“Batalha Atrás de Batalha”: um caos perfeito

“Batalha Atrás de Batalha” é o novo filme do realizador norte-americano Paul Thomas Anderson inspirado na obra “Vineland” de Thomas Pynchon
"One Battle After Another", de Paul Thomas Anderson "One Battle After Another", de Paul Thomas Anderson

One Battle After Another” é o novo filme do realizador norte-americano Paul Thomas Anderson inspirado na obra Vineland de Thomas Pynchon. Descrever esta longa-metragem não é uma tarefa fácil, sendo que o filme flutua por um vasto leque de géneros como o drama, a comédia negra, o crime, o thriller e, de forma mais surpreendente, a ação, e é este último que acaba por marcar de forma muito firme esta obra, sendo a primeira vez que o realizador o explora.

A narrativa é também bastante vincada, focando-se, inicialmente, na história de um casal de revolucionários que fazem parte de um grupo da resistência – French 75 – a um regime fascista instalado nos Estados Unidos da América. A história desenvolve-se depois com o desaparecimento de Perfidia (Teyana Taylor) – a mãe do casal – e a luta pela sobrevivência de Bob (Leonardo DiCaprio) – o pai – e da filha, Willa (Chase Infiniti) enquanto estes são procurados pelo Coronel Steve Lockjaw (Sean Penn) e pelo regime fascista instalado.

A direção frenética agarra o espectador ao ecrã desde o primeiro segundo, e as duas horas e quarenta e um minutos do filme não se fazem sentir, prendendo a atenção até ao último segundo, havendo vários elementos que contribuem para o ritmo e dinamismo da obra, destacando-se as sequências de ação brilhantes, as performances inacreditáveis de todo o elenco, a banda sonora original de Jonny Greenwood e a edição bastante acelerada de Andy Jurgensen que faz com que a audiência se sinta presa nas várias situações caóticas que vão sendo apresentadas.

Como seria de esperar, Paul Thomas Anderson conduz toda esta orquestra com precisão e de forma exímia, atingindo aquela que parece ser a grande obra-prima da sua carreira. Nada falha e nota-se uma grande atenção ao detalhe em todos os planos, em todas as falas e em todas as personagens que acarretam, todas elas, um peso substancial que acrescenta carga dramática à narrativa.

Todos estes elementos contribuem para que o filme tenha um grande potencial para se tornar um dos clássicos do cinema moderno, com várias sequências e figuras memoráveis, mas o que o tornará eterno é precisamente a capacidade de Paul Thomas Anderson usar a obra de Thomas Pynchon para cristalizar o momento dramático que é atualmente atravessado pelos Estados Unidos (e um pouco por todo o mundo), com a ascensão das filosofias extremistas e a polarização da sociedade (na obra de Pynchon, a sátira política é feita ao regime de Nixon depois da eleição de Raegan, enquanto que aqui é uma clara alusão à América de Trump e às suas mais recentes forças opressoras).

Sem necessidade de provar nada, Leonardo DiCaprio demonstra mais uma vez que é uma das maiores estrelas de cinema de sempre, tendo novamente a oportunidade de explorar o seu lado cómico, executando-o como só ele sabe e arrancando várias gargalhadas do público durante toda a duração do filme. Por outro lado, a carga dramática recai nas mulheres, sendo elas a alma do filme.

A cantora Teyana Taylor – agora atriz – domina todas as cenas com uma presença inigualável. Na sua estreia no cinema, Chase Infiniti demonstra também muita versatilidade e promete ser uma grande aposta da nova geração de atores. Por outro lado, Regina Hall tem aqui a oportunidade de explorar um papel mais dramático, em contraste com a sua carreira na comédia.

Benicio Del Toro brinda-nos também com a sua presença inesquecível e, aparentemente, sem esforço, naquele que parece ser o desempenho mais divertido da sua carreira. Contudo, é Sean Penn que desempenha o papel mais memorável do filme, desaparecendo por completo no papel de Steve Lockjaw, o coronel racista que assombra a família protagonista, de forma bastante aterradora.

Em suma, Paul Thomas Anderson continua a ser um mestre de Cinema, atingindo aqui um dos picos da sua carreira, dominando por completo todos os ofícios da Sétima Arte. Tudo é abordado neste filme, desde o fascismo ao wokismo. É um filme político, disfarçado de ação. É a atualidade, disfarçada de universo paralelo. É a realidade, disfarçada de sátira. É um filme épico como já se fazem poucos. Esperemos que seja este o ano em que o realizador é finalmente premiado pela Academia de Hollywood. Nunca o mereceu mais do que agora. Nunca este filme tinha sido tão necessário como agora.

O filme estreia nas salas de cinema portuguesas no dia 26 de Setembro.

"One Battle After Another", de Paul Thomas Anderson
“Batalha Atrás de Batalha”: um caos perfeito
Classificação dos Leitores3 Votes
4.5