O ‘entre aspas’ não é meu, já que se trata de uma citação do realizador Paul Schrader sobre o seu último filme “Como Cães Selvagens”. Um filme que se concentra na origem do título – uma situação onde as pessoas farão tudo para sobreviver, mesmo infligir dor nos outros; e usa a escrita do romance pulp de Edward Bunker, o ator que desempenha Mr. Blue no filme “Cães Danados”, figura que conhece em primeira mão, pela sua vida de encarceramento no sistema prisional americano, este tipo de personagens reais. Há uma semelhança com o filme de Tarantino. Estas personagens saíram da prisão e regressam à única arte que dominam, o crime, já que a alternativa são empregos muito mal pagos. Contudo, segundo o sistema penal americano, se obtiverem a terceira condenação, enfrentarão a prisão perpétua, o mesmo que a morte já que nenhum quer regressar ao confinamento.

O filme vive através do cliché das personagens: o cérebro, o músculo e o gatilho descontrolado. Desde o início da película estamos munidos de conhecimento prévio para o que vamos observar. O que desilude é que não há nada que nos indique que o cliché será desmontado. Pelo contrário, ele é explorado de uma forma obediente e filmado de uma maneira previsível. O conjunto de recursos icónicos, como a ‘cartoon violence’; o ambiente de permanente limiar entre a consciência e a ‘pedrada’ oferecida pelo consumo de drogas; a direção de arte cuidada; e a banda sonora, de boa qualidade, não são mais do que isso, tropos inseridos na fita para de uma forma extradiegética tentar iludir o espectador a pensar e a sentir que está a ver algo de único e especial.

O projeto é redentor mas apenas para Nicholas Cage e para Paul Schrader, que numa entrevista ao The Guardian afirma que este não é um filme importante e prestigiante na sua carreira, sendo uma oportunidade para compensar Nicholas Cage por problemas que surgiram na última colaboração entre os dois, “Vingança Ao Anoitecer”. Ora por muito cândida que seja a sua afirmação, esta não redime o espectador pela falta de coesão no enredo, tornando-se bastante episódico na sua caminhada de um trabalho para o outro cada vez mais próximo do fim da linha; não o liberta da expectativa confirmada sobre o que irá acontecer àqueles marginais e como; e principalmente não o livra de um humor negro de qualidade muito duvidosa e pouco apurada.

Estabelecida que está a diferença com outros filmes, por si escritos, resta a cena em que Troy (Cage) admirador de Humphrey Bogart, faz uma imitação do estilo da estrela maior do ‘cinema noir’,uma centelha da cena final escrita por este realizador para De Niro, no “Touro Enraivecido” ao espelho usando as deixas de Terry Malloy no “Há Lodo no Cais”. Mas é pouco, muito pouco para o escritor de “Taxi Driver”, mesmo ele estando consciente dessa fraqueza.

Talvez haja algo de bom, apesar de tudo. Fiquei ansioso para rever o “Cães Danados” e a “Relíquia Macabra” e mais alguns bons filmes.

Realização: Paul Schrader
Argumento: Paul Schrader, Matthew Wilder
Elenco: Nicolas Cage, Willem Dafoe, Louisa Krause
EUA/2016 – Crime
Sinopse
: Três antigos condenados são contratados por um mafioso de Cleveland para raptarem o bébé de um rival.

«Como Cães Selvagens» - 'Um projeto redentor', mas pouco, muito pouco
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