Contexto Histórico

Antes de falar sobre o que foi o cinema português dos anos 40, tenho de contextualizar Portugal no tempo e na história, na política e na arte. Para isso vou recuar até 1910, o ano da implantação da República Portuguesa, depois avanço para 1926, o Golpe do 28 de Maio e por último para o Estado Novo, em 1933.

 

A Primeira República

Portugal antes de 1910 era um país pobre, a população portuguesa não chegava aos 6 milhões de habitantes e 75% deles eram analfabetos. Cerca de dois terços da população activa vivia da agricultura. A indústria, organizada em pequenas fábricas, estava concentrada nas cidades de Lisboa e Setúbal. A maioria da população camponesa vivia nos limiar da pobreza e os operários das cidades tinham de enfrentar condições de trabalho e de vida muito duras. Todos estes factores levaram à criação do Partido Republicano Português, em 1876, com o objectivo de derrubar a Monarquia. Entretanto em 1890 dá-se o Ultimatum, que abalou a sociedade portuguesa; a 31 de Janeiro de 1891, dá-se uma revolta republicana no Porto, em que Aurélio Paz dos Reis participou, mas esta fracassou; e a 1 de Fevereiro de 1908 deu-se o Regicídio, que provocou a morte ao Rei D.Carlos I e ao príncipe D.Luís Filipe. Sucedeu a D.Carlos, o filho mais novo, D.Manuel II, que reinou apenas dois anos. A 5 de Outubro de 1910 dá-se uma revolução, organizado pela Maçonaria e pela Carbonária, através do Partido Republicano Português, expulsando o rei e implantando a República Portuguesa. Durante a revolução de 5 de Outubro circulavam por Lisboa, alguns operadores de câmara a registar o acontecimento. Com a 1ª República foram tomadas várias medidas importantes, nunca antes feitas: estabeleceu-se o direito à greve, separou-se o Estado da Igreja, promulgou-se a lei da liberdade de imprensa, as mulheres ganharam mais direitos e fizeram-se reformas na educação e na saúde.

 

A Ditadura Militar

Durante a 1a República, Portugal sofreu uma grande instabilidade política. Em 1917, dá- se um Golpe de Estado, chefiado por Sidónio Pais, instaurando um regime autoritário. Em 1918, viria a ser assassinado. Durante dezasseis anos, Portugal, registou 45 governos, 8 eleições presidenciais, 7 presidentes e 9 eleições legislativas. A 28 de Maio de 1926, o regime da 1a República foi derrubado pelo general Gomes da Costa, organizado, a partir de Braga, fez uma marcha militar sobre Lisboa. Como não podia deixar de ser, o cinema acompanhou estes acontecimentos e os operadores de câmara registaram esses momentos para a posterioridade. Nesse dia é rodado o documentário “Principais Acontecimentos da Revolução de 28 de Maio”. O presidente da República, Bernardino Machado, renunciou ao cargo, era o fim da 1a República. Este período durou de 1926 até 1930.

 

O Estado Novo

Com a vitória do general Óscar Carmona, nas eleições presidenciais de 1928 e com a escolha de Oliveira Salazar para a pasta das Finanças, durante o governo do general Vicente Freitas, a instabilidade que caracterizou a Ditadura Militar (1926-1930) foi sendo ultrapassada. Em 1932, Salazar, foi nomeado presidente do Conselho (chefe do governo). Em 1930, foi criado o Partido da União Nacional, que viria a tornar-se no “partido único”, com a institucionalização do regime em 1933. Nos anos 30, o cinema mudo português conseguiu alcançar grande sucesso, com os filmes, “A Severa” (1931) e “Maria do Mar” (1930), de Leitão de Barros e “Douro, Faina Fluvial” (1931), de Manoel de Oliveira. Estes dois filmes marcaram o fim do cinema mudo português.

 

Em 1933 é criado o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), mais tarde Secretariado Nacional da Informação (SNI), cujo director António Ferro, era responsável pela propaganda política e comunicação social, durante o Estado Novo. Este serviu-se do cinema para a sua propaganda. “A Revolução de Maio”, de Lopes Ribeiro é a primeira encomenda do SPN, tem argumento de António Ferro e de António Lopes Ribeiro. Mais tarde, Lopes Ribeiro realizou “Feitiço do Império” (1940), um filme sobre as colónias portuguesas. O primeiro filme totalmente sonoro, rodado em Portugal, foi “A Canção de Lisboa” (1933), de Cottinelli Telmo8. Este filme, sendo o primeiro filme totalmente sonoro, inaugura um importante género cinematográfico que vai ser muito usado durante os anos 40 – “a comédia à portuguesa”. A partir de “A Canção de Lisboa” vão ser feitos muitos filmes com comédia e muita música. O humor português caracterizava-se sobre a forma de humor verbal, assente em diálogos rápidos e repletos de jogos de palavras, em grande parte, intraduzíveis noutras línguas. Os realizadores tiveram que ir buscar grandes actores do Teatro e da Revista, dois deles foram, Vasco Santana e António Silva. Estes dois, foram uns dos melhores actores europeus do séc.XX. “A Canção de Lisboa” adapta a realidade de alguns costumes tradicionais de Lisboa, da época. Depois veio, o “Gado Bravo” (1934), de António Lopes Ribeiro; “As Pupilas do Senhor Reitor” (1935) e “Bocage” (1936) de Leitão de Barros; “A Canção da Terra” (1933 ), de Jorge Brum do Canto e “A Aldeia da Roupa Branca” (1939), de Chianca de Garcia. Todos estes filmes tiveram muita importância nos Anos 30 do cinema português.