O ciclo Passos no Escuro apresenta “Santa Sangre” (1989), de Alejandro Jodorowsky, numa sessão programada para o Passos Manuel, dia 22 de janeiro, às 22h00, no Porto. Antes da longa-metragem, será exibida a curta-metragem “O Compositor”, vencedora do Prémio de Melhor Curta-Metragem Portuguesa no MotelX – Festival Internacional de Cinema de Terror.
Depois de “El Topo” e “The Holy Mountain”, filmes que redefiniram os limites entre o cinema e a provocação, “Santa Sangre” surge como um momento de maturidade na obra de Jodorowsky.
Partindo de um trauma de infância ligado ao universo do circo, o filme acompanha a história de Fénix, um homem preso a uma relação de dependência com a mãe, mutilada e consumida por um fanatismo religioso extremo. O que se segue é um percurso onde fé, culpa, desejo e violência se cruzam de forma inquietante, num filme que utiliza o horror e o melodrama como ferramentas de uma abordagem profundamente pessoal e simbólica.
Santa Sangre
Realizado por Alejandro Jodorowsky, uma das figuras mais singulares do cinema do século XX, “Santa Sangre” ocupa um lugar central numa filmografia marcada pela recusa de convenções narrativas e pela exploração de imagens simbólicas. Jodorowsky sempre trabalhou o cinema como uma experiência sensorial e física, pensada para o grande ecrã e a exibição deste filme em sala permite recuperar toda a sua dimensão visual e sonora.
Reconhecido internacionalmente como um clássico moderno do cinema de culto, “Santa Sangre” distingue-se pela força das suas imagens e pela liberdade formal de um autor que sempre recusou convenções narrativas e morais.
A sua exibição insere-se na já conhecida linha programática do Passos no Escuro, que já nos habituou ao cruzamento de diferentes abordagens ao cinema de género, onde filmes exploitation, clássicos populares e obras mais autorais convivem no mesmo espaço de exibição.
Alejandro Jodorowsky
Falando um pouco mais sobre Jodorowsky, para além de cineasta, é dramaturgo, actor, escritor, músico, autor de banda desenhada e guru espiritual, sendo sobretudo reconhecido pelos seus filmes de vanguarda.
Entre os seus trabalhos mais emblemáticos destacam-se “Fando e Lis” (1968) e “El Topo” (1970) — este último um sucesso de culto que inaugurou o fenómeno dos “filmes da meia-noite”.
Em 1975, Jodorowsky iniciou a ambiciosa adaptação cinematográfica de “Dune”, de Frank Herbert, que reuniria nomes como Orson Welles e Salvador Dalí e contaria com banda sonora dos Pink Floyd. O projecto, no entanto, nunca se concretizou, sendo posteriormente filmado por David Lynch, como documentado no recente “Jodorowsky’s Dune”.
Após 23 anos afastado das câmaras, regressou com “The Dance of Reality”, filme autobiográfico sobre a sua infância numa cidade mineira chilena. O próprio Jodorowsky, a esposa Valérie e os filhos Brontis, Axel e Adan participaram nas suas obras.
Na juventude, Jodorowsky foi palhaço de circo e marionetista. Aos 23 anos mudou-se para Paris para estudar mímica com Marcel Marceau, onde criou laços com os surrealistas Roland Topor e Fernando Arrabal. Em 1962, os três fundaram o “Movimento do Pânico”, inspirado no deus mítico Pã.
Especialista em Tarô, Jodorowsky é também autor prolífico de romances, poesia, contos, ensaios e obras sobre cura “psicomágica”, além de mais de trinta bandas desenhadas desenvolvidas em parceria com artistas como Moebius e Bess. A editora Restless Books publicará em inglês três das suas obras mais conhecidas: “Donde mejor canta un pájaro”, “El niño del jueves negro” e “Albina y los hombres perro”.
O que antecede a exibição?
A sessão será aberta com “O Compositor”, curta-metragem de Afonso Lucas e Rodrigo Motty, distinguida no MotelX.
A obra centra-se em Álvaro Norte, compositor, maestro e violoncelista de renome, que mantém uma relação íntima e profunda com o seu protegido e prodigioso aluno, Mauro. Quando o jovem decide seguir o seu próprio caminho, Álvaro recorre a medidas extremas para o manter por perto.
Passos no Escuro
Criado em 2019, o Passos no Escuro é um ciclo regular de cinema apresentado no Passos Manuel, no Porto. Com seis anos de atividade contínua, o projeto tem vindo a afirmar-se como um espaço de exibição dedicado ao cinema de terror e de culto, apostando na apresentação de filmes em sala e na criação de uma relação consistente com o público.

