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Cerimônia Abertura Do DocLisboa ratifica a urgência do cinema

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Num Zeitgeist de vertiginosa ascensão do formato Streaming e inflacionário número de séries da Netflix, a capital lisboeta mostra que tem lugar para acolher o mundo das artes. E se esse acolhimento for num dos melhores lugares do mundo em forma de uma sala de cinema como a do Centro Cultural Culturgest, a retina terá um banquete.

Abraços, beijinhos, sorrisos eletrizavam os presentes em suas confraternizações. O mergulho profundo no evento de abertura, assim como nos dois filmes exibidos, foi facilitado pelas poltronas, estas numa dobradinha suspeita entre confortável ueber e rebaixadas. Entretanto, a noite seguiu em andamento. Logo bem no início, foram chamados ao palco dois representantes do Film Commission de Portugal. Um deles discursando em língua portuguesa, o realizador JP Rodrigues ,internacionalmente aclamado e inúmeras vezes premiado (“O Ornitólogo”/Leopardo de Ouro em Veneza/2016), subiu ao palco e fez um protesto sobre a política de fomento do cinema alinhavada pelo Primeiro Ministro.

 

Em discurso que durou, aproximadamente 15 Minutos e que depois foi traduzido para o inglês por sua colega, também no palco, o realizador declarou que as medidas a serem implementadas pelo novo governo contrariam “os princípios da Lei do Cinema em 2012” e esclarece:”O que o governo agora propõe e que o resultado deste aumento sirva para financiar a RTP. Por isso, vim los alertar para uma medida que não e “só” de qualidade duvidosa, mas coloca mais em perigo a sustentabilidade do ICA e do cinema português”.

Depois do apelo de JP Rodrigues, a cerimônia de abertura, mediada pelos três programadores (Joana Gusmão, Joana de Sousa e Miguel Ribeiro), continuou em ritmo de improviso e encantava a plateia com o Understatement dos moderadores. “Vou ler porque estou nervosa”, disse Joana. Miguel pediu “paciência” para os portugueses por ter que traduzir as frases para o inglês. Depois de alongar elogios (muitos merecidos) à equipe de organização, Miguel, para despachar, simplificou: “Para os que falam inglês, a equipe do DocLisboa “is Great”, angariando risadas da platéia.

Além do Horizonte

O ex-diretor da Berlinale, Dieter Kosslick deixou várias frases marcantes e também algumas verdades, algumas delas, deveras sábias.:”O cinema nos mostra o que acontece no mundo”. Seguindo rigorosamente essa premissa, o DocLisboa 21, com inspirada e ousada programação, vai na ferida aberta, bate na porta, quer saber, instiga a discussão controversa, a troca.

Cinema estrangulado

Quando em Novembro de 2018 eu fui membro do júri de imprensa  CISION do Festival “Caminhos” na cidade universitária de  Coimbra. Na cerimônia de entrega de premiações, eu fiz um apelo a Realizadores e Programadores presentes no auditório para não deixar de olhar para o cinema brasileiro, mantê-lo nas programações!”. Bolsonaro acabava de ser eleito, mas ainda não havia tomado posse. A realidade que se cristalizou no Brasil é tão surreal, que nem mesmo um cacife de David Cronenberg poderia fazer um roteiro que chegasse perto do país sequestrado, tendo sua identidade apagada.

Diretor do primeiro filme da noite (21), Sergio Silva foi chamado ao palco, mas não sem os programadores antes, louvarem sua presença física na cidade. Em discurso de quase 9 minutos, ele contou como se apaixonou pelo cinema e como se “encontrou” quando começou a atuar como programador da Cinemateca em SP. Sobre o momento politico do Brasil, Sergio culpa diretamente o Estado Brasileiro pelo incêndio devastador na Cinemateca em julho passado. ‘Foi totalmente criminoso (…) e acrescenta: “Espero que não aconteça nada (comigo), por dizer isso, aqui”. (…) Os filmes guardados nas estantes, não dizem nada. (…) “Os filmes precisam ser livres”.

 

Sobre seu filme “A Terra segue azul quando eu saio do Trabalho”, com atores atuando com a voz em Off e muitas cenas contemplativas, ele diz:” Quando eu concebi esse filme, eu não tinha pensado nele como um Manifesto ou coisa do tipo, mas foi muito uma necessidade de reflexão sobre tudo que tinha me acontecido lá. (…) Perseguição, intimidação e um assédio moral constante”.

O segundo filme da noite de abertura que também fala de resistência, foi uma escolha ousada do Festival exibi-lo em noite que marcaria encontros e a necessidade de festejar: encontros de amigos, colegas num raro cenário de pessoas de carne e osso e não na telinha. Mas o cinema como arte e plataforma de subjetividade tem pressa e assim foi. “Landscapes of Resistence” e que integrou a Seleção do programa do Festival de Filmes Documentários de Rotterdam, tem roteiro extremamente filigrano e também ousado na forma de contar a história, não respeitando as Frames da cronologia. Sonja conta a sua história: uma mulher sobrevivente do Campo de Concentração de Auschwitz, iniciando quando ela conheceu um colega da escola que não tinha dinheiro para comprar os livros e, certa hora, descobriu que ele era militante político. As metáforas com fotos da natureza, primeiramente genuínas vai se deteriorando aos poucos, geram desconforto na paralelidade e narrativa e engrenam numa cadência entre complemento e dicotomia. A protagonista se lembra de cada mínimo detalhe, trafega por várias emoções reveladas através de seu volume de voz ou mesmo em seu semblante,  no seu olhar. Já a natureza não consegue resistir e quando o faz, toma formas irreconhecíveis numa cinematografia contemplativa e de grande maestria e sensibilidade. O filme peca, entretanto, pela duração exagerada e pela “obrigatoriedade” de deixar uma mensagem politicamente correta para os espectadores.

Que venham as fitas!

Existem vários motivos para conferir as diversas mostras da décima nona edição do DocLisboa com duas perspectivas, talvez esse o único erro visível ate agora: seria mais estratégico focar numa personalidade ao invés de desmembrar visibilidade.

As homenageados da Mostra Retrospectiva são a diretora alemã Ulrike Ottinger, (Doris Graz im Spiegel der Boulevardpresse (1984) presente no auditório do Centro Cultural Culturgest na noite de abertura e a diretora Cecilia Mangini (Esser Donne 1965, Tommaso 1965, La Briglia sul Collo, 1974, Divino Amore ,1961 ou La Passione Del Grano,1963.

Até o dia 31 haverá discussões, painéis e o cinema transitando por outras artes como a música, fotografia e dança. Depois de tempos escassos, a visceralidade e o ritual do encontro se realiza na cidade mais badalada do Velho Continente. Serão muitas histórias pra contar, discutir, analisar, emocionar, rir e chorar. Quem vai dizer que uma sala de cinema não é melhor lugar do mundo?

Para não se perder num labirinto de 249 filmes e tantas locações diferentes espalhadas pela cidade, o catálogo pode ser uma valiosa ajuda. O folhear do mesmo e o aroma de cheiro de papel recém impresso é um deleite sensorial à parte. No dia 23/10 o Festival olha para o cinema brasileiro, mas precisamente da Cinemateca, destruída por um incêndio criminoso. Há três anos, os Festivais de Cinema Português não largaram as mãos de seus e suas colegas brasileiros. Como disse o diretor e ex-programador Sergio Silva: “O Cinema Brasileiro precisa de um futuro.”

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