Natural de Mairi, uma pequena cidade no interior da Bahia, no Brasil, com aproximadamente 20 mil residentes e que ainda hoje carece de uma sala de cinema – essas que cada vez mais estão em extinção no Brasil –, foi somente na fase adulta que Aly Muritiba teve a oportunidade de vivenciar a emoção de assistir a um filme em uma sala de cinema.
Nesse contexto, a trajetória de Muritiba como realizador é algo que muitos considerariam improvável e completamente não convencional. De fato, sua infância e formação não apontavam para tal direção. Até mesmo seus empregos anteriores, que variaram desde bilheteiro de metrô até agente penitenciário, não indicavam qualquer predisposição para o papel de realizador.
Entretanto, é exatamente a essa trajetória inesperada, distinta e distante do meio cinematográfico, que ele credita sua atual condição como uma figura laureada em festivais renomados como Brasília, Gramado, Sundance e Veneza. Além disso, a Academia Brasileira de Cinema o selecionou para buscar uma nomeação para o Brasil na 95ª edição dos Óscares, por meio de seu filme “Deserto Particular”.
Conforme mencionei anteriormente, antes de mergulhar no universo da sétima arte, Muritiba atuou como agente penitenciário. Bom, é de conhecimento de todos que o ambiente carcerário é infame por sua brutalidade e associação com o submundo da criminalidade, mas foi exatamente nesse cenário que ele expandiu sua compreensão e, eventualmente, trilhou o caminho em direção ao mundo cinematográfico. Ao perceber que poderia compensar suas horas de trabalho por meio de estudos, optou por se matricular em um curso de cinema, movido principalmente pela praticidade da situação.
A partir dessa experiência, determinou-se a transpor sua própria realidade para as telas, dando origem a uma trilogia centrada no sistema carcerário: “A Fábrica”, que chegou às semifinais do Óscar na categoria de curtas em 2013, seguido por “Pátio”, que foi exibido em Cannes no mesmo ano, e por último “A Gente”.
Após o êxito de sua trilogia, em 2015, ele apresentou seu primeiro filme de longa-metragem, “Para Minha Amada Morta”. O argumento desse filme foi reconhecido com um prémio em Sundance e conquistou, no Festival de Brasília, troféus em categorias como realização, ator secundário, atriz secundária, fotografia, direção de arte e montagem. Motivado por esse marco significativo, ele finalmente cortou os laços com o sistema prisional e optou por trilhar uma carreira dedicada ao cinema.
Após concluir a realização de “Para Minha Amada Morta”, Muritiba prosseguiu com “Ferrugem” em 2018, uma obra que foi reconhecida no Festival de Gramado, conquistando prémios nas categorias de melhor filme, argumento e som.
Além disso, o filme marcou sua volta ao Festival de Sundance. Em seguida, ele mergulhou no mundo das séries televisivas, realizando episódios para produções como “Carcereiros”, “Irmandade” e “Irmãos Freitas”. Muritiba também assina a produção de “O Caso Evandro”, um sucesso no Globoplay.
Mais recentemente, Muritiba escreveu um capítulo importante na história da 51ª edição do Festival de Gramado com a apresentação de sua série “Cangaço Novo”. Exibida em uma sessão especial, fora de competição, a série se tornou a primeira atração televisiva a ser incorporada à programação oficial do evento.
Correalizada com Fábio Mendonça e baseada no argumento desenvolvido por Fernando Garrido, Mariana Bardan, Eduardo Melo e Erez Milgrom, “Cangaço Novo” é uma produção original da Amazon, prontamente disponível no Prime Video em mais de 240 países e territórios.
A narrativa de “Cangaço Novo” gira em torno de Ubaldo, interpretado por Allan Souza Lima, um descontente bancário da zona urbana de São Paulo que não possui lembranças de sua infância. No entanto, ao descobrir uma herança e duas irmãs no sertão cearense, ele desencadeia uma série de acontecimentos envolventes.
Tive a oportunidade de realizar uma entrevista com Aly Muritiba. Nessa conversa exclusiva, discutimos uma variedade de temas, abordando sua trajetória, o cinema em geral, a política brasileira, conceitos de masculinidade, visões pessimistas, sexualidade e outros assuntos pertinentes.
Convido você a conferir a entrevista completa:
Na sua infância, você passava grande parte do tempo em frente à televisão, consumindo avidamente filmes e outros conteúdos audiovisuais. Dos filmes que você assistiu, quais foram aqueles que mais te marcaram? Você tem algum realizador favorito, se sim quem?
Eu via muito filme norte-americano nessa fase da minha vida. Ia na única locadora que havia na minha cidade e alugava uns 4 filmes, que devorava no fim de semana. Gostava muito de filmes de aventura como “Os Salteadores da Arca Perdida”, “Os Goonies”, do Spielberg, ou filmes de artes marciais como os estrelados por Jean-Claude Van Damme ou Silvestre Stallone. Até os 18 anos minha cinéfila era baseada apenas naquilo que chegava na vídeo locadora de minha pequena cidade. Naquela época, escolhia os filmes muito mais pelos atores que os estrelavam, ou pela sinopse atrás das fitas VHS, do que pelo realizador. Acho que até por isso não tenho nenhum realizador ou realizadora favoritos até hoje. Tem muitos a quem admiro, mas não tenho favorito/a.
Durante a sua infância, você dedicou muito tempo à escrita, o que o colocou em uma posição de estranheza na escola. O que você costumava escrever nessa época e sobre o que você escreve mais hoje em dia?
Eu era um garoto bastante introspectivo. E a escrita era meu refúgio. Eu escrevia muita poesia, alguns contos e letras de música. Eu nunca quis ser realizador até sê-lo. Já cantor eu sonhava ser desde que me entendo por gente. Por isso eu compunha muita música. Cheguei a ter uma banda, a Mecatrom, com a qual gravamos um álbum no começo dos anos 2000. Atualmente tenho me dedicado a escrita de meus argumentos, que são basicamente dramas e thrillers. E como lembro muito pouco de minha infância, eu a estou inventando naquilo que espero que seja meu primeiro livro.
Anteriormente, você expressou dúvidas sobre se tornar um realizador e argumentista a longo prazo, reconhecendo que a indústria cinematográfica nacional passa por ciclos e crises. Agora que você conquistou um espaço no circuito nacional, sua visão sobre o assunto mudou?
Infelizmente, o meu caso ainda é uma exceção. É raro vermos pessoas de minha origem social se consolidando no meio cinematográfico, que permanece sendo elitista. Hoje, consigo fazer de meu ofício um meio de subsistência, mas muitos como eu ficaram e ficam pelo caminho por não conseguir ter continuidade e estabilidade em seus trabalhos. A chegada dos streamings tem ajudado argumentistas a conquistarem alguma estabilidade, mas, no caso do meu país, isto se dá às custas de perdas de direitos autorais e patrimoniais que passam a pertencer aos canais (urge uma regulamentação que preserve os direitos dos criadores de conteúdo). De todo modo, o fato é que hoje a coisa está estável pra mim e tenho filmado com frequência.
Você tem buscado retratar em suas obras personagens que escapem do ciclo vicioso da toxicidade masculina. Como tem sido essa jornada e como isso tem te afetado?
Essa é uma pesquisa que comecei em 2014 com meu primeiro longa-metragem (Para Minha Amada Morta) e que acabou se tornando uma tetralogia (os outros filmes são Ferrugem, Deserto Particular e Barba Ensopada de Sangue). Eu fui criado num meio bastante masculino (em casa éramos 3 irmãos) e patriarcal (o nordeste brasileiro), onde a ética do “macho” era a prática. Era um meio bastante violento em que as individualidades eram afirmadas na porrada. Acontece que eu era uma criança e adolescente introspectivo, tímido e bem pouco dado às brigas. Então passei boa parte de minha existência me sentindo ameaçado. Eu era um inadequado naquele lugar. Eu não era “macho” o suficiente, sabe? Isso deixou marcas profundas em mim e, eventualmente essas marcas aparecem em meus personagens masculinos, que são sujeitos taciturnos, deslocados, inadequados, mas afetuosos, tentando, mesmo sem sabê-lo, exercer seu afeto fora da lógica do “homem com H.”
A sexualidade é um assunto que desperta uma variedade de reações, como curiosidade, medo e fantasias. É uma parte intrínseca de nossa vida íntima desde a infância e, por isso, pode ser um tema difícil de ser abordado e discutido abertamente. A sociedade muitas vezes evita falar sobre o assunto devido ao medo, constrangimento e vergonha associados a ele. Como é para você abordar a temática da sexualidade em suas obras?
A sexualidade ou repressão da sexualidade são fundamentais em algumas de minhas obras. Em Para Minha Amada Morta é uma sextape que desencadeia a história, em Ferrugem, um vídeo íntimo compartilhado na escola é gatilho, em Deserto Particular é o desejo sexual que transforma o personagem. A sexualidade é uma forma muito poderosa de expressão humana. Se olharmos a história da humanidade veremos que guerras foram travadas, reinos foram derrotados, famílias destroçadas, alianças seladas por causa ou através do sexo.
Como o seu pessimismo influencia na condução das suas obras, considerando que “Deserto Particular” começou como um drama pessimista e se transformou em uma história de encontro, tolerância e afeto?
Eu sou um otimista quase ingênuo. Mas é verdade que algumas de minhas obras tem um olhar pessimista sobre o estado atual das coisas. Quando eu escrevi Deserto Particular com Henrique dos Santos estávamos fartos de tantas más notícias, tanto coisa ruim pelo qual nosso país estava passando (estou falando do golpe de estado de 2016 e posterior eleição de um representante da extrema direita para governar o Brasil). Então decidimos protestar contra o estado das coisas oferecendo amor àqueles que nos ofereciam ódio.
É mais fácil abordar a delicadeza dos sentimentos humanos ou explorar o lado sombrio, considerando que você mencionou em uma entrevista que estava farto de ódio e violência em seus filmes e séries anteriores?
Estamos tão imersos em sombras que é bastante mais fácil expressá-la em nossa criação. É como se saíssemos ao campo para colher maldade onde a maldade abunda. Então escrever obras delicadas, divertidas, leves, otimistas é muito mais difícil, pois para fazê-lo precisamos nos alienar um pouco do meio. Pra criar bondade é necessário sermos um pouco ingênuos, num mundo bastante cínico.
Abordando a questão da masculinidade tóxica em suas produções cinematográficas, a qual frequentemente inibe a livre expressão emocional dos homens, levando-os a recorrer à violência como única forma de reação, gostaria de saber como você percebe o impacto dessa representação no âmago da sociedade. Isso considerando a sua perspectiva pessoal e experiência de vida.
Criamos e formamos meninos para se tornarem adultos péssimos. Os jogos, os brinquedos masculinos são quase todos violentos e competitivos. Aprendemos desde muito cedo a “matar” o outro (lembro aqui da brincadeira de polícia e ladrão), ou somos estimulados a eliminar o outro da brincadeira. Na minha infância raramente brincávamos de jogos colaborativos. Alguém sempre precisava perder para que alguém pudesse ganhar. Pode parecer bobagem, mas o fato é que essas brincadeiras moldam a maneira como iremos encarar a vida adulta. Também aprendemos desde muito cedo um conceito bastante enviesado de posse. Aprendemos que temos a posse das coisas (meu brinquedo), mas também das pessoas (meu amiguinho, minha namorada.) E quando alguém viola esse princípio sagrado da posse eu reajo de maneira violenta. Todos esses aprendizados ficam arraigados em nós, que vamos reproduzi-los no futuro, na vida adulta. E a tomada de consciência de como se dá essa estrutura da educação para a violência é um primeiro passo para que comecemos a desconstruí-la.
Na época em que você filmou “Jesus Kid”, você estava cheio de revolta e raiva devido ao contexto político brasileiro em 2019, quando o país estava seguindo por um caminho obscuro com a eleição de um presidente fascista. Você utilizou essa raiva como uma forma de promover uma catarse. Agora, com o atual governo, que tipo de sentimento você está experienciando?
Eu estou cheio de esperança. É como se tivéssemos sobrevivido a uma catástrofe. Na verdade, é isso mesmo, sobrevivemos a uma catástrofe. Infelizmente muitos brasileiros e brasileiras sucumbiram, mas nós, os sobreviventes, estamos aqui e no meu caso, estou bastante esperançoso de que possamos reconstruir esse país em bases mais humanitárias.
Nos últimos anos, você tem assumido a direção e roteiro de episódios de várias séries, como “Carcereiros”, “Irmandade”, “Irmãos Freitas” e “O Hipnotizador”. Como essa experiência tem impactado o seu crescimento como cineasta e como você enxerga a oportunidade de trabalhar em diferentes projetos televisivos?
Trabalhar em séries tem me dado duas coisas que o cinema não dá, segurança financeira e prática. Uma diretora ou diretor bem sucedido filma um longa há cada três anos. Tem quem fiquei cinco, dez anos sem filmar. Isso é muito ruim. Ao escrever e filmar séries eu me mantenho em forma para quando chega a hora de filmar um novo projeto autoral.

