Depois de termos estado à conversa com Xavier Giannoli, o Cinema 7.ª Arte teve a oportunidade de falar com Anthony Bajon, o jovem protagonista de “Não Deixeis Cair em Tentação”, de Cédric Kahn. Apesar da sua idade, 24 anos, a sua interpretação de Thomas, um jovem toxicodependente que parte para uma comunidade isolada de jovens que travam a mesma batalha que ele, valeu-lhe o Urso de Prata para Melhor Ator na edição deste ano do Festival de Berlim. Sem dúvida um jovem ator a manter debaixo de olho.

A entrevista foi traduzida do francês por Rebeca Bonjour, colaboradora do Cinema 7.ª Arte.

Nuno Sousa Oliveira: Thomas, a sua personagem, tem momentos em que revela toda a sua raiva de uma forma extremamente violenta. Em pessoa, no entanto, o Anthony parece ser muito calmo. Como é que libertou toda aquela fúria que vemos no ecrã?

Anthony Bajon: Sim, sou simpático em pessoa (risos). Mas, para responder à pergunta, o Thomas está muito perdido e era preciso mostrar essa raiva e agressividade. Daí ter tentado fazer sobressair as minhas próprias neuroses para fazer esse paralelo com o que ele estava a viver. Por exemplo, o Thomas tem problemas de identidade, não teve uma família que o acarinhasse. Então o que fiz foi tentar extrair certas coisas que eu vivi e isso ajudou-me a interpretar esta personagem.

NSO: O papel de Thomas era muito exigente por causa desse conflito interior e do passado dele como toxicodependente. Fez alguma pesquisa sobre a toxicodependência? Como é que se preparou para este papel?

AB: Na verdade, não fiz um estudo sobre a toxicodependência, porque o Cédric não quis. Ele não queria um copy-paste do que teria visto se o fizesse. Por essa razão, não quis que fizéssemos uma pesquisa sobre os toxicodependentes ou sobre os locais aonde íamos. Preparei-me, sobretudo, a nível físico. Ia correr ao ginásio duas horas por dia, porque sabia que este filme ia ser uma maratona de 16 horas de filmagens por dia. Foi um verdadeiro desafio.

NSO: Um dos temas principais do filme é a fé. Qual a importância da fé para si e como é que viveu a sua experiência com ela durante as filmagens?

AB: Desde pequeno que tenho fé. Quando me disseram que tinha conseguido o papel, vi isso como um sinal. Mais tarde, fiz muitas perguntas sobre a religião, a fé e a oração. Por isso, o facto de a minha personagem viver as coisas daquela maneira… Ele questiona-se sobre a religião. Tinha muitas dúvidas no princípio, antes de aceitar Deus. Esta maneira de abordar este tema era boa para mim, porque também estou à procura de respostas para construir a minha própria fé. Daí que me identifiquei muito com a personagem. Temos coisas em comum. Por exemplo, eu também não conhecia esta vertente da fé que nos pode ajudar a ter uma vida melhor e a importância da fraternidade. São coisas que desconhecia.

NSO: E como foi trabalhar com Cédric Kahn? Que liberdades é que ele lhe concedeu?

Sim, havia uma certa liberdade nas cenas de luta e naquelas em que tinha de chorar. Até porque ele estava sempre a dizer “Não sei como te ajudar, desenrasca-te!”. É um realizador muito exigente. Eu ainda nem era nascido e já ele fazia cinema e, por isso, tem muita experiência e é muito rigoroso durante as filmagens. Isto fez com que as minhas cenas fossem ainda mais intensas do que aquilo que esperava quando li o argumento. Eu sabia que tinha de dar tudo por tudo.

NSO: Quanto tempo durou a rodagem do filme?

AB: Três meses e meio. Foi duro.

NSO: Fez algumas séries de televisão antes de fazer cinema. Como foi essa transição para o cinema?

AB: Na televisão as coisas acontecem muito mais depressa. Filmamos muito mais cenas no mesmo dia do que no cinema. Isso fez-me ver a minha experiência na televisão como preparação para o cinema. Quero, no entanto, concentrar-me exclusivamente no cinema. Se ficar muito tempo a fazer televisão, vão dar-me apenas papéis para séries. O que eu quero mesmo são histórias contadas numa hora e meia, duas horas, para depois participar noutra com uma personagem diferente, com uma história nova. Nas séries, fica-se muito tempo colado ao mesmo assunto, à mesma personagem, ao mesmo realizador. Eu quero viver outras narrativas, outros filmes, outras personagens. Não tenho vontade de fazer televisão a minha vida toda. Para mim era só uma porta de entrada para o cinema.

NSO: Mas há cada vez mais uma maior proliferação de séries televisivas ou de streaming.

AB: Sim, isso levanta outras questões no que toca à indústria do cinema e da televisão. Penso, porém, que a indústria do cinema continua bem viva. Sobretudo, não quero, nem posso, fixar-me nesta ideia de que vou fazer apenas cinema e descartar a televisão. Se, por ventura, a televisão começar a oferecer mais trabalho do que o cinema, vou ter de me dedicar mais à televisão do que ao cinema. Mas o que eu quero é fazer cinema.

NSO: E essa vontade de fazer cinema vem de onde?

AB: Eu devia ter uns quatro anos quando a minha mãe me levou a mim e ao meu irmão ao Grand Rex para ver “O Rei Leão” (risos). No final, ela perguntou-nos se tínhamos gostado e eu quase que não conseguia falar. Estava a sentir tantas emoções, mas não conseguia exprimi-las em palavras. Foi o meu primeiro contacto com o cinema, com o grande ecrã. Mais tarde só pensava “Mas como é que é possível transmitir tantas emoções através de um ecrã? E como é que sou incapaz de me exprimir sobre isto?”. Foi assim que começou. E quando comecei a ver filmes com atores verdadeiros, eles faziam-me rir, chorar, eram tantas emoções…  Devia ter uns seis ou sete anos quando disse aos meus pais “Quero fazer do cinema a minha vida! Vocês que se arranjem!”.

NSO: “O Rei Leão” era um dos meus filmes favoritos de infância. Nessa altura, com aquela ingenuidade característica das crianças, esperava sempre que Mufasa, o pai de Simba, não morresse apesar de ter a certeza de que ele ia ser atirado do penhasco por Scar. Também sentia qualquer coisa semelhante?

AB: Sentia, mas agora é pior porque vejo com a minha namorada e a única coisa em que penso é que não posso chorar. É uma história muito especial para mim. É um filme que marcou a infância de muitas pessoas, não apenas a minha, claro. É universal. Agora vejo o filme com outros olhos, mas ainda me traz muita emoção, sobretudo quando penso que foi por causa dele que quis fazer disto a minha vida.

NSO: E como é que os seus pais reagiram à decisão de dedicar a sua vida ao cinema?

AB: Bem, o meu pai disse “O quê? Queres fazer cinema? Bom, não”. Quando era muito pequeno também queria ser jogador de futebol e ele deve ter pensado “Ele não vai conseguir fazer nada da vida”. Foi complicado para ele, mas agora tem-me apoiado cada vez mais, até porque vê que as coisas me têm corrido bem…

NSO: E a sua mãe?

AB: A minha mãe apoiou-me sempre. Ela teve uma conversa comigo e disse “Leva os teus sonhos até ao fim, dá o máximo, sem arrependimentos, mas primeiro acaba o secundário. Depois tiras um curso de cinema e tentas a tua sorte”. E foi o que eu fiz. Acabei o secundário por eles, nem sequer festejei nem nada, estava-me completamente nas tintas. Fiz um curso de cinema durante dois meses, aborreci-me, e depois vim-me embora.  Acho que não devia dizer isto, mas achei aquilo mesmo horrível. Tenho uma abordagem da aprendizagem de cinema muito particular. Acho que é no plateau que se aprende. Se tivesse a sorte de estar lado a lado com grandes realizadores, atores, mesmo com papéis muito pequenos, podia observá-los e ver como é que faziam as coisas: quais os códigos deles, os comportamentos, como fazer um bom filme e quais os erros a evitar.

NSO: E em que projetos está a trabalhar? O que podemos esperar de si no futuro?

AB: Terminei agora a primeira parte de um filme com o Guillaume Canet, ambos somos protagonistas, e vamos filmar a segunda parte no inverno. Mas o meu grande projeto é a realização do meu primeiro filme, uma curta-metragem que acabei de escrever e que gostava de realizar ainda este ano.

NSO: Podemos saber qual é a história?

AB: É uma história de amor passada num campo de campismo sobre duas pessoas que não têm nada a ver uma com a outra. É tudo o que posso dizer… (risos)

Anthony Bajon participou ainda, ao lado de Vincent Lindon, em “Rodin”, de Jacques Doillon, em “Nos Anées Folles”, de André Téchiné e, mais recentemente, em “Mon Poussin”, curta-metragem de Jérémie Seguin em que foi destacado pela sua interpretação no Southern Short Awards.

“Não Deixeis Cair em Tentação” tem estreia a 18 de outubro. A distribuição do filme ficou a cargo da Outsider Films.

Fotografia de Juliette Malveau.