No passado dia 6 de maio de 2015, Orson Welles, uma das figuras mais influentes do cinema, do século XX, completaria 100 anos de vida. Multifacetado, trabalhou no teatro, cinema, rádio e televisão. Orson Welles (1915-1985) foi um cineasta e ator norte-americano. Começou a sua carreira cinematográfica, em 1934, com “The Hearts of Age” e pouco tempo depois, em 1941, realizou um dos maiores clássicos de sempre do cinema, “O Mundo a Seus Pés”. 100 anos depois do seu nascimento (e 30 anos da sua morte) a sua obra perdura como uma das mais importantes referências cinematográficas de sempre. Poucos podem gabar-se de uma obra tão boa.

Participou em mais de 100 filmes, tendo realizado apenas 27. A sua participação como ator ficou conhecida em filmes como, “O Terceiro Homem” (1949), “O Rei Lear” (1953), “A Ilha do Tesouro” (1972), e “Moby Dick” (1999). Todos queriam usar a voz de Welles nos seus filmes, inspirando muitos admiradores. Mas foi como realizador que Welles ficou mais conhecido. Apesar de, na década de 40, ter ido trabalhar para Hollywood, com apenas 25 anos, tentou fugir ao tipo de cinema que aí se fazia nessa época. Assim, tentou criar o seu estilo próprio, desenvolvendo novas técnicas e tornando-se num realizador de Autor. Welles realizava, escrevia, produzia, editava e actuava nos seus filmes, tentando controlar tudo. Com a realização do filme “O Mundo a seus pés”, Orson Welles revolucionou as técnicas de filmagem, utilizando novos recursos, como por exemplo, a profundidade de campo, planos longos, movimentos de câmara e edição rápida. O filme foi considerado pelos críticos de todo o mundo como sendo um dos melhores e mais belos filmes de todos os tempos. Obras como “O Mundo a Seus Pés” (1941), “O Quarto Mandamento” (1942) ou “A Dama de Xangai” (1947) são hoje referências da sétima arte.

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Época do Artista

Orson Welles nasceu em 1915, numa altura em que o cinema ainda tinha apenas 20 anos de existência, dominado pelo cinema mudo. No entanto, havia ainda muito para se inventar e criar na sétima arte.

Welles fica órfão na altura da Grande Depressão, período negro da economia americana e que se alastrou a quase todo o mundo. A crise económica de 29/30 afectou todos os sectores económicos e, claro, que a recém criada indústria cinematográfica também não ficou imune à crise. O início dos anos 30 não terá sido o momento ideal para quem queria iniciar uma carreira de ator e de cineasta. Mas, por outro lado, este período de crise afectou positivamente a arte cinematográfica, pois o período áureo do cinema sonoro decorre entre os anos 30 e 40 do século XX.

Quando Welles fez o seu primeiro filme, “The Hearts of Age” (1934) o mundo estava prestes a entrar na 2ª Guerra Mundial. Foi uma época muito controversa e repleta de oposições e contradições. Se, por um lado, se deu o avanço e ascensão ao poder das forças conservadoras de direita, surgindo o totalitarismo, o militarismo, o fascismo e o nazismo. Por outro lado, após a Revolução Socialista de outubro de 1917 que deu origem ao nascimento da URSS, os adeptos do comunismo foram crescendo a nível mundial. Ora, politicamente, Welles foi sendo muito influenciado por todos estes novos ideais e, cedo, assumiu publicamente as suas ideias antifascistas e anti-nazistas, chegando mesmo a ter ligações com os partidos comunistas.

Talvez tenha sido ironia do destino, mas foi no período da 2ª Guerra que Welles começou a ficar famoso. Em agosto de 1939 assina o contrato com a RKO para dirigir dois filmes e em 1940 inicia as filmagens de “O Mundo a Seus Pés”, que teria a sua primeira projecção pública, no ano seguinte.

Assim, pertencendo à corrente de pensamento progressista da época, Orson Welles não se coibiu de demonstrar publicamente a suas convicções políticas, colocando a sua popularidade e as suas ideias ao serviço duma política claramente progressista. Com isto, ganhou prestígio e amigos, mas também sofreu muitas represálias. Participou com tanto entusiasmo na Política da Boa Vizinhança de Roosevelt e na sua recandidatura, e assinou vários artigos em que denunciou os perigos da bomba atómica, tendo até ponderado a hipótese de abandonar o cinema para se entregar plenamente à política. Por outro lado, quando esteve em “exílio forçado” na Europa, chegou a estar sob a vigilância do FBI, pois era considerado um comunista perigoso.

Percurso Artístico

Teatro

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Orson Welles desde muito cedo que se interessou pela arte da representação. Aos três anos, estreia-se como actor numa encenação de “Sansão e Dalila”, na Ópera de Chicago, em 1918. Aos dez anos, Welles, adapta, dirige e interpreta a peça “Médico e o Monstro”, num parque de campismo. Aos dezoito anos já era um actor famoso no teatro experimental, e um ano depois faz a sua estreia na Broadway, com “Romeu e Julieta”. Nos anos seguintes continua a participar em peças de Teatro, tais como por exemplo, “Macbeth” (1936) de Shakespeare, “Around the World” (1946), “The Blessed and The Damned” (1950), “King Lear” (1956) e a sua última encenação teatral foi “Rhinocéros de Ionesco” (1960), em Londres.

Rádio

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Orson Welles trabalha na rádio pela primeira vez em 1935. Dois anos mais tarde, interpreta, na rádio, o papel principal na série “The Shadow”.

A 30 de outubro de 1938, Welles faz a famosa difusão de “A Guerra dos Mundos”, adaptação da obra homónima de Herbert George Wells, desencadeando uma vaga de pânico nos ouvintes de todo o país. A notícia de que marcianos haviam chegado à Terra e estavam em Nova Jersey foi transmitida (na noite de Halloween) com tanto realismo que fez com que milhares de pessoas começassem a fugir das suas casas, convencidos que um exército de marcianos estaria a invadir a Terra. Este realismo da emissão radiofónica deveu-se à utilização de uma nova técnica de adaptação, falar na primeira pessoa, parecendo que as personagens estavam a viver em directo os acontecimentos do relato.

O êxito desta transmissão radiofónica fez com que o programa passasse a ter o patrocínio da empresa Campbell e mudado o nome para “The Campbell Playhouse”, a partir de 9 de dezembro, com a adaptação de “Rebecca” de Daphne du Maurier. Por outro lado, a repercussão deste acontecimento foi tão grande, que abriu as portas de Hollywood a Orson Welles, assinando um contrato milionário para fazer dois filmes, onde teria total liberdade para realizar, produzir, escrever os argumentos e ser actor.

Após o êxito da “A Guerra dos Mundos”, Welles continua a participar em vários programas radiofónicos, como por exemplo, em Janeiro de 1944, “Almanaque de Orson Welles, em março de 1945, “This is My Best” e, em março de 1951, em Londres, “The Lives of Harry Lime”, onde interpreta o papel principal.

Televisão

Desde o início da sua carreira, quer no cinema, no teatro e na rádio, que Welles foi trabalhando esporadicamente para a televisão, quer norte-americana, quer inglesa e até a italiana. Realizou algumas séries televisivas para a BBC e para a ABC.

Welles considerava a televisão “não uma forma dramática, mas uma forma narrativa”, sendo o meio ideal para um contador de histórias porque antes de mais nada ela se dirige ao ouvido. Assim, para Welles, na televisão, o espectador escuta antes de olhar e por isso a televisão prende mais a atenção. Aqui, mais do que no cinema, o cérebro é mais solicitado pelo ouvido que pelo olho: “olhar é uma experi~encia sensorial mais bela, mais poética talvez, mas que exige menor atenção”. Assim, na televisão as palavras deixam de ser inimigas do filme e o filme passa a ilustrar as palavras.

Cinema

Embora Welles tenha feito em 1934 o seu primeiro filme “The Hearts of Age”, só em 1941 é que ganhou fama mundial, fazendo com que “O Mundo a Seus Pés” seja hoje um clássico da História do Cinema.

O filme “Citizen Kane” (em português, “O Mundo a Seus Pés”) recebeu vários elogios da crítica mundial devido à utilização de técnicas inovadoras (angulações de câmara, exploração do campo, narrativa não linear e montagem muito sofisticadas para a época). Por outro lado, ao contrário do que é habitual em cinema, Welles acumulou várias funções (realizador, co-argumentista, produtor e ator), tendo conseguido criar uma obra prima completamente à frente do seu tempo. Foi elogiado também por ter tido a coragem de retratar a vida e a decadência de um magnata da comunicação social norte-americana, baseado na história verídica do milionário William Randolph Hearst, ainda vivo na época da realização do filme. Por esse facto, Welles teve alguns problemas com Hearst, o que influenciou talvez o facto de só ter recebido um Óscar (o de melhor argumento), apesar do filme ter sido indicado para nove Óscares. Mas só muitos anos mais tarde é que se tornou num clássico do cinema.

O seu próximo filme foi “O Quarto Mandamento”, realizado em 1942, juntamente com Fred A. FlecK e Jack Moss, baseado no romance de Booth Tarkington. Neste filme, além de realizador e produtor, Welles é também argumentista e narrador.

Entretanto, Welles participa na realização de vários outros filmes, quer como realizador, argumentista, produtor e, por vezes, actor: “A jornada do medo” (1943), “O Estrangeiro” (1946), “A Dama de Xangai” (1947), “Macbeth” (1948), “Otelo” (1952), “Mr Arkadin/Relatório Confidencial” (1955), “A Sede do mal” (1958), “O Processo” (1962), “As Baladas da Meia-Noite” (1966), “História Imortal” (1968) e “F de Falso” (1973).

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“O Processo” (1962)

"A Dama de Xangai" (1947)

“A Dama de Xangai” (1947)

"F de Falso" (1973)

“F de Falso” (1973)

Welles considerou “O Processo” (uma adaptação muito fiel de O Processo de Franz Kafka) um dos seus mais gratificantes filmes realizados. No entanto, “A Sede do Mal” volta a dar fama a Welles, nomeadamente, dentro do género “film noir”, transformando uma banal história numa fábula compulsiva e tenebrosa que, conduzida a um ritmo infernal, coloca explicitamente o problema do abuso de poder policial, que facilmente conduzirá à intolerância e à ditadura. Após a sua morte, foi feita uma nova versão do filme “A Sede do Mal”, seguindo algumas das suas anotações. Estas duas versões de “A Sede do mal” resistiram ao tempo, tornando-se numa obra-prima bizarra, em termos técnicos, imaginativos e de audácia.

Na década de 70 realizou uma sátira a Hollywood (“The Other Side of the Wind”), mas que, por motivos legais, nunca chegou às salas de cinema.

Welles quando morre em 1985, deixou vários filmes inacabados, como por exemplo, “O Pequeno Príncipe” (1943), “Operação Cinderella” (1952) e “Mercedes” (1970-1980).

Ao longo da sua vida como cineasta, Welles foi agraciado várias vezes pela crítica, tendo recebido vários prémios. Recebeu duas indicações ao Óscar de Melhor Filme (“O Mundo a seus pés” e “O Quarto Mandamento”) e uma indicação ao Óscar de Melhor Realizador e melhor Ator (“O Mundo a seus Pés”); ganhou o Óscar de Melhor Argumento (“O Mundo a seus Pés”); ganhou um Óscar honorário, em 1971, concedido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e ganhou o Grande Prémio do Júri, no Festival de Cannes (“Othello”).

“A arte é uma mentira que nos faz ver a verdade”. Orson Welles

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