Morreu João Canijo, um dos grandes nomes do cinema português

Canijo deixa um cinema de realismo social e psicológico, marcado pela observação das estruturas familiares e pela força das figuras femininas
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Via: Trustin News

O cineasta e argumentista português João Canijo morreu esta quinta-feira (29), aos 68 anos. O corpo do realizador de “Sangue do Meu Sangue” e “Mal Viver” foi encontrado em casa, ao início da tarde, pela empregada doméstica, pouco depois do almoço. A morte terá sido causada por um ataque cardíaco fulminante. A informação foi avançada pelo produtor Pedro Borges ao jornal Público e confirmada pela Midas Filmes, produtora habitual do realizador.

João Canijo deixa dois projectos concluídos e actualmente em fase de pós-produção: “Encenação” e “As Ucranianas”, protagonizados por actores como Rita Blanco, Anabela Moreira, Miguel Guilherme e Beatriz Batarda, intérpretes com quem manteve uma colaboração regular ao longo da carreira.

Natural do Porto, Canijo iniciou o seu percurso no cinema na década de 1980, com “Três Menos Eu”. Ao longo de mais de quatro décadas de actividade, afirmou-se como uma das vozes mais consistentes e singulares do cinema português, construindo uma obra marcada por um forte realismo social e psicológico, com especial atenção às dinâmicas familiares e ao lugar das mulheres na sociedade. Entre os seus filmes mais reconhecidos contam-se “Ganhar a Vida”, “Noite Escura”, “Sapatos Pretos”, “Sangue do Meu Sangue”, “Viver Mal” e “Mal Viver”.

Com “Mal Viver”, longa-metragem centrada num grupo de mulheres de várias gerações da mesma família que gere um hotel na costa norte portuguesa, João Canijo conquistou o Urso de Prata no Festival de Berlim, em 2023. Num espaço marcado pela decadência e pela luta pela sobrevivência, as relações familiares deterioram-se, fazendo emergir ódios latentes e ressentimentos acumulados, agravados pela chegada inesperada de uma neta.

No discurso de aceitação do prémio, o realizador agradeceu à equipa de produção e sublinhou o facto de o filme ter sido criado por uma equipa “composta quase completamente por mulheres”, destacando a directora de fotografia, Leonor Teles, e as actrizes: “Deram-me a sua vida para este filme”, afirmou então.

A longa-metragem foi ainda a candidata de Portugal a uma nomeação ao Óscar de Melhor Filme Internacional, na 96.ª edição dos prémios da Academia norte-americana, e arrecadou vários outros galardões, entre os quais o Prémio de Melhor Realizador no Festival de Montevideo e o Grande Prémio e o Prémio do Público no Festival de Las Palmas de Gran Canária. Em Portugal, na 13.ª edição dos Prémios Sophia, venceu os prémios de Melhor Filme e Melhor Realização.

Com “Sangue do Meu Sangue” (2011), drama social centrado no amor de uma mãe pela filha e de uma tia pelo sobrinho e nos limites do sacrifício a que essas relações podem conduzir, João Canijo recebeu o Prémio da Crítica Internacional no Festival de San Sebastián e o Grande Prémio do Júri em Miami. O filme foi exibido em mais de 60 festivais internacionais.

Ao longo da carreira, Canijo foi distinguido com três Globos de Ouro de Melhor Filme, prémios que ajudam a mapear a coerência do seu percurso autoral: “Noite Escura”, em 2005, uma reescrita sombria de Ifigénia em Áulis, de Eurípides, transposta para um submundo onde o corpo e a moral se tornam mercadoria; “Sangue do Meu Sangue”, em 2012; e “É o Amor”, em 2014, filme enraizado nas Caxinas, em Vila do Conde, que observa com crueza e ternura uma relação de dependência vital entre uma mulher e um pescador, num quotidiano moldado pela sobrevivência e pela necessidade mútua.

Realizador e autor, dirigiu mais de sete longas-metragens e três documentários. Antes de afirmar uma voz própria, trabalhou como assistente de realização de cineastas como Manoel de Oliveira, Wim Wenders, Alain Tanner e Werner Schroeter.

A morte de João Canijo gerou reacções no meio cultural. Em directo na CNN Portugal, o antigo ministro da Cultura Pedro Adão e Silva sublinhou a importância do realizador para a projecção internacional do cinema nacional, destacando “uma linguagem muito particular” e “uma capacidade notável de dar lugar às mulheres na sua cenografia”, acrescentando que “muitas vezes em Portugal não somos capazes de reconhecer a cultura de grande qualidade que aqui é feita”.

Também a Medeia Filmes assinalou o falecimento nas redes sociais, partilhando uma frase do próprio realizador: “A verdade é a interpretação que cada um faz da realidade. E é uma escolha que cada um faz da realidade.”