“Baan”, de Leonor Teles: A eterna procura por um sítio a que chamar casa

Baan, de Leonor Teles Baan, de Leonor Teles

“Baan”, o mais recente trabalho de Leonor Teles, fez um percurso importante pelos festivais internacionais e nacionais: marcou presença no Festival de Locarno, foi filme de encerramento no 21.º Doclisboa, em 2023, e venceu o Golden Puffin no Reykjavík International Film Festival, o principal prémio do festival.

O percurso de Leonor Teles não é alheio ao sucesso internacional e, ainda na casa dos 30 anos, já logrou alguns feitos notórios nesse aspeto, tornando-se, por exemplo, na mais jovem nova realizadora a receber um Urso de Ouro para curtas-metragens no Festival Internacional de Cinema de Berlim, com “Balada de um Batráquio”.

Mais recentemente, esteve em destaque ao lado de João Canijo como diretora de fotografia do aclamado díptico “Mal Viver/Viver Mal”, que arrecadou o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim.

Os prémios, claro, refletem a importância e a urgência da mensagem trazida para o cinema com audácia, sentido de inovação, irreverência, ausência de medo perante as estruturas e as tradições, mas, ao mesmo tempo, num clamor invisível pelo retorno às raízes, que a própria realizadora já referiu serem importantes – o seu cinema não a deixa mentir.

À primeira vista, “Baan” introduz ao seu espectador a história simples de L., uma jovem arquiteta, na sua rotineira vida diária por uma Lisboa sem forma e sem nome, identificável apenas para quem a conhece de cor e para quem lhe conhece as atuais agruras, de que a crise habitacional é uma das mais prementes. A crise habitacional, para L., é outra, é a de onde poder assentar as estruturas da sua casa emocional e a que preço.

Por entre os dias de aprendizagem no atelier de arquitetura, onde busca formas orgânicas de construir um teto, vive os dilemas próprios de quem ama e sofre enquanto jovem. Dir-se-ia até que L., cujo nome igualmente nunca é relevado – embora possa adivinhar-se a que L. se refira -, é apenas mais uma rapariga a viver aquilo que já foi vivido por tantas outras.

Acontece, contudo, que esta é uma história escrita por Leonor Teles, a realizadora, em parceria com Francisco Mira Godinho e Ágata de Pinho, e de comum terá apenas a aparência, já que a sua essência circula muito mais no mundo onírico e das possibilidades do que a sua cruel “realidade” parece querer apontar.

Por um lado, representa uma procura muito real da própria realizadora no que talvez se possa chamar a sua casa enquanto cineasta e, nesse aspeto, é também o seu filme mais conseguido no que respeita a uma identidade e marca mais vincada, tanto estética como narrativa. Representa ainda um passo importante na sua maturidade como artista, não querendo com isto dizer que o seu trabalho anterior fosse imaturo, mas um destacar-se em nome próprio, com assinatura.

Se se quiser, parece apontar para o cruzamento entre as necessárias dores do crescimento com a ansiedade própria de quem não pode parar e precisa de mais do seu trabalho. Sem dúvida, “Baan” é o resultado e o depuramento desses elementos com a experiência da realizadora enquanto diretora de fotografia nos seus filmes e em filmes alheios.

“Baan” é o cinema do presente/futuro baseado em Portugal com o olhos postos no mundo, numa brilhante mistura entre a macro estrutura e as preocupações com as dinâmicas dos e/i/migrantes no próprio território português. Não é o único cinema do futuro porque está enquadrado numa nova geração de realizadores que vê o mundo de outra maneira e o expõe com preocupações novas na sua linguagem, mas está muito perto de ser dos mais completos e coesos.

L. encontra K., uma jovem asiática que vive em Lisboa, mas que vem fugida de outras paragens, não sabendo se esta terra é a sua paragem definitiva. Ambas percebem que na sua procura incessante por um sítio a que possam chamar casa, acabam muitas vezes a pensar num momento ou numa pessoa que lhes trouxe a sensação reconfortante que procuram. Ao mesmo tempo, ambas se sentem aliens no sentido anglo-saxónico do termo, independentemente de terem migrado dos seus territórios originais.

A procura de L., por outro lado, leva-a a uma viagem não-física que a transporta para territórios onde ainda apenas deseja ir, perguntando-se o espetador se aquelas imagens em paragens longínquas, captadas na imensidão de Banguecoque, na Tailândia, fazem parte do seu presente, passado ou futuro. Provavelmente, pertencem apenas à sua imaginação.

Na sobreposição das cidades (Lisboa e Banguecoque) e da personagem de L. naqueles dois sítios, cuja postura corporal e emocional não se altera, há uma decalcagem que pretende mostrar que se pode estar em movimento, tentado fugir de si mesmo, sem na realidade se conseguir escapar da inquietude que tanto impulsiona como aterroriza.

Ao fim de algum tempo, essas duas cidades não se distinguem e L. e K. podem estar ali ou não, em qualquer uma delas, ao mesmo tempo ou separadas, a viajar em mente ou com o corpo, com aqueles nomes ou outros, porque o que conta verdadeiramente é o que é alcançado na viagem.

Perdidas ambas na tradução, por entre justas reivindicações sociais quanto ao tratamento dos estrageiros, especificamente os asiáticos, nos territórios maioritariamente não-asiáticos, ou lutas com a restrita etiqueta dos boomers no local de trabalho, L. e K. fazem aquilo que melhor sabem: sobrevivem.

À sua volta, muitos outros lares se desmoronam, mesmo os mais sólidos e perfeitos, e nem a linguagem estética que L. traz à sua arquitetura a pode salvar: uma membrana, desenhada e integrada numa cobertura insuspeita e sólida, pode servir tanto de proteção, semelhante a um casulo, como representar a maior das fragilidades.

Nesta dualidade vive “Baan”, no melhor dos sentidos possível, porque deixa um complexo mundo de probabilidades e explicações à disposição de quem o vê, não se definindo, não dando respostas e deixando, sobretudo, muitas perguntas. Em última instância, até se pode questionar se tudo não se passou apenas na cabeça de L. e todas as pessoas com quem se cruzou não serão apenas o fruto do seu imenso desejo de proximidade.

No início do filme, a realizadora prepara o público para uma montanha russa que aí vem e, embora a bela banda sonora ajude a criar esse efeito em termos mais imediatos, esse movimento frenético existe noutro plano, muito mais íntimo, menos visível, menos audível, está todo no mundo interior de L.

Baan, de Leonor Teles
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