Marco Martins formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa em 1994, e de seguida realiza duas curtas metragens de seu nome “Mergulho no Ano novo” e “No caminho para a escola”, recebendo ambas prémios nos festivais de Vila de Conde e Ourense, respectivamente. A partir daí dedicou-se mais á realização de anúncios publicitários, e em 2002 funda a sua própria produtora, Ministério dos Filmes, dedicada á realização de publicidade para televisão. Em 2005 realiza a sua primeira longa metragem “Alice”, estreada no festival de Cannes e escolha oficial portuguesa para os Óscares e em 2009 realiza o seu segundo filme, “Como desenhar um Circulo Perfeito” dando assim continuidade a um inicio de carreira bastante positivo a nível de aceitação tanto do publico como da critica.

 

É de admirar que não tenha surgido um filme com esta temática mais cedo em Portugal; casos como o de Rui Pedro, criança desaparecida em 1998 abalaram o pais e criaram grandes ondas de solidariedade de norte a sul, mas é no entanto em 2005 que Marco Martins apresenta ao mundo “Alice”, um filme sobre a perda de uma filha e a perda e desorientação que esta tragédia traz consigo. O drama do pai obsessivo em busca da sua filha desaparecida de casa e o declínio de uma mãe na apatia da depressão foi uma temática bastante forte e que arrebatou de facto publico e critica praticamente por todo o lado em que o filme foi exibido. Prémio Regards Jeunes para melhor filme no festival de Cannes, prémios de melhor realização, melhor fotografia e melhor filme no festival internacional Mar de Plata na Argentina, nomeação para o prémio de Artista Revelação a Marco Martins nos European Film Awards… isto só para nomear alguns.

 

Mas colocando a qualidade do filme, os prémios recebidos e a sua narrativa á parte, o que marca mesmo neste filme é a sua expressão estética e a forma estilizada como Marco Martins usa as cores para definir todo o universo do seu filme.

 

Não é muito habitual ver no cinema Português um filme com uma direcção de fotografia tão marcante como a que vemos neste “Alice” e isso deve-se sobretudo aos anos que o seu realizador passou detrás da câmara em anúncios publicitários, onde a qualidade plástica da imagem é o mais importante a ter em conta e o factor mais trabalhado pelos profissionais da área. É certo que já muitos realizadores portugueses mostraram um enorme cuidado com os seus enquadramentos, posso facilmente nomear João César Monteiro ou Manoel de Oliveira como duas figuras do cinema mundial que mais cuidam da imagem que passam no grande ecrã; mas essa imagem, esse cuidado no enquadramento não tem tanto a ver com a qualidade cromática mas sim com o conteúdo e organização do enquadramento e toda a informação narrativa e simbólica que os objectos nele presentes possam transmitir ao espectador atento de um tipo de cinema mais artístico. Marco Martins trata a imagem de forma diferente. Com ele é sim a qualidade da expressão cromática que conta. Isto é talvez uma prova da mudança de mentalidade nos novos cineastas onde existe mais cuidado com a parte técnica, enquanto se tenta não desfavorecer muito a parte de autor do filme.

 

Mais provas desta diferença de qualidade cromática está na comparação por exemplo do “Alice” com outro mesmo filme passado nas ruas de Lisboa: “Lisbon Story” de Wim Wenders (realizador aliás com quem Marco Martins trabalhou). Ambos os filmes mostram Lisboa, sendo que se passam maioritariamente no exterior. ambos os filmes mostram a procura por um personagem ausente (embora admita que não se pode comparar a busca por um colega de trabalho com a busca por uma filha) mas enquanto o filme de Wenders, mesmo passado em bairros mais degradados e antigos nos dá a grande sensação de estar a ver um postal vivo da cidade de Lisboa, o filme do (na altura) estreante realizador português é tudo menos um postal. O clima á frio e chuvoso, as ruas são escuras mesmo que caminhando nelas em pleno dia, as personagens bem como a figuração vestem roupas bastante próximas aos tons negro e cinzento; “Alice” é na sua essência um filme que nos fecha num ambiente cavernoso de desolação praticamente só com a sua imagem, vivendo mesmo dela durante as suas quase duas horas de duração. Poucos filmes portugueses, principalmente os filmes dos realizadores de uma geração mais velha tem o mesmo cuidado que realizadores como Marco Martins começam a mostrar, cuidados cinematográficos que indicam que apesar de não ser a melhor forma de expressão artística, o cinema publicitário pode ter muito a ensinar a quem queira enveredar por esta área e torna-la melhor, mais agradável para o publico, e nesse aspecto esta nova vaga de realizadores na qual Martins se insere leva uma boa vantagem.

 

Artigo escrito por Eduardo Magueta e Tiago Resende