atrevida e bastante diferente das outras versões cinematográficas. A história apaixonante entre Cathy e Heathcliff, amigos desde a infância que são cruelmente separados por diferenças sociais, é retratada por Andrea de forma melancólica, pela câmara, em 4:3, que persegue as personagens, explorando muito bem o seu sofrimento, a pobreza e a violência. Um filme que passou também de forma despercebida, que acabou por se revelar numa boa surpresa.

 

Vergonha (2011)_3

10º – Vergonha (Shame) de Steve McQueen (Reino Unido)

De todos os filmes aqui presentes este é talvez o filme mais menos apelativo e de difícil visionamento para qualquer público, sem contar com o cinema português claro (esse já está habituado ao preconceito dos portugueses). Steve McQueen depois de ter explorado a fome até à exaustão, explora aqui ao sexo e o desejo humano a um outro nível. Michael Fassbender dedica-se de corpo e alma, nesta que é talvez a sua melhor interpretação de sempre, à personagem de um viciado em sexo. A sua luta interior chega a dar pena. De forma nua e crua este é um filme bastante provocador, que não se fica só pela boa realização, mas também pela excelente cinematografia e banda sonora. Por tudo isto merece encerrar o meu top 10 de melhores filmes de 2012.