Janeiro tem dessas coincidências que parecem combinadas à mão. Dois Davids, dois universos próprios, duas despedidas marcadas pelo mesmo mês. E é a partir desse encontro que o cineclube Belas Artes Frei Caneca, em São Paulo, decide abrir o ano com uma mostra especial dedicada a David Bowie e David Lynch.
A ideia é simples e bonita. Celebrar legados que continuam a ecoar muito depois do último acorde ou do plano final. Ao longo de Janeiro, a programação divide-se em dois momentos distintos na Mostra Davids. Primeiro, de 8 a 14 de Janeiro, é David Bowie quem ocupa o ecrã. Depois, de 22 a 28 de Janeiro, chega a vez de mergulhar nos labirintos de David Lynch.
Bowie, que completaria 79 anos em 2026, assinala também uma década da sua morte. Um artista que nunca coube numa só pele, nem numa só linguagem, e que transformou a música, a imagem e o próprio conceito de performance em território de invenção permanente. Lynch, por sua vez, despediu-se há um ano. Cineasta de atmosferas inquietantes, sonhos partidos e estradas que não levam exactamente a lado nenhum, deixou um cinema que continua a pedir silêncio, atenção e alguma coragem.
As sessões dedicadas a Bowie acontecem sempre às 20h40, na sala 6. Já os filmes de Lynch começam mais cedo, às 18h30, no mesmo espaço. O palco é o Cinesystem Belas Artes Frei Caneca, no terceiro piso do Shopping Frei Caneca, na Rua Frei Caneca, 569.
Os bilhetes custam 32 reais a inteira e 16 reais a meia-entrada, e já estão à venda. Resta escolher o dia, entrar na sala escura e deixar-se levar. Porque há encontros que só o cinema sabe proporcionar. E há meses que parecem feitos de propósito para isso.
Mostra Bowie
A Mostra David Bowie propõe uma viagem cinematográfica pela presença magnética e multifacetada de David Bowie no ecrã, reunindo filmes que ajudam a compreender não apenas o artista, mas o seu impacto na cultura, na música e no imaginário de várias gerações.
A travessia começa nos dias 8 e 10 de janeiro, às 20h40, com “Fome de Viver”. O filme mergulha num universo de glamour nocturno, desejo e decadência, acompanhando a vampira imortal interpretada por Catherine Deneuve e a sua relação com um jovem roqueiro. Bowie surge como figura central desse mundo elegante e sombrio, num musical dramático de imagens exuberantes e atmosfera sedutora, onde se cruzam temas como vaidade, imortalidade e a eterna fome por amor e reconhecimento.
No dia 9 de janeiro, às 20h40, o público é convidado a assistir a “Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”, registo histórico do último concerto de Bowie como Ziggy Stardust. Filmado em 1973 no Hammersmith Apollo, em Londres, o documentário captura a energia crua do palco, a teatralidade e a electricidade de um momento decisivo da cultura glam rock. Mais do que um concerto, é o retrato do nascimento e da despedida de um dos alter egos mais icónicos da música popular.
Já nos dias 11 e 14 de janeiro, também às 20h40, entra em cena “O Homem que Caiu na Terra”, obra-cult de ficção científica em que Bowie interpreta Thomas Jerome Newton, um alienígena enviado à Terra numa missão de sobrevivência. À medida que o tempo passa, a missão esbarra na ambição humana, na solidão e nas fragilidades do próprio protagonista. O filme combina especulação futurista, crítica social e melancolia, oferecendo uma das actuações mais enigmáticas e marcantes da carreira cinematográfica de Bowie.
A 12 de janeiro, às 20h40, é exibido “Basquiat”, retrato intenso de Jean-Michel Basquiat e da efervescente cena artística de Nova Iorque nos anos 80. Bowie surge no papel de Andy Warhol, mentor e amigo do pintor, numa interpretação que sublinha o diálogo entre arte, fama e mercado. O filme acompanha a ascensão meteórica e os conflitos internos de Basquiat, iluminando as tensões entre génio criativo e exposição mediática.
A mostra segue no dia 13 de janeiro, às 20h40, com “Christiane F.”, um drama cru e perturbador ambientado na Berlim Ocidental do final dos anos 70. A história acompanha a queda vertiginosa de uma adolescente no mundo das drogas e da prostituição. A música e a figura de Bowie surgem como parte do pano de fundo cultural da época, reforçando a atmosfera urbana, sombria e alienada que marca o filme e uma geração inteira.
Mostra Lynch
A Mostra David Lynch aposta em um mergulho gradual e hipnótico no universo de um dos cineastas mais singulares do cinema contemporâneo, onde nada é exactamente o que parece e cada imagem carrega um eco inquietante.
A viagem começa 22 de janeiro, às 18h30, com “Inland Empire”, uma obra imersiva que acompanha uma actriz à deriva num labirinto onde realidade, identidade e sonho se confundem. A narrativa fragmenta-se, dobra-se sobre si própria e conduz o espectador por uma experiência sensorial que dispensa explicações fáceis, revelando um olhar perturbador sobre Hollywood e a metamorfose interior.
Nos dias 23 e 28 de janeiro, sempre às 18h30, é a vez de “Estrada Perdida”, talvez um dos filmes mais desconcertantes de Lynch. Aqui, o suspense mistura-se com o pesadelo numa história de culpa, memória e desdobramento de identidade. Um homem acusado de um crime que diz não recordar vê a sua realidade estilhaçar-se, num jogo narrativo que se reinventa constantemente e desafia qualquer noção estável de verdade.
A 24 de janeiro, às 18h30, “Um Coração Selvagem” traz uma energia mais febril e romântica a esta travessia. Trata-se de uma road movie violenta e apaixonada, em que Sailor e Lula fogem pela estrada fora perseguidos por obsessões, ameaças e fantasmas interiores. Entre referências à cultura popular e explosões de brutalidade, o filme celebra um amor indomável, filtrado pelo surrealismo e pelo humor negro característicos do realizador.
No dia 25 de janeiro, às 18h30, a mostra abranda o passo com “Uma História Simples”, talvez o filme mais delicado e acessível de Lynch. Inspirado em factos verídicos, acompanha um idoso que decide atravessar vários quilómetros num cortador de relva para se reconciliar com o irmão doente. É uma narrativa simples e profundamente humana sobre o tempo, a memória, o perdão e os laços familiares, revelando um lado inesperadamente terno do cineasta.
A 26 de janeiro, às 18h30, o público é convidado a regressar às origens com “Eraserhead”, o primeiro longa-metragem de Lynch e uma das obras mais perturbadoras do cinema experimental. Num ambiente industrial opressivo, um homem confronta-se com a paternidade de uma criatura grotesca, numa sucessão de imagens inquietantes e sons sufocantes. Mais do que uma história, o filme é uma experiência sensorial que continua a ecoar muito depois do ecrã escurecer.
A mostra encerra 27 de janeiro, às 18h30, com “Cidade dos Sonhos”, também conhecido como “Mulholland Drive”. Considerado por muitos a obra-prima de Lynch, o filme entrelaça os destinos de duas mulheres em Los Angeles, num jogo vertiginoso entre sonho e realidade. Hollywood surge aqui como território de desejo, ilusão e perda de identidade, num enredo repleto de símbolos, rupturas narrativas e momentos de assombro que consolidam o estatuto mítico do realizador.

