Salvador recebe oficinas de crítica cinematográfica e restauração digital

As oficinas acontecem no Cine Glauber Rocha durante o mês de março
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O Panorama Internacional Coisa de Cinema, com apoio do Instituto Flávia Abubakir e do Governo da Bahia, promove em Março duas oficinas no Cine Glauber Rocha, em Salvador. As atividades fazem parte da programação do festival e são voltadas a jovens e interessados em cinema.

Oficina de Crítica e Júri Jovem

De 23 a 26 de Março, o Panorama Internacional Coisa de Cinema promove a Oficina de Crítica, com Adolfo Gomes, no Cine Glauber Rocha. As inscrições estão abertas até 17 de Março, no site panorama.coisadecinema.com.br.

A oficina tem como objetivo estimular a reflexão sobre o audiovisual através da escrita crítica. Durante as sessões, os participantes irão analisar filmes em detalhe, realizar exercícios de síntese textual e discutir as contribuições de críticos brasileiros e internacionais, como João Bénard da Costa, Roger Ebert e Luiz Carlos Oliveira Jr., para a fruição teórica e estilística das obras cinematográficas.

O curso explora ainda estratégias de escrita que vão desde a linguagem jornalística à prosa livre, procurando equilibrar objectividade analítica e especulação pessoal. Os participantes terão a oportunidade de integrar o Júri Jovem do festival e escrever para o blog Pílulas Críticas, produzindo críticas concisas sobre os filmes exibidos.

Adolfo Gomes, jornalista, produtor cultural e cineclubista, será o responsável pela oficina. Gomes tem experiência como curador de festivais de cinema e artes, integrou júris de diversos eventos audiovisuais e colaborou com publicações especializadas como Contracampo e CineRocinante. É fundador da Associação e Cineclube Amigos do Cinema.

A oficina decorre presencialmente no Cine Glauber Rocha, das 9h às 12h.

Oficina de Restauração Digital de Filmes

Nos dias 30 e 31 de Março, será realizada a Oficina Introdutória à Restauração Digital de Filmes: Estudos de Caso em Múltiplos Formatos, ministrada por William Plotnick, no Cine Glauber Rocha. As inscrições estão abertas até 19 de Março, através do site panorama.coisadecinema.com.br.

A iniciativa oferece uma introdução prática ao processo de restauração digital de filmes, baseada em estudos de caso desenvolvidos pela Cinelimite desde 2023. Durante duas horas, os participantes poderão acompanhar as principais etapas de pós-produção após a digitalização de materiais em película, com exemplos em 35mm, 16mm e 8mm, formatos com características técnicas distintas que influenciam as decisões ao longo do processo.

Entre os conteúdos abordados destacam-se: diferentes tipos de arquivos digitais gerados num fluxo de trabalho de restauração, conceitos sobre o filme enquanto formato físico e digital, aplicações do DaVinci Resolve para correção de cor e reparos digitais, leitura de scopes de cor e estratégias para lidar com trilhas sonoras problemáticas em filmes analógicos.

A oficina é dirigida a iniciantes e pessoas com nível intermédio interessadas em preservação audiovisual, apresentando exemplos visuais e sonoros que ilustram cada etapa do trabalho.

William Plotnick é arquivista audiovisual natural de Nova Jersey, Estados Unidos, e criador e cofundador da Cinelimite, organização sem fins lucrativos dedicada à preservação e distribuição de obras raras do cinema brasileiro. É mestre em Preservação de Filmes pela New York University e em Estudos de Cinema pela Columbia University.

Panorama Internacional Coisa de Cinema

O Panorama Internacional Coisa de Cinema nasceu ambicioso e consolidou-se como um dos principais festivais de cinema da Bahia. No primeiro ano, o evento ocupou três salas, exibiu 33 filmes em película e reuniu mais de seis mil pessoas, algumas sentadas no chão da Sala Walter da Silveira.

O festival manteve-se praticamente sem recursos até à quinta edição, quando passou a receber o apoio do Governo do Estado da Bahia, parceiro mais longevo desde então. Nos últimos dois anos, a Prefeitura Municipal de Salvador também se juntou à lista de patrocinadores. No setor privado, o Instituto Flávia Abubakir apoia o Panorama desde 2021. Os curadores Flávia e Frank Abubakir destacam-se pelo trabalho de preservação da memória cultural da Bahia e pelo fortalecimento do festival.

A edição de 2025 decorreu ao longo de oito dias e apresentou mais de 110 filmes, entre longas e curtas-metragens, reunindo produções baianas, nacionais e internacionais. Entre as mostras, destaque para a exibição de filmes restaurados, incluindo clássicos dos anos 1970, como “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues, e “Iracema, uma transa amazônica”, de Jorge Bodansky e Orlando Sena. Bodansky e a atriz Edna dos Santos Cereja marcaram presença em Salvador para acompanhar a exibição.

O evento incluiu ainda o I Seminário de Exibição, que reuniu mais de 30 exibidores de diferentes regiões do país, representando cerca de 400 salas de cinema. A iniciativa debateu a regulamentação do VOD e reforçou a importância de manter a experiência cinematográfica em sala, lembrando que a exibição é essencial para a sobrevivência do cinema nacional.

Segundo dados do festival, o Brasil produz cerca de 500 longas-metragens por ano, mas a maior parte não chega ao público: menos de 3% dos ingressos vendidos correspondem a filmes nacionais. Por isso, o Panorama defende a criação de políticas públicas que apoiem o setor, composto majoritariamente por pequenas e médias empresas de exibição.

O festival sublinha a necessidade de valorização da produção e exibição nacionais. “É preciso que autoridades, como Lula, Jerónimo e Bruno Reis, participem de estreias brasileiras e baianas, mostrando à população a importância de assistir aos nossos filmes. O cinema é arte e diversão, mas também indústria, emprego e renda”, afirma a organização.