Na década de 50  até aos meados da década de 60 os filmes tomaram as dores dos seres humanos e, particularmente, os seus receios. Os filmes de ficção científica alertavam para a incapacidade do ser humano em controlar algo que claramente estava acima dos seus desígnios mortais, o controlo do poder nuclear. A possível aniquilação da raça humana pendia sobre as cabeças dos pais de família trabalhadores, das perfeitas donas de casa e doces mães de crianças bem comportadas. Os Caddilacs na garagem e os eletrodomésticos na cozinha facilitavam a vida na Terra ao mesmo passo que os Americanos pensavam em conquistar o Céu. O cinema revelava a mudez de uma sociedade que vivia o sonho apavorada com a realidade.

É sobre este pano de fundo que, “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro se desenrola, recuperando o arquétipo da Bela e do Monstro, por diversas vezes colocado no cinema, quer pelos estúdios da Disney ou pelo francês Jean Cocteau, ou ainda no filme parente deste, “O Mostro da Lagoa Negra”. Elisa Esposito, muda (logo aqui, uma semelhança com o monstro ao nível da ausência da linguagem falada, mas também o facto invulgar dessa incapacidade) trabalha como auxiliar de limpeza num complexo militar americano, quando um ser aquático das profundezas é trazido para ser investigado, não no espírito científico puro, mas como trunfo numa corrida de inteligência na Guerra Fria contra a União Soviética. Nesta luta de poder, torna-se mais poderoso o adversário não ter uma vantagem, assim Richard Strickland a corporização do provincialismo suburbano americano, com o seu bastão de atordoar gado vacum, tem como missão eliminar esse ser, algo que será contrariado por Elisa, Giles, Zelda e Dr. Robert (A.K.A. Dimitri).

Há momentos na história da arte em que uma obra abre um novo caminho recuperando velhos temas e estabelecendo um novo conjunto de referências que a torna inovadora. É este o grande valor da obra do realizador Mexicano. Uma nova criação de sinapses entre obras míticas, entre momentos históricos, os quais no entanto lançam uma luz para o tempo em que vivemos revelando e/ou tornando ainda mais claro as incoerências e as irregularidades do nosso sistema de valores.

Contra a ignorância de um sistema político militar cego, que pouco se interessa com o indivíduo, surge a resposta dos indivíduos anónimos e mais insiginificantes do sistema, cada um com o seu dilema pessoal, impeditivo, de uma forma individual, de ser resolvido. Elisa com a sua incapacidade de comunicação, Giles a ser ultrapassado pelo tempo, Zelda a contas com o fado de um marido abusador e Dimitri, entre lealdades, a si mesmo ou à sua pátria. Contudo, como um todo estes são capazes de salvar um ser muito especial, conhecendo a sua verdadeira dimensão, na profunda adversidade, mais uma vez reavendo a mitologia antiga da hospitalidade. Mais uma vez se lança um olhar sobre a única luta possível nestes dias populistas.

Por estas razões e pela qualidade da montagem, com transições de uma subtilidade de reminiscência infantil; pela inserção muito consciente e cuidado na tradição cinematográfica do filme de ficção científica dos anos 50, com a fragrância do cinema musical; e pela realização fantástica sem cair no ridículo, ou na descrença, mantendo o espetador num limbo fabuloso do compossível, mesmo que não seja com a nossa realidade, mas com o nosso sistema de valores e de sentido de empatia, este filme do realizador do “Labirinto do Fauno” é um evento cinematográfico deste ano. Pelas pontes que lança a outros filmes e pela reflexão que nos impõe sobre este género e sobre esta mitologia é um filme que merece a viagem.

Realização: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon 
EUA – 2017
Drama/Fantasia
Sinopse
: Uma fábula maravilhosa, passada na América de 1962, com a Guerra Fria em pano de fundo. No laboratório secreto de alta segurança do governo onde trabalha, a solitária Elisa está presa numa vida de isolamento. A vida de Elisa muda para sempre quando ela e a sua colega Zelda descobrem uma experiência secreta.

«A Forma da Água» – A Bela o Belo...e os Monstros
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