No momento em que vivemos ninguém se retira no topo. A concorrência feroz e a incerteza do amanhã, impõe a perpetuação até que se esboroe no anonimato. Por isso, é tão intrigante poder espreitar por um instante a mente de um grande – daquelas pessoas e acontecimentos que os americanos denominam – Bigger than life itself. Esse é o assunto deste filme de Janus Metz. Tentar compreender o que está por detrás do número 1 mundial do ténis profissional, mas que decide abandonar a modalidade com 26 anos, no auge da sua carreira.

O título do filme é enganador, mas apresenta-se como metonímia, partindo de uma parte: o jogo memorável em Wimbledon no qual os dois melhores do mundo se encontram numa final com contornos épicos, em que mais que a proeza física se encontra em jogo; a própria imortalidade, pois se Borg vencer entrará na história com 5 títulos consecutivos em Wimbledon – para o todo: o que se escondia naquele jeito de jogar quase sem esforço e sem emoção de Borg? O jogador que parecia levitar quando os outros enterravam os pés na relva e que jogava do fundo do corte de ténis com uma precisão e força mágica.

O realizador dinamarquês foge ao documentário, do qual esteve bastante próximo, nos últimos trabalhos, para, no momento histórico em que o ténis e o próprio prestígio do torneio jogado no All-England Tennis and Croquet Club ganham uma projeção mundial, penetrar na psique desse jogador. Sobretudo no homem Björn (Sverrir Gudnason) e revelar a luta mental com a qual convive desde a sua adolescência e como o ténis é ao mesmo tempo, a origem  e o exorcismo dessa violência. Contudo, refiro-me ao logro do título, já que a personagem de McEnroe (Shia LaBeouf), não é pouco mais que um contraponto e um Stand-in para a claustrofobia da mente de Borg e para se elevar do género documental, mesmo que ficcional.

Apesar de não ser da geração que acompanhou esta rivalidade, acompanhei outras disputas no ténis, como a de Federer e Nadal. A filmagem caracteriza bem a época, bem como a escolha dos atores. Em diversos momentos parece found footage desses finais dos anos 70, com a palidez do relvado do corte central e a forma elegante de ambos jogarem. Apesar de ser um desporto individual e mental, o facto de os jogadores se encontrarem tão distantes torna difícil as escolhas de realização que promovam uma imagem de uma luta de titãs, mais simples de transmitir em combates de boxe. Para além disso, hoje há uma linguagem de  transmissão televisiva de ténis muito característica, à qual Metez ofereceu resistência optando por planos superiores de metade do corte ou planos aproximados dos jogadores, oscilando com planos de conjunto de ambos, mas dentro do corte, diagonalmente.

É um filme coeso, que prende o espectador, mas que tenta ser mais do que é, patente naquelas cenas intimistas de Björn em que há um sofrimento físico e mental tão poderoso que se perde num filme que não pretende ser tão ‘carne’, mas mais relato, com ambições de janela para a alma. A moral final procura a redenção destes dois rivais, sem grande sucesso. Nunca o foram. Uma criação do público e dos média. Estes tornam-se amigos íntimos, já que McEnroe cresce a idolatrar Borg, intuindo uma abordagem mental idêntica ao ténis, como metáfora da vida, mas com formas distintas de expressão exterior. É um filme a ver para quem gosta de ténis e se interessa pela figura do tenista sueco. Para quem não conhece, é uma boa oportunidade para o fazer.

Realização: Janus Metz
Argumento: Ronnie Sandahl
Elenco: Stellan SkarsgårdShia LaBeoufTuva Novotny
EUA/2017 – Drama
Sinopse: Em 1980, duas estrelas mundiais do Ténis enfrentavam-se em Wimbledon, na que se tornaria, a partida do século. Seriam necessários 28 anos para que outra partida igualasse a que fora realizada por Borg/ McEnroe.

«Borg vs McEnroe» - A calma sueca versus a fornalha...também sueca
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