Arqueologia do Cinema Brasileiro (Parte 3) – Em busca de um cinema industrial

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Outro ciclo regional sobre o qual eu gostaria de comentar, e que pode ser considerado o último ciclo regional do cinema brasileiro, se deu em Cataguases, Minas Gerais, onde viveu Humberto Mauro, nascido no seio de uma família relativamente bem estabelecida. Sua mãe era uma musicista virtuosa e o jovem Mauro almejava uma carreira na engenharia. No entanto, seduzido pela fotografia, logo estava dando os primeiros passos com uma câmera cinematográfica. Com o mesmo empirismo que fez José Medina compreender a gramática emotiva do cinema de entretenimento, Mauro realizou alguns dos mais belos filmes de sua época, como Tesouro perdido (1927), Brasa dormida (1928) e Sangue Mineiro (1929). Descoberto por Adhemar Gonzaga, empresário do ramo cinematográfico, no início dos anos 1930, Humberto Mauro foi convidado a ir ao Rio de Janeiro para filmar na Cinédia, primeiro grande estúdio brasileiro, de propriedade de Gonzaga, que não poupou seus investimentos, trazendo ao país os melhores equipamentos disponíveis no exterior.

Na Cinédia, Mauro realizou vários clássicos como Ganga Bruta (1933) e O descobrimento do Brasil (1936), uma superprodução de época, que levaria o diretor a assumir um importante papel no cinema de propaganda do Estado Novo. Por seu olhar plástico e seu tino para criar belos enquadramentos e tramas densas e sofisticadas, Humberto Mauro passou à História como aquele que transformou o cinema brasileiro numa arte séria e com valores estéticos admiráveis. Não à toa, foi considerado o pai espiritual dos jovens que integrariam o Cinema Novo, décadas depois.

 

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A ida de Humberto Mauro ao Rio de Janeiro, para trabalhar com Gonzaga marcou o fim dos ciclos regionais. Nos anos 1930, a Cinédia se tornaria o principal polo catalizador de talentos e produtor de filmes populares, recheados de músicas cantadas pelos astros do rádio. O estúdio era versátil e também entregava dramas, documentários e comédias de costumes. A partir daquele momento, o sistema consistente de produção e distribuição constituído por Adhemar Gonzaga tornaria o cinema brasileiro mais profissional e estável. Os filmes cariocas passaram a circular em larga escala e o cinema nacional viu nascer outros estúdios importantes na bela capital fluminense, como a Brasil Vita Filmes, de Carmen Santos, e a Atlântida Cinematográfica, de Moacyr Fenelon e José Carlos Burle. Novos tempos se avizinhavam e as chanchadas carnavalescas apresentariam ao público pagante do país todo um cinema profissionalizado e comprometido com uma filosofia minimamente sustentável.

Verdade que sabemos que as chanchadas também saíram de moda. Em São Paulo, no mesmo período, a Vera Cruz propunha um projeto megalomaníaco que também ruiu.

A dicotomia entre os filmes musicais cariocas e os dramas empolados de São Paulo nos renderá, na próxima parte deste ensaio, um bom panorama a respeito das diferenças que seriam responsáveis por grande instabilidade na classe cinematográfica brasileira.

 

(Continua)

 

Este introito é um fragmento de ensaio publicado no livro Cinefilia Crônica: comentários sobre o filme de invenção (2019), de Donny Correia, em sua segunda edição, revista e ampliada. O autor valeu-se de tal ensaio para esboçar esta Arqueologia do Cinema Brasileiro, que em breve terá sua edição própria. 

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