A repressão cultural na URSS do princípio dos anos 1980 é o tema de “Verão”, de Kirill Serebrennikov, que entrou em cartaz nesta quinta-feira (30). Assumido crítico do regime de Vladimir Putin, o realizador russo, de 49 anos, foi detido em Agosto de 2017, acusado de desvio de dinheiros públicos, e mantido em prisão domiciliária. Esse caso foi visto pela comunidade artística como censura e “um golpe do Kremlin” para silenciar Serebrennikov.

“Verão” (“Leto”, no título original), que concorreu à Palma de Ouro no ano passado e foi exibido no 16º IndieLisboa, trata menos de política e mais de música a preto e branco (e alguns flashes a cores).

O filme conta a história do músico Víktor Tsoi (Teo Yoo), um dos nomes do rock soviético, morto tragicamente num acidente de carro aos 28 anos, em 1990. No início de sua carreira, Víktor, da banda Kino, foi apadrinhado por outro músico da cena cultural de Leninegrado, Mike Naumenko (Roman Bilyk), dos Zoopark, e a sua mulher, Natalya (Irina Starshenbaum), rebatizada aqui de Natacha. Suas primeiras músicas, reproduzidas no filme, falavam basicamente do desejo de se divertir, beber e sair com os amigos.

Através da amizade e do triângulo amoroso, é explorada a cena cultural underground da ex-URSS, como o Leningrad Rock Club, primeira casa legal de concertos de rock da cidade, inaugurada em 1981. No filme, o LRC é controlado pelo Estado que se certifica de que ninguém da plateia cante, se levante, dance ou mostre qualquer sinal de engajamento ou entusiasmo com as bandas.

Sob essa rigorosa vigilância, os músicos não podiam extravasar em suas canções como estavam a fazer seus ídolos David Bowie, Iggy Pop, Blondie, Bob Dylan e os Talking Heads. Serebrennikov cria, então, sequências que parecem terem sido imaginadas. Ao longo do filme, um personagem (talvez um alter ego do realizador) se direciona para a câmara e diz aos espectadores que “infelizmente, isto não aconteceu”. Além disso, são inseridas espécies de videoclips à la MTV. Isso faz com que a linha entre o biográfico e a fantasia se desfoque como que para reiterar que as cenas são de lembranças, isto é, podem ou não podem terem realmente existido.

“Verão” é melancólico, às vezes até deprimente, em vez de rebelde ou alegre. Assim quis o realizador russo mostrar uma geração. Entretanto, o filme acaba por ser uma representação romantizada deste período soviético tardio, de estagnação, e da camada da classe artística da qual Tsoi e Naumenko surgiram.

«Verão» - O rock soviético dos anos 80 aconteceu
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