Salvador Allende e o Golpe de 1973 em 7 filmes

O 11 de Setembro de 1973 marca um ponto de inflexão trágico na história política do Chile e, por reflexo, da América Latina
Salvador Allende e o Golpe de 1973 em 7 filmes Salvador Allende e o Golpe de 1973 em 7 filmes
Foto: Santi Visalli

O 11 de Setembro de 1973 constitui um vértice dramático na trajectória política do Chile e, por extensão, da América Latina. Naquele fatídico dia, as Forças Armadas cercaram o Palácio de La Moneda, e Salvador Allende (1908-1973), presidente eleito democraticamente, pereceu em circunstâncias que permanecem envoltas em controvérsia, entre o homicídio e o suicídio.

Antes do seu derradeiro instante, Allende proferiu um último pronunciamento radiofónico, que Horacio Gutiérrez, docente da FFLCH-USP, descreve como um momento de “reflexão política, premonições e sensibilidade”, condensando a dimensão simbólica e ética da sua liderança.

Primeiro socialista marxista eleito democraticamente como presidente da república e chefe de Estado nas Américas, Allende empreendeu esforços para enfrentar desigualdades estruturalmente profundas, num país marcado pela concentração de riqueza nas mãos de uma ínfima elite. As reformas socialistas que delineou tinham por objetivo a redistribuição de recursos e o fortalecimento do poder económico e político das classes trabalhadoras.

Tal projecto, porém, confrontou interesses de vulto: parlamentares, militares, sectores do Judiciário, meios de comunicação e grandes conglomerados económicos, nacionais e internacionais, uniram-se na oposição ao governo, culminando no golpe que visava estagnar as reformas e restringir a influência social dos trabalhadores.

O regime instaurado pelo general Augusto Pinochet, conforme assinala Gutiérrez, implementou um modelo neoliberal assentado na exclusão social e no autoritarismo. Observou-se a reversão da reforma agrária e a privatização de sectores estratégicos, incluindo educação, saúde, segurança social e empresas estatais. Apesar de se registarem indicadores macroeconómicos positivos e algum crescimento económico, o modelo acentuou disparidades sociais e relegou vastas camadas da população à marginalidade, incapazes de aceder plenamente ao mercado por limitações financeiras.

A ditadura caracterizou-se por uma repressão sistemática e por violações massivas dos direitos humanos: detenções arbitrárias, tortura, desaparecimentos forçados, execuções, exílios e censura constituíram instrumentos de controlo político.

Para Gutiérrez, este período evidencia que qualquer projecto de sociedade deve integrar o respeito inalienável pelos direitos humanos, sociais e individuais, condição sine qua non para a estabilidade política e a justiça social.

O Chile contemporâneo continua a reflectir estas tensões estruturais. Como observa Ester Gammardella Rizzi, docente da EACH-USP, a Constituição herdada da ditadura permanece um factor determinante das desigualdades persistentes.

Estas disparidades emergiram de forma dramática durante o “estallido social” de 2019, expondo os limites do modelo neoliberal na distribuição de oportunidades e recursos. A resposta institucional traduziu-se na abertura de um processo constituinte: em Outubro de 2020, 78% dos eleitores aprovaram a criação de uma nova Constituição, seguida pela Convenção Constitucional entre Julho de 2021 e Julho de 2022. O texto proposto, porém, foi rejeitado por mais de 60% dos votantes em Setembro de 2022, conduzindo a uma nova abordagem constituinte em Dezembro do mesmo ano, com plebiscito previsto para 17 de Dezembro.

A trajectória recente do Chile evidencia a perenidade de conflitos estruturais entre democracia, crescimento económico e justiça social. A análise destes processos exige compreender não apenas os eventos históricos, mas igualmente as tensões políticas e económicas que continuam a moldar o país, desde o legado de 1973 até às reformas constitucionais contemporâneas.

Para aprofundar a compreensão do golpe de 1973, da ditadura subsequente e do período posterior, seleccionei sete produções audiovisuais que oferecem diferentes perspectivas sobre esta época.

“Allende em seu labirinto” (2014), de Miguel Littín

O filme de Littín narra os acontecimentos das últimas sete horas do ex-presidente do Chile, Salvador Allende, e dos seus colaboradores mais próximos no interior do Palácio de La Moneda, durante o cruel golpe militar ocorrido em 11 de setembro de 1973, que marcou o fim da democracia no Chile. A obra é baseada em eventos reais.

“Allende, meu avô Allende” (2015), de Marcia Tambutti Allende

Com esta obra, Marcia Tambutti procura romper com a tradição familiar de não abordar a tragédia que os afectou no passado. Um golpe de Estado derrubou o seu avô, Salvador Allende, o primeiro presidente socialista democraticamente eleito. Agora, ela acredita ter chegado o momento de recuperar memórias e imagens da sua vida que foram perdidas durante o golpe — um passado pessoal que permaneceu oculto, obscurecido pela importância política da figura de Allende, pelo exílio e pela dor da família. Este documentário, premiado com o Olho de Ouro na Quinzena dos Realizadores em 2015, revela o significado de um silêncio mantido por décadas.

“Chove sobre Santiago” (1976), de Helvio Soto

Focado no golpe militar de 11 de setembro de 1973, o filme retrata tanto a preparação quanto o momento do golpe, quando o governo de Salvador Allende foi derrubado por não contar com apoio nas forças armadas. Allende havia sido eleito presidente em 1970, com a Unidade Popular a assumir o governo. No entanto, o verdadeiro poder manteve-se nas mãos de elementos traidores dentro da estrutura burocrático-militar do Estado.

“Estádio Nacional” (2002), de Carmen Luz Parot

Do dia 11 de setembro a 9 de novembro de 1973, o Estádio Nacional do Chile transformou-se num local de detenção, tortura e morte. Mais de doze mil prisioneiros políticos estiveram ali detidos sem acusações formais ou processo judicial, após o violento golpe militar que depôs o governo socialista de Salvador Allende. Pelo menos sete mil pessoas sofreram torturas sem punição. Este documentário constitui a primeira investigação jornalística a oferecer uma cronologia precisa desses acontecimentos.

“Salvador Allende” (2004), de Patricio Guzmán

O documentário traça a vida e as realizações do presidente chileno Salvador Allende, desde a infância em Valparaíso até à sua morte durante o golpe militar de 11 de setembro de 1973, incluindo entrevistas e imagens de arquivo.

“Machuca” (2004), de Andrés Wood

“Machuca” é um dos filmes mais sensíveis desta pequena selecção, por retratar o processo político chileno através do olhar de duas crianças de origens sociais distintas: Gonzalo Infante e Pedro Machuca. Infante nasce na classe média de Santiago, enquanto Machuca provém de uma población, ou favela. Os destinos de ambos cruzam-se quando Machuca passa a estudar na mesma escola de Infante, a Saint Patrick — uma iniciativa do padre e director McEnroe, inspirado nas políticas educativas do governo de Allende.

“No” (2012), de Pablo Larraín

O filme retrata o plebiscito convocado pelo governo do ditador Augusto Pinochet em 1988, uma tentativa de conferir uma falsa legitimidade ao regime autoritário. O referendo foi, na realidade, uma manobra para aplacar pressões internacionais e mostrar que a população apoiava o governo de Pinochet. Surpreendentemente, nem os apoiadores da opção “Não” esperavam que a campanha publicitária conseguisse despertar na população a sensação de uma mudança iminente. Isso acabou por abrir caminho para a queda do regime ditatorial e o início de uma nova era no Chile, como propagado pelos slogans criados pelo publicitário René, interpretado por Gael García Bernal.