Cursos de Cinema avançam em universidades federais do Brasil

Movimento de expansão ocorre em diferentes regiões e depende de aprovação institucional e reforço de recursos humanos
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Foto: Getty Images

As universidades federais brasileiras têm vindo a desenhar, com maior consistência nos últimos anos, uma nova malha de formação em Cinema e Audiovisual. O movimento não surge de forma isolada, mas como resposta a um conjunto de pressões: o crescimento do sector, a expansão das plataformas digitais, a profissionalização da produção independente e a procura crescente por cursos públicos nesta área.

No Sul do país, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) prepara a criação da licenciatura em Cinema e Audiovisual, prevista para arrancar em 2027. A abertura depende ainda de autorização do Ministério da Educação, sobretudo no que toca à criação de vagas docentes, um ponto central para a viabilização do curso.

A formação será integrada na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, conhecida pela sua tradição nas áreas da comunicação social. O curso terá duração de quatro anos, com uma carga horária de 2.955 horas, e deverá ocupar um espaço próprio dentro da estrutura da faculdade, com disciplinas distribuídas entre teoria do cinema, práticas de realização, argumentação, produção e linguagem audiovisual contemporânea.

A reitora Márcia Barbosa tem sublinhado que a proposta não nasce de improviso. Pelo contrário, resulta de anos de discussão interna e de uma leitura do contexto regional, onde existe procura consistente por formação nesta área.

A direcção da faculdade acrescenta que a criação do curso acompanha também a consolidação do audiovisual como campo profissional relevante no estado do Rio Grande do Sul, onde festivais, produtoras independentes e iniciativas culturais têm ganho expressão.

Em Santa Maria, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) segue uma trajectória semelhante. O projecto de criação da licenciatura em Cinema e Audiovisual foi recentemente enviado à Reitoria pelo Centro de Artes e Letras, iniciando o processo formal de avaliação interna.

A proposta prevê a entrada em funcionamento em 2027, caso obtenha aprovação em todas as instâncias académicas e administrativas, bem como autorização do Ministério da Educação. Um dos pontos críticos é novamente a necessidade de reforço de pessoal docente e técnico, condição indispensável para a abertura do curso.

A formação deverá ser construída de forma interdisciplinar. A intenção é envolver não apenas o Centro de Artes e Letras, mas também unidades ligadas às ciências sociais, comunicação e tecnologias. Há igualmente uma aposta clara na articulação com o exterior, através de parcerias com produtoras e iniciativas culturais locais, o que poderá aproximar os estudantes do mercado de trabalho ainda durante o percurso académico.

A estrutura curricular projectada aponta para uma formação que cruza prática e reflexão crítica. Estão previstas unidades dedicadas à realização, à escrita para audiovisual, à montagem, à estética do cinema e às linguagens digitais. A preocupação com as novas formas de produção e distribuição, incluindo plataformas online, surge como eixo estruturante.

No Nordeste, a Universidade Federal do Cariri (UFCA) deu um passo formal decisivo com a aprovação do projecto pedagógico da licenciatura em Cinema e Audiovisual. O curso será vinculado ao Instituto Interdisciplinar de Sociedade, Cultura e Artes e deverá funcionar no campus de Juazeiro do Norte.

A oferta inicial prevê 30 vagas anuais, com acesso através do sistema nacional de selecção baseado no exame de entrada no ensino superior. A estrutura curricular inclui disciplinas obrigatórias e optativas, permitindo diferentes percursos de especialização ao longo do curso.

Um dos aspectos mais relevantes da proposta é a abertura ao território. A universidade pretende articular o curso com iniciativas culturais e profissionais da região, criando uma ligação directa com o tecido audiovisual local. A ideia passa por integrar a formação académica com a realidade produtiva já existente, ainda que de forma muitas vezes dispersa.

Mais a sul, a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) apresentou o projecto pedagógico do futuro bacharelato em Cinema e Audiovisual. O documento, com 184 páginas, foi entregue à Reitoria e à Pró-Reitoria de Graduação, marcando uma etapa importante no processo de criação.

O projecto não se limita à definição de disciplinas. Inclui também uma leitura histórica da relação da cidade de Ouro Preto com o cinema, a definição do perfil do estudante que se pretende formar, bem como uma análise das condições necessárias em termos de infra-estrutura e equipamentos.

A proposta defende uma formação com identidade própria, onde o cinema é entendido simultaneamente como prática artística, objecto cultural e ferramenta de reflexão social.

O responsável pela comissão de implantação sublinha a intenção de construir um curso atento às periferias e ao interior do país, recusando uma visão exclusivamente centrada nos grandes centros urbanos.

O lugar do cinema na universidade pública em mudança no Brasil

Em conjunto, estas iniciativas apontam para um processo mais amplo de reconfiguração do ensino do audiovisual no Brasil, que não se limita à abertura pontual de cursos, mas sugere uma mudança gradual na forma como o cinema é pensado dentro da universidade pública.

Durante décadas, a formação nesta área concentrou-se em alguns centros específicos, com forte predominância do eixo Rio–São Paulo, onde se consolidaram escolas, mercados de trabalho e redes de produção mais estruturadas. O que se observa agora é uma tentativa de redistribuição geográfica e institucional desse saber, ainda em fase inicial, mas com sinais consistentes de continuidade.

Esse movimento de descentralização não resulta apenas de uma dinâmica académica, estando directamente associado à expansão do sector audiovisual em escala nacional, à multiplicação de produtoras independentes e ao impacto das plataformas digitais, que transformaram profundamente os modos de produção, circulação e consumo de imagens.

A este quadro soma-se o aumento do investimento público no sector. Em 2025, o audiovisual brasileiro recebeu 1,41 mil milhões de reais em recursos públicos, o maior volume já registado na série histórica, segundo balanço divulgado pelo governo federal. O valor representa um crescimento de 29% face a 2024 e de 179% em relação a 2021.

A convergência destes factores ajuda a explicar não apenas a diversificação da produção, mas também a pressão crescente por formação especializada, reflectida na expansão dos cursos universitários em diferentes regiões do país.

Neste contexto, a universidade deixa de responder apenas a uma procura estudantil em crescimento e passa a reagir a uma transformação estrutural do próprio campo profissional, cada vez menos dependente dos grandes centros industriais tradicionais e mais disperso em redes produtivas, tecnológicas e territoriais.

Ao mesmo tempo, a criação destes cursos indica uma mudança mais profunda na forma como o cinema é legitimado enquanto objecto académico. Deixa de ocupar um lugar periférico, associado sobretudo à prática artística ou a formações complementares, e passa a ser reconhecido como campo autónomo de conhecimento.

Isto implica uma reorganização interna das universidades, com a definição de matrizes curriculares próprias e a articulação entre teoria e prática, integrando áreas como estética, tecnologia, narrativa, economia da cultura e estudos das imagens.

Há também uma inflexão na relação entre universidade e contemporaneidade. O audiovisual já não pode ser pensado apenas a partir do cinema clássico ou das estruturas tradicionais de produção. A presença de novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial, a expansão das plataformas de streaming e a proliferação de linguagens híbridas, exige actualização constante dos currículos e das metodologias de ensino.

Nesse sentido, os novos cursos não respondem apenas à procura existente, mas constituem também uma tentativa de reposicionamento da universidade perante um ecossistema em rápida mutação.

Apesar desta dinâmica, os projectos enfrentam constrangimentos. A dependência de autorização do Ministério da Educação, a necessidade de criação de vagas docentes e técnicas e as limitações orçamentais das universidades federais introduzem um ritmo mais lento do que aquele que o sector audiovisual exige. Trata-se de uma tensão recorrente entre a velocidade das transformações culturais e a estrutura administrativa do ensino superior público.

Acrescem ainda desafios de infra-estrutura e consolidação institucional. Não se trata apenas de criar disciplinas, mas de construir ecossistemas formativos capazes de integrar produção, investigação e extensão universitária, o que implica estúdios, equipamentos, parcerias externas e redes de colaboração com o sector cultural e profissional.

Sem estas condições, a formação corre o risco de permanecer excessivamente teórica ou afastada das práticas contemporâneas.

Ainda assim, estas iniciativas sugerem uma viragem relevante no ensino do audiovisual. O cinema e o audiovisual passam a integrar de forma mais sistemática o espaço académico brasileiro, não como apêndice das áreas da comunicação ou das artes, mas como campo estruturado de conhecimento.

Este processo, embora desigual e ainda em consolidação, aponta para uma transformação de longo prazo, em que a universidade pública procura reposicionar-se perante um sector cultural cada vez mais descentralizado, tecnológico e transversal.