Os Anos 40

Na década de 30 surgem alguns nomes que iriam marcar a futura produção cinematográfica, desde logo Leitão de Barros, Manoel de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Jorge Brum do Canto e Chianca de Garcia. Contudo, é nos anos 40 que o cinema português irá atingir um dos seus mais altos expoentes com a realização de várias comédias de costumes, em que o humor, a mestria das representações e a música se misturam, para proporcionar filmes de humor inesquecíveis ainda hoje. Pode-se mesmo afirmar que nessa década, Portugal, teve uma indústria cinematográfica.

 

O início dos anos 40 ficou marcado, pela 2ª Guerra Mundial, que terminou em 1945. Esta guerra afectou muitos países, pelo que a indústria cinematográfica ficou um pouco afectada também. Durante esse período chegavam poucos filmes estrangeiros a Portugal, pelo que foi uma oportunidade para alguns realizadores apostarem no cinema nacional, pois havia pouca concorrência estrangeira. Assim a “Produções Lopes Ribeiro” apostou em forte no cinema nacional, realizando,    num curto espaço de tempo, três longas metragens: “O Pai Tirano” de António Lopes Ribeiro (1941), “O Pátio das Cantigas” de Francisco Ribeiro (1942) e “Aniki-Bóbó” de Manoel de Oliveira (1942). Os dois primeiros filmes são comédias, que marcaram o inicio de um género de humor em Portugal, principalmente nos anos 40. O último filme, estreia Oliveira na longa metragem e marca a transição do documentário para a ficção. E apesar de este ser, talvez a maior obra prima do cinema português dos anos 40, infelizmente, na minha opinião, o público não acolheu com grande simpatia, esta grande obra do cinema português. Depois da poesia realista de “Aniki-Bóbó” o cinema português nunca mais teve nenhum filme que se aproximasse deste, não voltou a ter poesia. Voltou-se sim, ao humor popular, ao fado e ao filme histórico. Em 1943 e 44, Arthur Duarte realizou duas comédias que tiveram um grande êxito comercial, “O Costa do Castelo” e “A Menina da Rádio”, respectivamente.

 

Estas comédias tiveram um enorme sucesso de bilheteira e “apesar de muitos terem sido, ideologicamente bem mais eficazes do que os poucos filmes de propaganda que o regime salazarista produziu, não era nada disto que o director do Secretariado da Propaganda Nacional tinha em mente quando pensava em cinema português. A citação tem barbas: para António Ferro, as comédias dos anos trinta e quarenta são o “cancro do cinema nacional”. “O que o regime pretendia era, como aliás muitos cinéfilos e intelectuais modernistas que defendiam o cinema como arte, mais adaptações literárias e reconstituições históricas que pudessem propagandear o país nos festivais de cinema estrangeiros.” (1). E assim, são produzidos três filmes históricos em Portugal, todos eles passados em Coimbra. O primeiro filme histórico foi, “Inês de Castro”, realizado por José Leitão de Barros, em 1944. Uma adaptação da obra de Afonso Lopes Vieira, “A Paixão de Pedro, o Cru”. Foi a primeira co-produção luso-espanhola. A cidade de Coimbra foi reproduzida em cenários dos estúdios de Madrid onde o filme foi rodado. Foi exibido comercialmente, além de em Portugal e Espanha, em França e na Alemanha.

 

O segundo filme, “Camões”, também realizado por Leitão de Barros em 1946 e igualmente protagonizado por António Vilar. Este foi a primeira superprodução do cinema português, que envolveu cenários gigantes, um grande guarda-roupa de época e centenas de figurantes. Este filme de orçamento elevado, foi muito premiado pelo Secretariado Nacional da Informação, de António Ferro. “Camões” foi rodado como se um filme de Hollywood se tratasse, rodado praticamente todo em estúdio. O regime falava através do poeta, a Pátria morria ao mesmo tempo que Camões, mas iria um dia renascer. O filme passou pelo Festival de Cannes, em 1946, o que o consagrou “como a esmagadora maioria dos filmes portugueses dos anos trinta a cinquenta, nunca chegou a ser explorado comercialmente no estrangeiro.” (2). E por último o filme “Capas Negras” (1947), realizado por Armando de Miranda, e ainda com o SNI dirigido por António Ferro. Os principais actores são Amália Rodrigues, Alberto Ribeiro e Artur Agostinho, Vasco Morgado, Barroso Lopes e Humberto Madeira. Com 22 semanas em cartaz, tornou-se no maior sucesso do cinema português até então.

 

Em 1948, é promulgada a Lei n.o 2027, que cria o Fundo do Cinema Nacional (FCN), substituindo o Fundo do Comissariado do Desemprego na concessão de subsídios, e que contém disposições de protecção ao cinema português. António Ferro afirma, num discurso, que o Fundo “será para ficar à disposição dos devotos do cinema nacional e não dos seus exploradores”. Disse ainda, no mesmo discurso, que “Não serão filmes de êxito comercial garantido, mas foi para eles, precisamente, que se criou o Fundo Cinematográfico Nacional que os ajudará a travar a batalha necessária, indispensável, para reabilitar o cinema português e elevar o nível do gosto do público.”. Ferro concluiu afirmando que os filmes de comédia portuguesa também poderão receber ajuda financeira, “quando se trata de comédias amáveis ou até de bons costumes populares, mas não explorem o que há ainda de atrasado, de grosseiro, na vida das nossas ruas ou no porte de certas camadas sociais”. O Fundo atribuiu, ainda, a vários realizadores bolsas de estudo no estrangeiro e criou uma Cinemateca Nacional, com o objectivo de promover o cinema nacional. No entanto, este fundo só financiou filmes do interesse do SNI, ou seja, do regime de Salazar. Manoel de Oliveira esteve diversas vezes impedido de realizar os seus filmes, pois não recebia aprovação do FCN.

 

É ainda em 1948, que surge o movimento dos cineclubes. Foi neste ano que entraram para a direcção, do Cineclube do Porto, Luís Neves Real, Manuel de Azevedo, Henrique Alves Costa e outros, após a aprovação dos seus estatutos. Ao ultrapassar o um milhar de sócios, o cineclube do Porto torna-se um ponto de referência incontornável, para a divulgação do cinema português e estrangeiro. Rapidamente surgem outros cineclubes por todo o páis, como em Coimbra e Lisboa.

 

(1) Tirado do livro “A Invenção do Cinema Português” de Tiago Baptista, página 17, edições Tinta da China, Novembro 2008, Lisboa.

(2) Tirado do livro “A Invenção do Cinema Português” de Tiago Baptista, página 52, edições Tinta da China, Novembro 2008, Lisboa.