Depois do surpreendente “Procurem Abrigo” (2011), o realizador americano Jeff Nichols conquistou a crítica novamente na edição de 2012 do Festival de Cannes com o filme “Mud”. Este é um simples conto americano sobre uma criança que procuram um amor que funcione.

Assumidamente inspirado no espirito dos livros de Mark Twain, esta história é sobre dois adolescentes, Ellis e Neckbone, que encontram um barco preso numa árvore, numa ilha do rio Mississipi. Ai conhecem um fugitivo, Mud, que já ocupara o barco e fazem um pacto para ajudá-lo a fugir dos caçadores de recompensas. Ellis e Neckbone ajudam Mud a reconstruir o barco, fazendo várias viagens até à ilha levando materiais para a reconstrução.

Uma história simples que no inicio aparenta não ter qualquer interesse para o espectador. Contudo, intriga-nos sempre: porque haveriam aquelas duas crianças de ajudar um desconhecido e fugitivo da polícia? O interesse pela história e pelo cinema de Nichols vai crescendo à medida que vemos o filme.

Um pouco no espirito de “Conta Comigo” (1986), “Mud” é um filme sobre a inocência e sobre o amor, visto através de uma criança, Ellis. Ele vive com os pais em vias de se divorciarem, passando grande parte do tempo com o seu melhor amigo Neckbone. Mud é perseguido pela polícia por ter morto um homem, em defesa da sua namorada Juniper. Ele espera juntar-se a ela e fugirem de barco daquela ilha. É aqui que os dois rapazes aventuram-se para ajudar Mud. Enquanto que a razão que leva Neckbone ajudar o fugitivo é em receber como recompensa o seu revolver, a razão de Ellis é porque ele é um romântico e corajoso. Ele procura desesperadamente por um amor que funcione, já que o dos seus pais não e ele também não consegue ter uma namorada. Hipnotizado por Mud, o rapaz acredita no amor dele com Juniper e faz tudo o que for possível para os ver juntos. Ellis quer acreditar em algo que vê a desaparecer de dia para dia no mundo dos adultos.

O mais importante deste filme não é o misterioso fugitivo Mud, o crime que ele cometeu ou a perseguição dos caçadores. Tudo isso é secundário. O que conta aqui é o sentimento do amor. O amor de Ellis, de Mud e Juniper e dos pais de Ellis. Às vezes é preciso aceitarmos as coisas como elas são, por muito que nos custe. Essa é uma das mensagens que o filme tenta passar, de sermos tolerantes e viver com isso. O final do filme acaba por ser bastante admirável, pois apesar de terminar com um ‘final feliz’ não é propriamente o ‘final’ que todos desejariam. O amor existe para estas personagens, mas há que continuar a procura-lo. As personagens dos filme de Nichols são bastante fortes, reais e humanas. Todas tem as suas imperfeições e todas aprendem a crescer com os seus erros.

Há uma continuação do trabalho de realização, em relação ao seu anterior filme, na maneira como pensa o filme, como filma e coloca a câmara. Nichols regista com a sua câmara um tipo de vida que está a desaparecer no Sul da América. A paisagem e as pessoas do sul são um forte atrativo para o realizador. O elenco principal é bom, principalmente os dois jovens atores.

Com um bom visual, um ritmo calmo e uma rigorosa realização, esta produção indie americana é uma das melhores surpresas do ano. Um filme que nos fala da amizade, da inocência, da adolescência e do amor.

Realização: Jeff Nichols

Argumento: Jeff Nichols

Elenco: Matthew McConaughey, Michael Shannon, Reese Witherspoon, Sam Shepard, Sarah Paulson

EUA/2012 – Drama

Sinopse: Uma história de redenção no espírito de Huckleberry Finn. A amizade improvável entre um perigoso fugitivo chamado Mud (Matthew McConnaughey) e dois adolescentes de 14 anos. Os rapazes estão determinados a ajudá-lo a escapar aos seus perseguidores e a reuni-lo à mulher que ama.

«Mud» - À procura de um amor que funcione
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