Em 2017 celebra-se o quadragésimo aniversário de “Encontros Imediatos do 3º Grau”, que estreou nos Estados Unidos em 1977 (em Portugal a estreia deu-se em 1978) esse ano Vintage do cinema americano que deu o Óscar de melhor filme a “Rocky” (prémio respectivo ao ano de 1976) e ainda gerou “Annie Hall” (Oscar de melhor filme de 1977) o não menos filme-de-culto “Smokey and The Bandit” ainda o primeiro ‘filmezinho’ daquela incontornável saga chamada de “A Guerra das Estrelas”.

Embalado pelo sucesso de “Jaws”, Steven Spielberg pegou num dos seus projectos mais próximos e decidiu fazer dele o seu segundo filme (antes disso, Spielberg tinha apenas feito curtas e telefilmes) sobre OVNI’s e estranhos desaparecimentos e armado com um orçamento de 20 milhões de dólares o realizador contratou para a sua equipa nomes como Douglas Trumbull, Carlos Rambaldi e Ralph McQuarrie (que entre os três são responsáveis pelos maiores e melhores efeitos especiais no cinema desde os anos 70) e ainda recheou o seu elenco com outros nomes de culto como Richard Dreyfuss, Melinda Dillon, Bob Balaban e até François Truffaut. Com um forte elenco, uma equipa técnica mais que capaz e eternas batalhas com a Columbia Pictures Spielberg conseguiu levar a sua visão avante e o resultado é um filme que fica para a história como um dos melhores do Cinema.

Em “Encontros Imediatos…” temos então série de acontecimentos bizarros que vão aumentando de intensidade ao longo do primeiro terço do filme até que finalmente cinco tons começam a ser ouvidos na India. Claude Lacombe (François Truffaut) um cientista francês a trabalhar para o governo americano conclui então, juntamente com o seu intérprete David (Bob Balaban) que todos os acontecimentos estão interligados e que os cinco tons/cinco notas musicais são um método de comunicação vindos do Espaço. Várias pessoas do interior dos Estados Unidos são também surpreendidas por luzes brilhantes vindas do céu, sendo que Jillian Guiler (Melinda Dillon) vê mesmo o seu filho Barry (Cary Guffey) ser raptado pelos extraterrestres numa dessas misteriosas visitas, e Roy Neary (Richard Dreyfuss) fica marcado com visões de uma particular montanha que não consegue apagar da cabeça, chegando mesmo a destruir a relação com a sua mulher e filhos.  A partir daqui, e até à ultima meia-hora de filme, o filme transforma-se num filme de mistério e conspiração onde o governo dos Estados Unidos tenta criar uma cortina de fumo de forma a evitar histeria e melhorar assim as suas possibilidades de um contacto pacífico com uma nova civilização e duas personagens  que têm que ultrapassar os seus medos e partir em viagem,  esgueirando-se entre todos os segredos e fortificações criados pelo governo e exercito americanos de forma a poder descobrir a verdade sobre o que os aflige bem sobre quem lhes causou essas aflições.

No que toca a essas personagens, Dreyfuss principalmente dá uma excelente performance à medida que Roy Neary se torna mais e mais obcecada com as suas visões, existe uma transformação entre o Roy do inicio do filme e o Roy do final que faz sentido sobretudo graças ao trabalho do actor e da credibilidade que este dá à sua crise. Até mesmo o jovem actor Cary Guffey consegue transmitir mundos e fundos com as suas expressões faciais, dando-nos inclusive aquele eterno momento em que representação, cinematografia e banda sonora se fundem para criar a mítica cena onde, sem ver-mos o extraterrestre por um segundo que seja, somos levados para todo um mundo de imaginação só com os olhos do jovem apavorado na sua cozinha. São mesmo estes momentos que fazem o filme.

Mesmo quarenta anos depois (e com ajuda de algumas remasterizações aqui e ali) este filme se mantém impecável a nível narrativo e visual, dando-nos verdadeiras jóias cinematográficas, heranças eternas de um tempo em que o cinema não tinha compromissos  e arriscava sempre tudo para nos obrigar a ir mais além em termos de imaginação. “Encontros Imediatos” é rico em momentos e esses momentos levam sempre o seu tempo a acontecer. O filme estica-se por mais de duas horas e sempre sem se tornar desinteressante vai-nos dando detalhes aqui e ali, pequenas cenas onde personagens exploram os significados  de cinco simples notas musicais, pessoas a observar o céu, discussões familiares tudo acontece de forma calma, obrigando-nos a compreender bem o porquê de acontecerem para que quando o final surja todos nós estejamos equipados com o conhecimento para poder interpretar o filme da melhor forma possível. A mais recente remasterização 4K do filme dá-nos inclusive pequenas novas cenas, como a de Roy Neary deitado no duche, completamente derrotado pela sua incompreensão das suas visões; poucos grandes filmes de Hollywood hoje em dia nos dão estes momentos de desenvolvimento de personagem, portanto na minha cabeça faz sentido que se celebrem este quadragésimo aniversário de um filme que não tem nada de velho e pode ainda ensinar muita coisa ás mais recentes gerações de cineastas (e de cinéfilos).

O que eu mais gosto em “Encontros Imediatos” não é a mestria do terceiro acto, onde todos os efeitos especiais convergem para criar uma sinfonia de som, cor e trabalho de câmara mas sim todo o impacto que essa mesma convergência tem ao fim de hora e meia de construção. Todos os destinos são deslumbrantes quando a viagem é merecida e este filme com certeza fez (e faz) por merecer.

RealizaçãoSteven Spielberg
ArgumentoSteven Spielberg
Elenco: Richard DreyfussFrançois TruffautTeri Garr
EUA/1977 – Ficção Cientifica
Sinopse
: Roy Neary, um empregado de uma companhia eléctrica tem um encontro imediato do 1º grau: vê um OVNI a sobrevoar os céus. Após este acontecimento, que muda a sua vida para sempre, uma inexplicável visão de uma estranha formação de uma montanha atormenta-o. A sua obsessão em descobrir o significado da visão acaba por atormentar o seu casamento. Entretanto, eventos bizarros surgem por todo o planeta. Agentes do Governo têm encontros imediatos do 2º grau – descobrindo evidências físicas de visitantes extraterrestres – com base em veículos militares que haviam desaparecido décadas antes e reaparecem agora em locais invulgares. Roy continua a seguir a sua visão para uma área remota onde ele e os agentes seguem pistas que os levam a um local onde irão por fim ter um encontro imediato do 3º grau – e estabelecer contacto.

«Encontros Imediatos do 3º Grau» - Reencontros imediatos com um clássico do Cinema
5.0Valor Total
Votação do Leitor 1 Voto