Cannes 2026: o falso objeto de culto de “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”

No seu terceiro filme, Jane Schoenbrun transforma um slasher meta sobre nostalgia, fandom e horror queer num objeto excessivamente consciente do próprio estatuto cult.
Teenage Sex Death Camp Miasma Review 1 Teenage Sex Death Camp Miasma Review 2

Enquanto a competição da 79ª edição de Cannes anda aos trancos e barrancos, fomos dar uma espreitada pelas seções paralelas do festival. O filme de abertura da Un Certain Regard era o “hot ticket” do dia, e pela fila de última hora à porta do Debussy – provavelmente uma das maiores que se viram por aqui nos últimos anos – percebeu-se logo que Jane Schoenbrun chegava a Cannes com um certo estatuto de culto. Tudo isto para ver Teenage Sex and Death at Camp Miasma, o terceiro filme da realizadora americana trans e não-binária que Sundance lançou ao mundo quatro anos atrás.  O hype em torno do novo filme era tão grande que parecia que a croisette tinha vindo em peso para assistir não exatamente ao filme, mas ao “momento cultural” Jane Schoenbrun.

E percebe-se de onde esse apelo vem. Descoberta em Sundance em 2021 com o enigmático e de micro orçamento We’re All Going to the World’s Fair, e depois confirmada em 2024 com I Saw the TV Glow, Schoenbrun construiu um cinema profundamente ligado à adolescência online e à solidão digital como abrigo psicológico. Esses filmes partilhavam qualquer coisa de realmente perturbadora na maneira como olhavam para as telas não como fuga, mas como o único lugar onde existir fazia algum sentido. Até Martin Scorsese entrou no coro de admiração declarando que I Saw the TV Glow era “emocionalmente e psicologicamente poderoso” e citando a realizadora pelo nome.

E assim, Schoenbrun é transformada numa espécie de fenômeno contemporâneo em que o realizador deixa de ser apenas um contador de histórias e passa a funcionar como um avatar do discurso cultural. O problema é que “Camp Miasma” já chega esmagado por essa missão auto imposta. Schoenbrun fez do seu cinema uma coleção de memorabilia dos filmes e séries de horror camp que marcaram a sua infância, e agora parece mais interessada em expor esse pedaço de cultura pop como algo a ser ressignificado do que habitado.

O novo longa, que faz parte de uma trilogia, funciona quase como uma continuação direta dos dois anteriores – só que agora com mais dinheiro, mais referências e duas estrelas a sério. Kris (Hannah Einbinder, na sua primeira aparição em cinema depois do sucesso televisivo em Hacks) faz uma realizadora queer contratada para ressuscitar uma velha franquia de slasher, o “Camp Miasma”, entretanto reclassificada hoje como “problemática”.
Os estúdios esperam que ela faça uma espécie de “queer washing” da coisa; ou seja, uma releitura woke para novos tempos. Mas Kris fica obcecada em convencer a atriz original da saga, Billy Preston, interpretada por uma hipnótica Gillian Anderson, com um sotaque sulista muito peculiar, a regressar ao papel que a tornou famosa. Vai então viver com a atriz na propriedade isolada onde o primeiro filme foi rodado, e as coisas começam a desintegrar-se em território que Schoenbrun claramente quer que pareça lynchiano. 

O esforço nota-se. E é precisamente aí que reside a ironia maior do filme: os seus melhores momentos não acontecem quando Schoenbrun força o mistério, mas quando Gillian Anderson entra e desorganiza tudo. Anderson parece compreender algo que o resto do filme esquece: o horror camp funciona melhor quando existe um certo ridículo levado a sério. Sempre que ela aparece, Camp Miasma deixa de tentar ser uma autópsia cultural do terror americano para se lembrar que também pode ser um filme divertido sobre a obsessão do processo de criação.

E é precisamente esse o problema central de “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”: o filme quer nascer já como um tipo de objeto de culto. Mas o culto não se programa. É sempre uma audiência tardia que o decide, geralmente anos depois, por razões que o próprio realizador não antecipou. Um filme que já se sabe cult antes de estrear é, por definição, outra coisa.
O que resta é um filme refém da necessidade de demonstrar a sua própria obsessão. As centenas de referências e name-dropping parecem existir aqui quase exclusivamente para comentar as próprias referências num “stream of consciousness” em eterno loop onde tudo vira discurso sobre o discurso. O horror camp antigo é convocado para ser desmontado, corrigido e atualizado.

Schoenbrun utiliza-se da sua protagonista como porta-voz das suas diatribes, mas na maioria das vezes o que sai daí não passa de angústia juvenil e auto-bajulação com um verniz cool. Na sequência de abertura, por exemplo, vemos a história ficcionada da franquia Camp Miasma em toda a sua glória kitsch, até a câmera fechar numa ilustração de Kris com a manchete “The Sundance wunderkind”.  A autoconsciência não é o problema em si; o problema é ser um filme que nunca baixa a guarda, nunca se permite ser apenas o que é sem imediatamente comentar o fato de ser o que é.

Schoenbrun parece ter abandonado também o que tornava I Saw the TV Glow um filme mais simpático, ou pelo menos mais honesto na sua estranheza: o mistério e a fragmentação funcionavam porque o filme não se preocupava em situar a sua audiência. Agora, Schoenbrun quer abrir o currículo, exibir as suas referências e devoções, ostentar orgulhosa o seu Frankenstein do horror camp, de Halloween a Scream, de Twin Peaks a Psicose, todas enfileiradas para proclamar o quanto eram misóginas e transfóbicas, e o quanto carregavam políticas de identidade ultrapassadas. E talvez ainda mais importante: o quanto Schoenbrun chegou aqui para os redimir a todos.