A edição deste ano, do doclisboa, foi uma (enorme) caixa de (óptimas) surpresas.

O maior festival de cinema documental, em Portugal, apresentou uma programação extremamente diversificada, procurando não só apresentar as melhores produções documentais deste ano, como também procurou fazer com que os espectadores reflectissem sobre inúmeras questões – sociais, políticas, estéticas, entre outras – e que tivessem a oportunidade de observar, no geral, as diferentes qualidades do cinema do presente e do passado, na nossa constante indagação e na nossa constante procura pelas ferramentas para a construção do futuro.

As opções eram múltiplas, as opções para o delineamento do caminho de cada um eram múltiplas, dependendo das preferências e curiosidades de cada um.

Este foi o meu caminho, como poderia ter sido outro ou de outro.

Estas são algumas das lições que o doclisboa me providenciou, enquanto espectadora de cinema, mas, acima de tudo, enquanto cidadã deste mundo presente.

Lição #1: O passado é belo e deve ser recordado (e celebrado)

A primeira grande surpresa da edição de 2017 foi a (maior) retrospectiva (fora da República Checa alguma vez) realizada da realizadora Věra Chytilová. Um ícone da czech new wave, conhecida por muitos enquanto a realizadora de “Sedmikrasky/Daisies” – uma das óptimas heranças imagéticas retiradas da era tumblr – e de “Fruits of Paradise”, Chytilová é, no entanto, tanto isso como muito mais: uma realizadora de destaque pela sua rebeldia formal, pela sua tendência experimental, pela sua sinceridade e despretensiosidade conceptual.

“Sedmikrasky”

A cinematografia desta realizadora, não só extremamente vasta – tendo realizado filmes desde os anos 60 até ao início do novo século -, como também diversificada – desde a ficção, ao documental, desde a comédia de humor negro, ao drama político -, ainda é desconhecida por muitos, e tal deve-se, em grande parte, devido à falta de acessibilidade/distribuição da sua obra.

Chytilová foi uma exploradora, uma mulher que desafiou o expectável, que quebrou paradigmas e que, assim, criou uma estética tão reconhecível, uma marca tão indistintível que, independentemente das diferentes fases, das diferentes vontades cinematográficas, a sua impressão digital se sente claramente ao longo de um capítulo longo da história do cinema checo. A beleza do natural e do humano – a ingenuidade, a loucura, a irracionalidade, a imprevisibilidade, a sinceridade – no seu estado mais plano, ainda que num exercício de hiperbolização emocional e reaccional constante: uma beleza que se extrai da comédia que surge do negro que invadiu e que ainda invade a sociedade. A beleza do natural e da Natureza: um amor para com aquilo que rodeia todo o humano, que compõe todo o cenário, que constitui, regra geral, o acessório e que encontra, nos seus filmes, um lugar de destaque.

Visualizar partes da cinematografia desta realizadora é uma mostra constante do quão cómico que o mal – talvez até terrível, sujo – pode ser; do quão belo que o mundo – tão longe de um estado de controlo, tão longe do Éden eternamente desejado – pode ser.

“Ovoce stromu rajských jíme”

“Vyhnani z raje”

Mas porque é que a obra de uma realizadora como Chytilová, que é constituída por diversas obras de ficção (que podem ser classificadas quase sempre enquanto comédias) – e que é precisamente reconhecida em grande parte por elas -, é alvo de uma retrospectiva de um festival de cinema documental?

O doclisboa, neste ponto, exercitou o seu poder de liberdade de programação para providenciar aquilo que realmente importa num festival de cinema: um enriquecimento cultural, histórico, social, estético, formal, conceptual do público, através da apresentação de uma marca incontornável do cinema do Leste Europeu. A proeminência de documental sobre ficção não é (nem deve ser factor) de escolha para integração num festival, mas sim a potencialidade de mudar olhares, mudar opiniões, mudar vidas.

Assim, tivemos Chytilová. Uma amante do mito: uma verdadeira historiadora; uma amante do experimental: uma verdadeira storyteller; uma amante do cinema: uma verdadeira marca de excelência; uma amante do feminino, do masculino, do humano: uma verdadeira feminista para a sua época e mesmo nos dias de hoje. A retrospectiva do doclisboa foi uma celebração desta marca, desta pessoa, deste cinema: um riso que manter-se-á eternamente presente nas mentes de quem a experienciou – e, talvez, assim se poderá mudar um pouco o mundo.

“Hezké Chvilky Bez Zaruky”

“Hezké Chvilky Bez Zaruky”

Próximas lições:

Lição #2: O cinema (ainda) tem poder para mudar o mundo

Lição #3: Alerta! Temos de preparar o futuro!

Lição #4: Curiosidades ou como é que um festival de cinema nos pode fazer gostar de futebol