A lenta evolução do Cinema Português (Parte 5)

“Mistérios de Lisboa” é um caso único do cinema português. Atravessou oceanos e continentes e foi aclamado em muitos países, pela crítica e pelo público. “Mistérios de Lisboa” é um dos filmes mais ambiciosos do cinema português, com um orçamento de 2,5 milhões de euros. Vários prémios foram atribuídos a este extraordinário filme, como o Prémio Louis-Delluc (2010) – Melhor Filme Francês do ano, Concha de Prata – Melhor Realizador (2010) no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, Prémio da Crítica (2010) na Mostra de São Paulo e passou por festivais importantes, como, Torino Film Festival, London Film Festival, Viennale, The New York Film Festival e Toronto. “Mistérios de Lisboa” foi produzido por Paulo Branco, com uma co-produção da Clap Filmes e da RTP.

 

O realizador desta grandiosa obra é Raúl Ruiz, um conceituado cineasta chileno que possui uma obra cinematográfica muita extensa e complexa, com mais de cem filmes. Nascido no Chile, em 1941, Ruiz trabalhou em diversos formatos (35mm, 16mm e vídeo), tendo alternado entre o documentário e a ficção, a curta e a longa-metragem, o cinema e as séries televisivas. Ruiz é um cineasta conhecido por escolher temas complexos, com narrativas de difícil compreensão, recusando a estrutura clássica narrativa, ou seja, não existe primeiro, segundo e terceiro actos. Depois do golpe militar no Chile de 11 de Setembro de1973, Raoul exilou-se em França, em 1974, onde continuou a fazer filmes. A ligação a Portugal começou nos anos oitenta, com “O Território” (1981) produzido por Paulo Branco. Utilizou cenários portugueses para “Treasure Island” (1985), uma adaptação de Stevenson. Realizou ainda, “A Cidade dos Piratas”(1983) e “Três Vidas e uma Só Morte” (1996), entre outros, em Portugal.

 

Baseado na obra de Camilo Castelo Branco, “Mistérios de Lisboa” mergulha-nos num turbilhão imparável de aventuras e desventuras, coincidências e revelações, sentimentos e paixões violentos, vinganças, amores desgraçados e ilegítimos, numa agitada viagem por Portugal, França, Itália e Brasil. Nesta Lisboa de intrigas e identidades ocultas, encontramos uma série de figuras que dominam o destino de Pedro da Silva, órfão, num colégio interno, e que atravessam a história do séc. XIX: o padre Dinis que, de aristocrata e libertino, se converte em justiceiro; uma condessa, roída pelo ciúme e sedenta de vingança e um pirata sanguinário, tornado próspero homem de negócios. Neste contexto de duelos, assassinatos, guerras, emboscadas e traições percorremos vários espaços (Portugal, França, Itália e Brasil). “Mistérios de Lisboa” é, assim, um romance histórico com características do ultra-romantismo, com cerca de seiscentas páginas que foi adaptado por Carlos Saboga, para um argumento de quatro horas e vinte e seis minutos. A obra de Castelo Branco já foi várias vezes adaptada ao cinema, e sempre bem conseguida, porque não é fácil adaptar este romântico português.Manoel de Oliveira adaptou um dos livros mais importantes do escritor, “Amor de Perdição” (1862), para o cinema, com o mesmo título, em 1979.

 

Assistimos assim, a um filme português realizado por um estrangeiro, algo que já não é muito comum. Em 2009 aconteceu o mesmo com o filme “Star Crossed” (2009) de Mark Heller. Coloca-se então a questão, “Voltamos ao cinema português feito por estrangeiros?”. O cinema português feito por estrangeiros surge no tempo da Invicta Film, que nasceu no Porto em 1918, um moderno estúdio de cinema ao nível dos melhores da Europa. Os estúdios mantiveram-se em actividade durante uma década, recorrendo a técnicos e a realizadores franceses e italianos (comoRino Luppo e Georges Pallu) que produziram dezenas de filmes também distribuídos para outros países. Foi um período áureo para o cinema português, apesar de grande parte da produção nacional ser feita por estrangeiros, isto estimula a indústria cinematográfica no país. E cria oportunidades de trabalho a muitos técnicos e actores que pretendem trabalhar na área. Depois nos anos 30 e 40 o cinema português apostou num maior proteccionismo do cinema. No entanto, depois do 25 de Abril continuou haver casos destes, por exemplo os filmes “Lisbon Story” (1994) e “Der Stand der Dinge” (1982) realizados por Wim Wenders.

 

Assim, “Mistérios de Lisboa” é apenas mais um filme português feito por um estrangeiro, apesar de ser único pela qualidade artística e técnica que eleva o filme a uma obra prima do cinema português. Ruiz, nesta obra, eleva o cinema ao seu máximo. E é surpreendente que uma mega-produção deste género, um filme de época, com um enorme rigor técnico, com quase cinco horas de duração tenha conseguido atingir o sucesso que tem hoje e que continua a conquistar.

 

Artigo escrito por Eduardo Magueta e Tiago Resende