Um pequeno grande filme: “Dormir de Olhos Abertos” de Nele Wohlatz — entrevista com a realizadora

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Um filme brasileiro interpretado por chineses e realizado por uma alemã: é o belíssimo segundo filme de Nele Wohlatz que chega à Berlinale através da paralela Encounters, de onde tem saído o melhor da edição de 2024. Pelo meio dos preparativos para a apresentação do filme em Berlim no sábado, que contou com a presença de Kléber Mendonça Filho, produtor do filme, falamos com a realizadora.

Uma turista taiwanesa (Liao Kai Ro) se encontra “lost in translation” pelas ruas do Recife, dando início ao belo e hilário novo filme da diretora alemã Nele Wohlatz, uma coprodução entre o Brasil, Taiwan, Argentina e Alemanha. À primeira vista, “Dormir de Olhos Abertos” pode parecer um tanto intimidador, com sua aura de filme impenetrável, como se pertencesse a um gênero que ainda não foi inventado. No entanto, é um filme que vai revelando a sua beleza sedutora lentamente e através de pequenos detalhes, quase que imperceptíveis se não for dedicada a devida atenção.

O filme segue uma série de personagens — como a jovem taiwanesa que chega ao Brasil sem falar uma palavra de português, ou o vendedor chinês que tem uma loja de guarda-chuvas numa Recife ensolarada —, enquanto eles se estabelecem num país que não fala a sua língua ou que compartilha dos mesmos códigos de socialização. Enquanto as histórias deles se cruzam, e outras que simplesmente desaparecem sem explicação, o filme vai habilmente forjando pequenas interações de mal-entendidos para explorar o que é ser “o outro” de uma perspectiva completamente original e repleta de humor.

Até mesmo quando aborda assuntos sérios, como na cena em que eles têm de lidar com o bullying dos vizinhos de classe alta, que acreditam que eles não pertencem ao mesmo ambiente, o filme faz troça de si mesmo e cria as situações mais absurdas e hilariantes.

“Dormir de Olhos Abertos” é um filme inteligentemente construído, onde um dos seus maiores trunfos é prestar minuciosa atenção às nuances da língua, e até brincando com as contradições do português brasileiro. Um exemplo de como esse dispositivo narrativo é utilizado pode ser visto na tradução dos diálogos (em mandarim, português e espanhol), onde as legendas são divididas em cores — amarelo para português, branco para todas as outras, e assim abrindo caminho para a realizadora criar momentos singelos, mas mordazes, de equívocos do cotidiano. Uma comédia de enganos que ao mesmo tempo em que elabora uma série de situações cômicas para rir do absurdo da vida e das convenções sociais do cotidiano, consegue levantar diversas questões filosóficas sobre o que é pertencer a um lugar ou se identificar como parte dele. No meio das preparações para a estreia do filme na Berlinale, que aconteceu no sábado, na presença do realizador Kléber Mendonça filho, falamos com a realizadora sobre o seu belíssimo novo filme.

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É muito bonita a forma delicada como o filme vai se abrindo e desenvolvendo a narrativa,  trazendo todas aquelas questões filosóficas de maneira muito natural e quase silenciosa. Poderia falar um pouco sobre a origem do projeto?

Muito obrigada. Meu último filme, “O Futuro Perfeito” (2016), girava em torno de questões de linguagem e identidade após a migração. É um filme otimista. Quando o terminamos, a atriz principal, Zhang Xiaobin, me disse: “agora estou aqui em Buenos Aires e estou bem. Acho que poderia ir a qualquer lugar e me adaptar, mas não há um lugar onde sinto que pertenço de verdade.” Eu venho da Alemanha. Na época das filmagens, eu mesma morava como estrangeira na Argentina há mais de dez anos. Depois de tantos anos, eu havia perdido o sentimento de pertencer ao país de onde vim. Mas também percebi que, como estrangeira, nunca me tornaria uma parte invisível da nova sociedade. Eu queria fazer um filme que pudesse se passar em qualquer lugar do mundo, com pessoas que poderiam ter ido a outro lugar e que pareciam não pertencer a lugar nenhum. Conheci o Kléber Mendonça Filho num festival de cinema, e ele me falou sobre as ‘torres gêmeas’, um complexo de apartamentos de luxo construído ilegalmente no Recife. Através de uma série de coincidências e mal-entendidos, grupos de migrantes chineses se mudaram para essas torres projetadas para a elite recifense. A partir daí surgiram uma série de conflitos raciais e alguns detalhes pareciam quase lendas urbanas de tão absurdo. Então cheguei à conclusão de que as ‘torres gêmeas’ pareciam prometer o contexto que eu estava à procura.

Você brinca muito com a linguagem no filme, assim já tinha feito em “O Futuro Perfeito”. Não apenas como uma ferramenta para estabelecer comunicação e criar mal-entendidos, mas também como um marcador de identidade. Poderia falar um pouco sobre esta questão do filme e como foi trabalhar com tantas línguas ao mesmo tempo e com atores que provavelmente não falavam todas elas?

Eu estava interessada no que podíamos criar juntos, mesmo que a princípio não conseguíssemos nos entender mutuamente. “O Futuro Perfeito” abordava explicitamente problemas de viver e atuar em uma língua estrangeira, também a nível meta. Brincava com os paralelos entre aprender a agir e aprender a falar uma nova língua, sempre incorporando uma forma atrapalhada de lidar com isso como parte do filme. Desta vez, eu queria trabalhar a “transnacionalidade” em termos de narrativa e produção. Tivemos muitas semanas de ensaios com os não-atores, com Leonardo Lacca como coach de atuação. Durante os ensaios, descobrimos nossas formas de comunicar e, mais importante, construímos uma relação de confiança. Os mal-entendidos certamente aconteceram e nunca pararam de acontecer. Então, a coisa mais importante foi estabelecer uma relação de confiança mútua. As diferentes línguas no set foram talvez o principal desafio. Tivemos que inventar nosso próprio sistema de tradução. Os atores e os tradutores chineses discutiram nos ensaios sobre o roteiro e fizeram alterações na língua. Eu não estava acostumada a abrir mão de tanto controle, mas consegui me adaptar. Estava mais interessada em um texto que crescesse coletivamente do que na perspectiva de um único indivíduo. Os tradutores foram fundamentais para a realização do filme: não apenas para traduzir as palavras, mas também para permitir um entendimento emocional mútuo. Durante a pesquisa, tive grande ajuda da minha atriz do filme anterior, Zhang Xiaobin. Durante a produção, Milena de Moura, uma documentarista de São Paulo que estudou em Pequim, foi nossa principal tradutora. Mas até os atores atuaram como tradutores. Então foi um processo de tradução coletivo e interminável. Para mim, tudo pareceu muito orgânico e parecido, de fato, com o que é uma produção cinematográfica, que também entendo como um ato de tradução.

Ainda sobre os atores, há uma mistura muito interessante de rostos conhecidos do cinema brasileiro (e também internacionais como francês Nahuel Pérez Biscayart – que fala mandarim e português no filme!) e não-atores. Quais foram os desafios de juntá-los todos no mesmo filme?

O maior desafio foi escalar os não-atores chineses, especialmente porque estavam vivendo em vários lugares diferentes da mundo. Procuramos por eles no Recife, Buenos Aires, São Paulo e Taiwan, e inclusive até fizemos alguns castings pelo Zoom. Com a pandemia, muitos dos chineses com quem eu queria trabalhar haviam voltado para a China. Quanto aos atores profissionais, Nahuel havia feito uma pequena participação no meu último filme, então eu sabia que sua presença ajudaria os não-atores a continuarem atuando. Ele tem uma grande sensibilidade de ritmo e composição. Num cenário com tantas pessoas diferentes, ele naturalmente garante que tudo permaneça em constante movimento, quase como um agente secreto diante da câmera. Alguns diretores dizem que você não deve misturar atores experientes e não-atores em um elenco, mas eu nunca entendi qual é o problema. É importante que os atores experientes sejam sensíveis a uma forma de trabalho mais híbrida e capazes de adaptar seu estilo de atuação aos mais inexperientes e a potencializarem-se mutuamente. O elenco brasileiro também é uma mistura de atores profissionais e estreantes. Dividimos o elenco: Gabriel Domingues cuidou dos atores profissionais e Karina Nobres, que tem experiência em cinema documental, foi atrás dos não-profissionais. Essa divisão funcionou muito bem. Eu admiro muito a cena cinematográfica de Pernambuco. Há pessoas maravilhosas trabalhando na frente e atrás da câmera, e me sinto sortuda por trabalhar com elas.

O filme é produzido por Kléber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. Como aconteceu a colaboração, e filmar em Recife sempre foi o plano inicial ou uma consequência disso?

Eu continuava pensando nas ‘torres gêmeas’ de Recife e nas histórias que Kléber havia me contado. Um dia, escrevi para ele e perguntei se ele estava planejando um filme sobre as torres e, como resposta, ele me convidou para o festival de cinema deles, o Janela do Recife. Em minha segunda visita, fui com Zhang Xiaobin, a atriz do meu primeiro filme, e começamos a visitar as lojas chinesas no centro antigo da cidade: duas estrangeiras, ambas já não muito confortáveis na sua cidade adotiva de Buenos Aires, entrevistando a comunidade chinesa do Recife sobre seu cotidiano e problemas de pertencimento. Rapidamente, conseguimos acesso a uma comunidade que os cineastas locais não conhecem muito bem. Acho que Kléber e Emilie ficaram curiosos sobre esse olhar estrangeiro sobre a cidade deles, e mostraram interesse em produzir o filme. Emilie mora em Recife há muito tempo, mas nasceu na França, também é de outro país. Sou muito agradecida por ela ter entrado nesta aventura. Não é fácil produzir filmes com realizadores de outro país, então isso é um pouco como uma ideia utópica se tornando realidade. Espero que no futuro, o sistema de financiamento de filmes se adapte mais à realidade de viver e trabalhar em outros países e outras línguas.

Por falar nisso, você é uma realizadora alemã e a maioria dos seus filmes acontecem longe da Alemanha. Isso é algo que não te interessa (filmar em alemão ou na Alemanha)?

Então, eu me mudei para a Argentina em 2009, logo após a universidade, e me tornei realizadora ali. Descobri que a minha melhor opção era abraçar a minha perspectiva estrangeira, porque era isso que eu tinha. Recentemente, estou mais tempo na Alemanha e estou escrevendo um roteiro que se passa na minha cidade natal, onde a maioria da minha família mora, e tem a ver com o retorno ao lar. Acho incrivelmente desafiador tomar a distância necessária para escrever sobre minha cidade e os seus habitantes. Vamos ver se consigo criar uma estratégia para encontrar essa distância.

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