A crise económica e social portuguesa, durante os anos da ocupação da Troika, deixou marcas profundas na nossa sociedade, que se viu a ser atormentada por um governo que a empobreceu, ao serviço do capital financeiro internacional. Este período de crise financeira tem vindo a ser alvo de interesse e de reflexão por parte do cinema português nos últimos anos. São exemplo disso mesmo a trilogia de Miguel Gomes, “As Mil e Uma Noites” (2015), e o “São Jorge” (2016) de Marco Martins que retrataram a crise em Portugal. “Colo”, a mais recente obra de Teresa Villaverde, que estreou na Competição Oficial da 67ª edição do Festival Internacional de Berlim, é uma crítica social assombrosa e comovente sobre essa crise, mas muito mais profunda. Não existe aqui apenas uma crise económica, mas também uma crise emocional.

Teresa Villaverde mostra-nos uma família portuguesa de classe média em destruição. Vivem em Lisboa e a mãe trabalha em dois empregos, enquanto que o marido está desempregado. Marta é a filha adolescente que não compreende o que está acontecer à vida deles.

A crise de afectos não se resolve da mesma forma que se resolve uma crise económica. A primeira leva muito tempo a sarar e muitas vezes não tem solução. O estado físico, psicológico e emocional destas pessoas pode ter sido afectado para sempre. Não há leis que resolvam estes problemas, que são reais. As crises financeiras vêm e vão, enquanto que os seus efeitos diretos e indiretos permanecem. Em “Colo” assistimos desde o inicio ao desmoronamento de uma família, ao precipício das ligações afectuosas, à depressão, à solidão e total isolamento. Deixando de haver comunicação habita o silêncio e assim já não se vive. Sobrevive-se. Todas aquelas personagens estão a precisar de colo, de atenção, de afectos, de esperança. À medida que a família se vai desintegrando e instalando o silêncio, a casa acompanha essa tensão toda e vai-se apagando. Ao ponto em que literalmente a luz é-lhes cortada, pois já não tem dinheiro para a pagar. Cena após cena as dificuldades vão-se acumulando gradualmente para esta família. A relação com a cidade (Lisboa) é de uma distância profunda. A cidade é vista sempre de dentro de casa. É do terraço do prédio, das janelas ou do reflexo das janelas que avistamos a cidade. A realizadora cria um ambiente quase fantasmagórico, no sentido em que nas cenas de exteriores, sobretudo na cidade, não vemos quase ninguém.

A personagem Marta, a adolescente, vai perdendo ao longo do filme os seus grandes pilares, tendo em conta que a sua mãe está quase sempre ausente a trabalhar para sustentar a família, e tendo em conta que o seu pai está ausente psicologicamente, pois entrou em depressão (sendo a cena do banho em que este coloca um balde na cabeça demonstrativo dessa profunda depressão). Outros “pilares” são o seu pássaro, a sua amiga e o seu namorado. Mas todos acabam por se afastar de alguma forma. Curioso que apesar de toda esta tensão estar em constante crescendo ao longo do filme, nunca chega a eclodir.

Não é só a subtil realização de Teresa Villaverde que se destaca em “Colo”, mas também as interpretações e a magnífica fotografia de Acácio de Almeida, que num tom suave proporciona o ambiente certo para este pesado filme. Político e depressivo, o filme conta também alguns gags pontuais que cortam toda a tensão do filme por breves momentos.

“Colo” é um grande filme que nos hipnotiza quer no conteúdo, quer sobretudo na sua forma. Um filme obrigatório que não encontra repostas, mas que nos obriga a pensar.

RealizaçãoTeresa Villaverde
ArgumentoTeresa Villaverde
ElencoJoão Pedro VazAlice Albergaria BorgesBeatriz Batarda
Portugal/2017 – Drama
Sinopse
: Quando o pai fica desempregado, a mãe vê-se subitamente sobrecarregada com todas as despesas familiares. Por causa disso, arranja um segundo emprego, o que a desgasta ainda mais e lhe retira tempo para a família. Descurada por um pai desalentado e uma mãe esgotada, a filha adolescente revolta-se…

 

«Colo» - A queda de uma família
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