«A Brixton Tale» – A verdade somos nós que a fabricamos … com restrições

O tempo é relativo, assim como a verdade parece o ser também, variando consoante a sua perspetiva ou de quem o narra. Atualmente, em clima onde o pós-verdade assume um peso cada vez maior, tais hipóteses soam redundantes e direcionadas a um perigoso território de revisionismo confortável. Quem o escreve defende o direito de questionar a verdade, ou lá como o devemos apelidar, sem nunca, com isto, vergar pela arrogância / ignorância que a influência da pós-verdade parece acarretar (no nosso dia-a-dia, em tempos incertos de pandemia e confinamento, “organizações” negacionistas tem-se apoderado da palavra “verdade” como um canta-vento maleável).

Porém, a verdade que vos quero trazer, é a “verdade” vendida por “A Brixton Tale”, a primeira longa-metragem de Darragh Carey e Bertrand Desrochers, explicita na sua tagline – “Não existe tal ‘coisa’ como histórias verdadeiras” – onde somos remetidos a uma youtuber, Leah (Lily Newmark), pronta a apostar num projeto documental, tendo como “alvo” o jovem Benji (Ola Orebiyi). Ora bem, antes de avançarmos, há que referir a diferença destes dois jovens, um claramente evidente que é a sua cor de pele, o que nos transporta para a segunda (de certa forma diretamente ligada com a primeira) que é a classe em que cada um se insere.

“A Brixton Tale” é, como o leitor já deve ter entendido, uma obra sobre o privilégio, e como este opera / constrói um senso de realidade / verdade com a nossa sociedade. Além do mais, o trabalho da personagem de Leah, em requisitar a vida de Benji como objeto de estudo do seu documentário, é todo ele um processo de transformação dessas mesmas, e referidas, dicotomias. Se por um lado, num primeiro mergulho, o filme flutua nos conceitos em voga no nosso cinema atual, consciente e de alguma forma reparador, já num “segundo mergulho” consegue encaixar-se numa crítica ao universo do documentário, daquele que se apronta a auto-proclamara de cinema-véritè (cinema-verdade) ou simplesmente, no absolutismo das suas palavras (quem nunca discutiu a veracidade de um adaptação com alguém crédulo com a legenda “inspired by a true story”).

Será que poderemos acreditar naqueles que se encostam nas palavras “verdades” ou “factos verídicos”? “A Brixton Tale”, drama “certinho” e jovial, em certa parte liceal, não nos disfere com tais respostas a estas inquietantes dúvidas, aliás, até desconfiamos que os envolvimentos aqui angariados tenham servido com esse propósito. Todavia, é no toque, e a fantasia de que este nos poderia levar, o qual tornam mais interessante esta obra do que na verdade é.

«A Brixton Tale» – A verdade somos nós que a fabricamos … com restrições
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