“Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó” tenta ser o que não é (Cinema)

"Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó" chega aos cinemas a 3 de agosto. "Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó" chega aos cinemas a 3 de agosto.

Da mesma forma que nem todos os edifícios que se constroem são arquitetura, também nem todos os filmes que se fazem são cinema. A linguagem de “Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó” é uma e apenas uma, a da televisão, e era aí que deveria ter estreado a prequela, em formato telefilme ou em episódio especial na RTP ou em streaming, dividido em duas partes ou não.

“Pôr do Sol” tem mais piada na televisão do que no cinema, e era no pequeno ecrã que deveria ter ficado. O filme tenta ser o que não é (Cinema), nem nunca foi. O projeto nasceu na televisão, com duas temporadas na RTP1, em tom de sátira às telenovelas portuguesas. Não é inovador, mas trouxe uma frescura ao formato e ao tipo de humor de trocadilhos e de referências culturais pop que conquistou o público.

“Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó” é televisão e é nessa linguagem que funciona eficazmente. O seu humor nonsense de piadas e trocadilhos é eficaz num episódio de 30 minutos, que se estende para as redes sociais em formato de memes e publicações que chegam a milhares de partilhas. “Pôr do Sol” foi bastante criativo e inteligente enquanto série da RTP, mas cometeu o erro crasso, do seu ego de crescimento imprevisto e surpreso, de achar que poderia ser levado a sério no cinema. Nunca iria funcionar, mas apesar de tudo tinha esperanças que fosse ser tão divertido como a série, mas conseguiu ser bastante aborrecido, com piadas fáceis.

O filme recua no tempo para contar as origens da família Bourbon de Linhaça e o seu bem mais valioso, o Colar de São Cajó. Talvez tivesse sido mais interessante que a narrativa toda decorresse nos séculos passados, talvez num espírito de “Monty Python e o Cálice Sagrado” (1975). São quase duas horas de filme e o colar de São Cajó nem vê-lo, e nem tem assim tanta relevância.

O filme de Manuel Pureza, que não acrescenta nada à série, consegue arrancar-nos algumas gargalhadas na sua paródia às novelas, mas não tanto como a série, que a meu ver foi muito mais original e divertida. Esticaram tanto a corda que rebentou.

O público português gosta de ver televisão, seja em casa, seja na sala de cinema.

“Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó” faz o mesmo que praticamente todos as outras comédias portuguesas, não sabe distinguir os ritmos e linguagens entre televisão e cinema. A comédia portuguesa continua a não conseguir encontrar uma identidade e expressão própria no cinema português. Os filmes de comédia que se fazem em Portugal são na sua grande maioria muito maus, para não dizer terríveis.

É curioso que muita gente diga que não gosta de ver novelas, ou pelo menos não gosta de assumir que vê, mas depois vá ao cinema ver televisão. E os números do Instituto do Cinema e do Audiovisual comprovam isso mesmo, quando vemos quais os filmes portugueses mais vistos desde 2004. Nos dez filmes mais vistos, seis são comédias: “Morangos Com Açúcar – O Filme” (2012), “Balas & Bolinhos – O Último Capítulo” (2012), “Filme da Treta” (2006), “Curral de Moinas – Os Banqueiros do Povo” (2022), “7 Pecados Rurais” (2013) e “O Pátio das Cantigas” (2015). Este último é até ao momento o filme português mais visto de sempre, com 608 mil espectadores. Certamente que “Pôr do Sol: O Mistério do Colar de São Cajó”, que já foi visto por mais de 31 mil espectadores em três dias, irá tornar-se num dos filmes portugueses mais vistos de 2023, visto a popularidade que a série teve nas redes sociais e pela divertida campanha de marketing que a equipa do filme faz.

Há ainda outro “filme”, outra comédia portuguesa, que vai estrear em agosto, “Um Filme do Caraças”, de Hugo Diogo, que conta no elenco com Pedro Alves, Eduardo Madeira, Ana Arrebentinha, José Pedro Gomes, António Machado, Clara Gondin, Francisco Menezes e Herman José. Um elenco com rostos conhecidos que compõe uma fórmula já bastante conhecida das comédias portuguesas: um produto televisivo projectado na sala de cinema.