“Banzo ” dominou a 15.ª edição dos Prémios Sophia, realizada na sexta-feira (15), no Centro Cultural de Belém. A longa-metragem de Margarida Cardoso arrecadou dez distinções na principal cerimónia do cinema português, entre elas Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento Original.
Além dos principais galardões, o filme venceu em várias categorias técnicas e garantiu ainda o Sophia de Melhor Atriz Secundária para Cirila Bossuet, numa estreia absoluta no cinema. No ano passado, “Banzo” foi também escolhido para representar Portugal na categoria de Melhor Filme Internacional da 98.ª edição dos Academy Awards, realizada este ano.
Produzido pela Uma Pedra no Sapato, “Banzo” parte de uma narrativa situada em África, no início do século XX, para revisitar as marcas do colonialismo português. O filme acompanha um médico enviado para uma plantação tropical onde dezenas de trabalhadores escravizados sucumbem ao chamado “banzo”, uma profunda melancolia associada ao desenraizamento e à violência da escravatura.
Ao longo da noite, Margarida Cardoso sublinhou repetidamente a necessidade de recuperar histórias esquecidas e silenciadas. A realizadora acabou também por subir várias vezes ao palco para receber prémios em nome de membros da equipa ausentes da cerimónia.
Apresentada por Inês Lopes Gonçalves sob o tema “Projectar o presente, imaginar o futuro”, a cerimónia decorreu a ritmo seguro e evidenciou um ano particularmente forte para o cinema português.
Outros vencedores
Entre os outros vencedores da noite, “As Meninas Exemplares”, de João Botelho, conquistou os prémios de Melhor Figurino e Melhor Maquilhagem, Caracterização e Cabelos.
Longe de se limitar a adaptar a obra da Condessa de Ségur, o filme transforma o universo da autora num território simultaneamente afectuoso e cruel, marcado pela repressão, pela culpa e pela disciplina imposta às crianças. Recuperando figuras como Sofia, Camila e Madalena, Botelho expõe o lado sombrio escondido por detrás da aparente inocência burguesa, num objecto profundamente teatral, melancólico e atravessado por humor e estranheza.
Na categoria de interpretação masculina, José Martins conquistou o Sophia de Melhor Ator pela interpretação em “A Memória do Cheiro das Coisas”, de António Ferreira.
O filme acompanha Arménio, um antigo combatente da Guerra Colonial Portuguesa, já octogenário, obrigado a viver num lar de idosos, onde desenvolve uma inesperada relação de proximidade com Hermínia, uma cuidadora negra. Entre a fragilidade da velhice e os fantasmas de um passado traumático, a obra reflecte sobre memória, culpa e possibilidade de reconciliação.
Na categoria de ator secundário, o prémio foi atribuído a Nuno Lopes pelo desempenho em “Lavagante”, obra que venceu também o Sophia de Melhor Argumento Adaptado, assinado por António-Pedro Vasconcelos e pelo realizador Mário Barroso.
O filme mergulha numa história de amor, enganos e desencanto em pleno período da ditadura salazarista, atravessado pela censura, pela repressão da polícia política e pela agitação estudantil do início da década de 1960.
Joana Santos confirmou o favoritismo e conquistou o Sophia de Melhor Atriz pelo desempenho em “On Falling”, longa-metragem de Laura Carreira ambientada na Escócia e centrada em Aurora, uma imigrante portuguesa presa a uma rotina marcada pela precariedade laboral e pelo isolamento social, num percurso que conduz a personagem a um profundo colapso emocional. O filme afirmou-se ainda como uma das produções portuguesas com maior circulação internacional no último ano.
Nos documentários, o destaque foi para “A Mulher Que Morreu de Pé”, de Rosa Coutinho Cabral e António Cabral, uma obra que ultrapassa o registo biográfico convencional para construir um objecto híbrido entre o cinema, o teatro e a evocação poética.
Ambientado em espaços outrora habitados por Natália Correia, o filme acompanha actores que deambulam entre a representação e a memória, escavando mitos, fantasmas e feridas ligados à vida e à obra de uma das figuras mais marcantes da cultura, literatura e política portuguesa antes e depois do Revolução dos Cravos.
A noite ficou também marcada pela estreia da categoria de Melhor Filme de Comédia, atribuída a “Sonhar com Leões”, realizado e escrito por Paolo Marinou-Blanco.
A tragicomédia acompanha Gilda, interpretada por Denise Fraga, uma imigrante brasileira a viver em Lisboa que, após receber um diagnóstico terminal de cancro, decide procurar uma forma de morrer com dignidade, antes que a doença lhe retire a autonomia. Depois de várias tentativas de suicídio fracassadas, a personagem aproxima-se de uma organização clandestina que promete ajudar doentes terminais a pôr fim à vida sem sofrimento num contexto em que a eutanásia permanece ilegal.
Aquando da divulgação do filme, Marinou-Blanco descreveu a obra como “uma tragicomédia que nasce de duas perguntas muito simples: quais são as condições que cada um de nós considera necessárias para viver bem? Viver é uma obrigação ou uma escolha?”. O realizador revelou ainda que o projecto foi inspirado pela experiência pessoal de acompanhar a morte do pai, um processo “longo e doloroso”, mas vivido com “força” e sentido de humor.
Entre o deserto e a clandestinidade
Fora de Portugal, o prémio de Melhor Filme Europeu foi atribuído a “Sirāt”, de Oliver Laxe, produção espanhola também escolhida para representar o país na categoria de Melhor Filme Internacional nos Óscares do ano.
O drama acompanha um pai e um filho, interpretados por Sergi López e Bruno Núñez, respectivamente, numa travessia pelo deserto marroquino em busca da filha e irmã desaparecida. Acompanhados pela cadela Pipa e por um grupo de frequentadores de raves, entram numa deriva progressiva que transforma a viagem numa experiência limite, entre o real e o alucinatório, num cinema que procura o transcendental através da experiência física e sensorial.
Na categoria ibero-americana, o destaque foi para o Brasil com o filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Recentemente, a obra destacou-se ao vencer em várias categorias dos Prémios Platino, com oito distinções.
Situado no Recife de 1977, o thriller político acompanha Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um homem que tenta apagar o próprio passado num país sob vigilância constante da ditadura militar. A obra foi amplamente elogiada pela forma como cruza o suspense de matriz noir com uma leitura política incisiva, sustentada por uma reconstrução histórica minuciosa.
Tanto “Sirāt” como “O Agente Secreto” foram representantes dos respectivos países na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional, acabando por perder a estatueta para o filme norueguês “Valor Sentimental”, de Joachim Trier.
Rui Mendes
O Sophia de Carreira atribuído a Rui Mendes marcou um dos pontos altos da cerimónia. Nascido em Coimbra, a 19 de Julho de 1937, e neto do actor Henrique de Albuquerque, Rui Mendes construiu uma das trajectórias mais consistentes do teatro, cinema e televisão portugueses ao longo de mais de seis décadas.
Depois de estudar no Liceu Camões e frequentar o curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes de Lisboa, iniciou o percurso artístico em meados da década de 1950, primeiro como cenógrafo e pouco depois como actor no Teatro da Trindade. Viria mais tarde a integrar o histórico Grupo 4 ao lado de Irene Cruz, João Lourenço e Morais e Castro, afirmando-se também como encenador a partir de 1968.
Ao longo da carreira, trabalhou em estruturas como o Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Villaret, Cornucópia e Malaposta, encenando e interpretando autores como Shakespeare, Molière, Garrett, Tchekov e Bertolt Brecht. Foi ainda professor no Conservatório Nacional e na Escola Superior de Teatro e Cinema, conciliando a actividade pedagógica com o trabalho em palco e na televisão.
A par da actividade artística, teve também uma intervenção activa na defesa dos direitos dos profissionais do espectáculo. Durante oito anos presidiu à Assembleia-Geral do Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculo, foi fundador e primeiro presidente da direcção da C.A.D.A. e assumiu mais tarde a presidência da Assembleia-Geral da G.D.A. – Gestão dos Direitos dos Artistas.
Em 1971, recusou publicamente prémios atribuídos pelo regime como forma de protesto contra a censura e a ausência de apoio ao teatro, chegando mesmo a ser impedido de trabalhar na Emissora Nacional durante os últimos anos da ditadura.
Além do percurso em palco, Mendes manteve presença regular na televisão portuguesa ao longo de várias décadas, sobretudo em séries, telefilmes e telenovelas, consolidando-se como uma das figuras mais populares e reconhecidas da representação em Portugal.
No discurso de agradecimento, o actor e encenador recordou a longa ligação ao teatro, cinema e televisão, deixando também um apelo em defesa da cultura: “Um país que não apoia o seu cinema, o seu teatro, a sua cultura deixa de ser um país”.

A encerrar a noite, Carla Chambel, que assumiu recentemente a direcção da Academia Portuguesa de Cinema, sublinhou o reconhecimento internacional vivido pelo cinema nacional, mas defendeu uma ligação mais próxima entre o público português e os filmes produzidos no país.
Vencedores da 15.ª edição dos Prémios Sophia:
Melhor Filme
Banzo
Melhor Realização
Margarida Cardoso — Banzo
Melhor Filme de Comédia
Sonhar com Leões, de Paolo Marinou-Blanco
Melhor Actor Protagonista
José Martins — A Memória do Cheiro das Coisas
Melhor Actriz Protagonista
Joana Santos — On Falling
Melhor Actor Secundário
Nuno Lopes — Lavagante
Melhor Actriz Secundária
Cirila Bossuet — Banzo
Melhor Documentário em Longa-Metragem
A Mulher Que Morreu de Pé, de Rosa Coutinho Cabral e António Cabral
Melhor Série/Telefilme
Casa-Abrigo, de Márcio Laranjeira
Melhor Argumento Original
Banzo
Melhor Argumento Adaptado
Lavagante
Melhor Direcção de Fotografia
Banzo
Melhor Som
Banzo
Melhor Montagem
Banzo
Melhor Direcção de Arte
Banzo
Melhor Figurino
As Meninas Exemplares
Melhores Efeitos Especiais
Banzo
Melhor Maquilhagem, Caracterização e Cabelos
As Meninas Exemplares
Melhor Banda Sonora Original
Banzo
Melhor Canção Original
“Tempo”, do filme O Ancoradouro do Tempo
Melhor Curta-Metragem de Ficção
Tapete Voador, de Justin Amorim
Melhor Curta-Metragem de Documentário
Estava Escuro na Barriga do Lobo, de Joana Botelho
Melhor Curta-Metragem de Animação
Cão Sozinho, de Marta Reis Andrade
Melhor Filme Europeu (anunciado a 23 de Abril)
Sirāt (Espanha), de Oliver Laxe
Melhor Filme Ibero-Americano (anunciado a 23 de Abril)
O Agente Secreto (Brasil), de Kleber Mendonça Filho
Melhor Cartaz (anunciado a 23 de Abril)
Longe da Estrada — design de Catarina Sampaio
Melhor Trailer (anunciado a 23 de Abril)
Coro
Melhor Arte e Técnica (anunciado a 23 de Abril)
Cinema Medeia Nimas, pelo trabalho desenvolvido na promoção do cinema independente e nacional e pela fidelização de públicos
Prémio Sophia Carreira
Rui Mendes

