A edição deste ano, do doclisboa, foi uma (enorme) caixa de (óptimas) surpresas.

O maior festival de cinema documental, em Portugal, apresentou uma programação extremamente diversificada, procurando não só apresentar as melhores produções documentais deste ano, como também procurou fazer com que os espectadores reflectissem sobre inúmeras questões – sociais, políticas, estéticas, entre outras – e que tivessem a oportunidade de observar, no geral, as diferentes qualidades do cinema do presente e do passado, na nossa constante indagação e na nossa constante procura pelas ferramentas para a construção do futuro.

As opções eram múltiplas, as opções para o delineamento do caminho de cada um eram múltiplas, dependendo das preferências e curiosidades de cada um.

Este foi o meu caminho, como poderia ter sido outro ou de outro.

Estas são algumas das lições que o doclisboa me providenciou, enquanto espectadora de cinema, mas, acima de tudo, enquanto cidadã deste mundo presente.

Lição #3: Alerta! Temos de preparar o futuro!

As notícias das passadas semanas, dos últimos meses, destes anos mais recentes alertam-nos para a necessidade (de maior urgência) de alteração de comportamentos da sociedade em relação ao meio ambiente. O aumento da emissão de gases poluentes, o aumento do consumo de combustíveis fósseis, o aumento populacional, o aumento das temperaturas médias da Terra: o aquecimento global é um dos tópicos mais quentes e mais presentes no mundo dos media, da diplomacia e também do cinema.

No entanto, o aumento da quantidade de informação, o aumento da acessibilidade a essa mesma informação não equivalem a um consenso e uma consciencialização generalizados. A ignorância ou a desvalorização relativamente a algo de tremenda importância e relevância para a existência – e sobrevivência – da nossa sociedade e do nosso mundo prevalece, muitas vezes. O descrédito da comunidade científica ainda reina em muitos locais do mundo e a necessidade – sempre urgente – de informar, de divulgar é permanente.

Nesse sentido, o papel do cinema, tal como o dos media, é fundamental: é um meio de alerta.

Al Gore, nos anos 2000, foi um protagonista no meio cinematográfico – mas também político e social – global para lançar este mesmo alerta: “An Inconvenient Truth” foi um passo de extrema importância neste caminho para a tentativa de alteração de comportamentos das populações e das corporações. Este foi, para muitos, um primeiro contacto com uma realidade que parecia, no momento, distante – e talvez até ilusório, delirante ou ficcional.

Em 2017, a situação alterou-se: a realidade do aquecimento global sente-se bem perto. A inconsciência e inacção tornaram-se cada vez mais irresponsáveis e preocupantes: o mundo parece já não ter grande salvação. O lançamento da sequela de “An Inconvenient Truth” (“An Inconvenient Sequel: Truth to Power”), apresentada no doclisboa, é uma revisita ao tópicos abordados – e alguns deles previstos ou especulados – no primeiro filme de Al Gore. As suposições passaram a realidades e o mundo sofreu inúmeras transformações – muitas delas já irreversíveis.

O novo documentário de Al Gore é, no entanto, uma celebração de um ícone, um culto visual à personalidade: um documentário sobre Al Gore, sobre as suas rotinas, sobre os seus pensamentos, sobre as suas intenções, sobre as suas acções. As alterações climáticas surgem, de forma extremamente evidente, enquanto um tópico secundário. A forma do documentário puxa-nos para um formato facilmente digerível, mas com pouca polpa: espreme-se, espreme-se, mas o aprofundamento (muito necessário) da ciência em volta a este tópico é escasso.

Mas será este um documentário que deverá ser colocado de lado, que deverá ser criticado somente pela sua tendencial abordagem comercial, baseada em princípios e premissas cinematográficas de Hollywood – onde a emoção e a superficialidade reinam -, de uma indústria inserida num sistema capitalista – onde o lucro fala mais alto do que qualquer outra voz?

A presença deste filme no doclisboa permite-nos avaliar a sua pertinência: um meio – talvez não ideal, mas fulcral – para a divulgação do tópico e para a – urgente – consciencialização de qualquer ser humano. Enquanto um ícone, Al Gore detém um poder tremendo na influência de mentalidades: enquanto uma celebridade, trará a mensagem a recantos – mais – necessários. Assim, “An Inconvenient Sequel: Truth to Power” retorna enquanto uma sequela – não tão – inconveniente, mas ainda assim essecial: do pouco, muito poderá ser retirado, muito poderá ser feito. Um novo passo neste caminho que todos teremos de fazer (e quanto mais cedo, melhor).