Críticas, Nos Cinemas

«Tal Pai, Tal Filho» – Amor ou sangue?

8 out of 10

Um ano depois de ter estreado em Portugal o magnifico “O Meu Maior Desejo”, temos a sorte de assistir à estreia de mais um filme do conceituado cineasta japonês, Hirokazu Koreeda. “Tal Pai, Tal Filho”, vencedor do Prémio do Júri, na 66ª edição do Festival de Cannes. Este é mais um belo retrato sobre a família, sobre o olhar da infância, um tema que o realizador sempre explorou nos seus filmes anteriores. O tema é sempre o mesmo, mas a história é sempre outra e em cada filme ficamos estupefactos com a forma simplista que ele usa para contar várias histórias, que tocam sempre no mesmo assunto. A família. A infância.

Koreeda, que assina também o argumento, conta-nos a história de duas famílias, uma abastada e outra de um meio social mais baixo, que descobrem que os seus filhos foram trocados na maternidade. A primeira é composta por Midori, a mãe, Ryota, o pai, um homem determinado, trabalhador, bem-sucedido, autoritário, que impõe uma educação rígida e planeada ao seu filho Keita, de seis anos. A segunda é composta por Ryusei, o filho, Yukari, a mãe, e Yudai, o pai, que é um lojista que gosta de trabalhar pouco, muito divertido e adora brincar com crianças. As duas famílias vão ter que unir esforços para lidarem com o difícil dilema de terem de escolher entre a força do sangue ou do amor.

A questão que se coloca de imediato ao espectador é se seriamos capazes de trocar um filho adoptivo (por quem temos fortes laços afectivos), por um filho biológico (por quem temos laços de sangue). É deveras um pesadelo para os pais. Durante anos vivemos e investimos numa criança e de repente sabemos que aquele afinal não é o nosso filho biológico. O biológico, é um estranho, mas aquilo que nos une é precisamente o mesmo sangue, nada mais. O que é que conta mais, a educação e o amor ou o sangue, o biológico? Koreeda acaba por responder a isto tudo no fim. Para se ser pai de alguém não é necessário ter-se o mesmo sangue. É o amor, o afecto, a atenção, a educação e o investimento que damos ao filho que faz um bom pai.

Ao contrário do que acontece em “O Meu Maior Desejo”, aqui não é tanto pelo olhar das crianças, mas sim o dos adultos que importa. Neste caso o maior enfoque reside na figura paternal, o Pai, portanto. A personagem Ryota vê-se obrigado a questionar o seu papel de pai e a ver os objectivos que tinha planeado para o seu filho, que afinal não é dele, a serem destruídos. Através de concelhos de amigos, de colegas de trabalho e até do próprio pai, Ryota tenta perceber qual será a opção mais correcta a adotar, sem ferir as duas crianças.

O cineasta torna a pegar num tema complexo e faz uma reflexão pessoal sobre a paternidade através de uma família japonesa contemporânea de uma forma natural e poética, sempre com uma realização quase documental. O realizador preocupa-se também em enfatizar a questão social destas duas famílias, mostrando a grande divisão entre os ricos e os pobres na sociedade japonesa.

As duas horas de filme são talvez um pouco excessivas, no entanto, é uma duração compreensível que permite que as personagens respirem, para que o espectador veja o quotidiano delas, através de pequenas ações e gestos. A minimalista banda sonora de piano, a excelente fotografia e boas interpretações por parte do elenco, fazem deste filme, condoído de sentimentos, um dos melhores do ano. Koreeda continua minimalista e único em bulir todos estes conceitos sobre a família nos seus filmes.  O belo poema sobre o amor paternal, “Tal Pai, Tal Filho”, foi, na minha opinião, a melhor forma de terminarmos este ano de 2013.

Realização: Hirokazu Koreeda

Argumento: Hirokazu Koreeda

Elenco: Masaharu Fukuyama, Machiko Ono, Yôko Maki, Rirî Furankî

Japão/2013 – Drama

Sinopse: Ryoata, um arquitecto obcecado com o sucesso profissional, forma com a sua jovem esposa e o seu filho de 6 anos de idade uma família ideal. O pior acontece quando descobre que a maternidade onde a sua criança nasceu trocou o bebé por outro na altura do nascimento. A criança que levou para casa não é sua e o seu filho biológico acabou por crescer numa comunidade pobre.

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