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Trilogia do Silêncio: Parte III – “Paisagem na Neblina”

A trilogia do silêncio de Theodoros Angelopoulos
Parte III – “Paisagem na Neblina” (1988)

Alexandros (Michalis Zeke) e Voula (Tania Palaiologou), dois irmãos, ainda crianças, partem numa viagem em busca do seu pai, que nunca conheceram e é suposto estar a viver na Alemanha, ou pelo menos é essa a informação que a sua mãe lhes dá. A obsessão pela figura paterna desconhecida leva-os a percorrer a Grécia de comboio, a fugir à polícia, bem como a outros acontecimentos e peripécias.

Após irem várias vezes à estação de comboios, mas sem nunca entrarem no comboio com destino à Alemanha, um dia ganham coragem e embarcam no comboio expresso para o país germânico. Umas horas depois são capturados pelo revisor e impedidos de seguir viagem. Um polícia, chamado pelo responsável da estação onde foram deixados, leva-os ao encontro de um tio que trabalha numa fábrica ali perto. Este explica ao polícia que os seus sobrinhos procuram o pai, mas ninguém, nem a mãe, sabe quem ele é: ambos são filhos de pais diferentes, resultado de encontros casuais. Os irmãos ouvem a conversa, mas recusam-se a acreditar no tio, preferindo agarrar-se à história contada pela mãe. Assim sendo, prosseguem a sua jornada, novamente entregues a si mesmos. Esta revelação, que em muitas obras seria o twist final que deixa um sabor agridoce, com Angelopoulos acontece no início: é o mote para a verdadeira descoberta, para a verdadeira viagem, tanto das personagens, como do espectador.

Percorrendo a estrada a pé, por terem sido expulsos do comboio e fugido ao tio e à polícia, encontram Orestis (Stratos Tzortzoglou), que está a reparar o seu autocarro, veículo que conduz como parte da sua ocupação – é membro de uma companhia de teatro que viaja pelo país, representando uma peça sobre a história grega, mas que, no entanto, já viu melhores dias, e tem cada vez menos trabalho. O caminho dos irmãos diverge daquele de Orestis, para mais tarde se tornarem a reencontrar. Enquanto estão separados do condutor/ator, Voula enfrenta uma situação trágica e marcante, que a irá mudar para sempre. Mas enquanto estão na sua presença, divertem-se, brincam, sorriem, como não fazem em qualquer outra situação. Aliás, é mais frequente ouvirmos as vozes dos dois irmãos quando eles estão a pensar, em voice over, do que numa interação com outra personagem da obra (sem ser Orestis).

Se nos outros dois filmes da trilogia do silêncio encontramos elementos espirituais e metafísicos, neste “Paisagem na Neblina” atingimos o clímax neste aspeto, com várias alegorias presentes em diferentes cenas: o cavalo que morre enquanto decorre uma festa de casamento; os adultos estáticos, ao ver neve a cair, que permitem a fuga das crianças da esquadra da polícia; o homem idoso que toca uma música triste no violino, dentro de um café, enquanto Alexandros arruma as mesas como forma de trabalho para poder comer; a mão gigante, sem o dedo indicador, que é retirada do mar por um helicóptero; e, ainda, o negativo encontrado no lixo por Orestis, onde se vê imenso nevoeiro, mas, para lá do nevoeiro, ele diz ver uma árvore, coisa que Alexandros e Voula não conseguem observar naquele pequeno pedaço de película.

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O próprio Orestis é um elemento espiritual e alegórico, que funciona como um guia ou um anjo da guarda – enquanto os dois irmãos estão na sua presença nada de mal lhes acontece, pelo contrário: têm comida, um local onde dormir, divertem-se sua companhia. No entanto, separam-se dele após irem a um bar, onde o ator de teatro combinou encontrar-se com um potencial comprador da sua mota, visto o serviço militar estar iminente e ele não ter uso para o veículo durante algum tempo. Fica implícito que Orestis e esse homem têm relações sexuais, e isso parte o coração de Voula, que começava a apaixonar-se por aquele homem tão atencioso – talvez o único homem atencioso que encontrou. Após os intercetar numa autoestrada completamente vazia, dá-se um longo abraço entre Voula e o futuro militar, que tenta consolar a jovem, dizendo-lhe que “da primeira vez é assim”, referindo-se ao amor. No final, deixa-os seguir o seu percurso, vendo-os pela última vez a desaparecer na estrada. 

Chegados a uma estação de comboio, perto do final do filme, um momento de tensão: Voula pede dinheiro a um soldado para os bilhetes de comboio, de modo a evitar mais uma expulsão e todas as consequências que isso acarretaria: mais fome, mais frio, mais uma ida à polícia e, possivelmente, o regresso definitivo a casa. O silêncio não serve só para fazer refletir, ou para expressar sentimentos que de outro modo não é possível fazer, mas também para criar tensão, como é visível nesta cena. Nós, espectadores, devido aos acontecimentos anteriores, provavelmente imaginamos outro desfecho, mas, no final, o soldado dá o dinheiro a Voula. Não pensaram que seria preciso outra coisa além do bilhete, mas ainda assim faltava um documento importante: o passaporte. Quase chegados à Alemanha, os dois irmãos vêm-se obrigados a atravessar a fronteira de noite, num pequeno barco. Um último obstáculo que não os vai impedir, agora que estão mais próximos do que nunca. Ouvem-se tiros dos soldados que controlam a fronteira e, do escuro da noite, estamos subitamente numa paisagem repleta de nevoeiro, que Alexandros crê ser a Alemanha. Juntos, caminham pelo nevoeiro, enquanto o irmão mais novo encoraja Voula para não ter medo. Deparam-se uma árvore, uma árvore por entre o nevoeiro espesso, numa paisagem igual à que Orestis descreveu quando os três olharam o negativo encontrado no lixo.

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Esta passagem da fronteira terrestre talvez seja mais uma alegoria, que simboliza a passagem de uma fronteira espiritual, uma travessia feita pelos irmãos que, momentos antes dos tiros dos soldados germânicos, declaram não ter medo. A paisagem na neblina, aquela árvore escondida atrás da névoa, é o paraíso destas duas crianças, o local onde finalmente vão encontrar as respostas e a paz que procuram, um lugar profetizado por Orestis, o anjo da guarda de Alexandros e Voula. Para mim, por todas estas temáticas, e ainda pela realização de Angelopoulos, pela direção de fotografia, pelo uso de som e por tudo o que este filme consegue fazer, sinto-me confiante em dizer que “Paisagem na Neblina” é o pináculo da trilogia, aquele que se destaca dos demais, e uma das obras-primas da história do cinema.

Talvez o mote do filme, e até da própria trilogia do silêncio num cômputo geral, seja uma reflexão feita por Orestis, numa caminhada noturna com as duas crianças, no dia em que as conhece: “Vocês são miúdos engraçados, sabiam? É como se vocês não se importassem que o tempo passe, e mesmo assim eu sei que estão com pressa para partir. É como se não fossem a lado nenhum, no entanto vocês vão a algum lado” para logo depois acrescentar “Eu? Eu sou um caracol que rasteja para o nada, não sei para onde vou. Uma vez pensei que sabia”. Esta reflexão consegue encapsular e descrever com brilho e sensibilidade o percurso dos dois irmãos, bem como do Spyros de “Viagem a Citera” e do outro Spyros, de “O Apicultor”. Além do mesmo nome dos dois homens, também o nome dos irmãos é o mesmo em Citera e neste Neblina. Coincidência? Ou será que Angelopoulos entendia estes três filmes como extensões uns dos outros? Se atentarmos à ordem inversa desta trilogia, temos crianças que procuram pelo pai, um pai que deixa o seu lar e um pai que regressa ao lar após um longo exílio. Seja como for, Theodoros Angelopoulos criou um universo onde vários temas importantes são explorados, com um estilo de realização único que o tornou numa das mais importantes vozes do cinema.

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