Estreado esta quinta-feira (26 de setembro), pelas mãos da Cinetoscópio, “Arrabalde”, a primeira longa-metragem de Frederico Serpa, jovem realizador que juntou várias caras conhecidas num projeto arriscado sobre os subúrbios da cidade de Lisboa. Nomes como Manuel João Vieira, Luís Miguel Cintra, Pedro Lacerda e Manuela Couto fazem parte do elenco.
Auto-intitulado como um filme deliberadamente imperfeito, Arrabalde é uma obra verdadeiramente fragmentada, mas que alicerça várias preocupações e as aflições de várias gerações. Das ruas da Amadora ao Teatro São Luiz, Arrabalde é um projeto bastante místico, mas ao mesmo tempo cru; é claramente um marco de posição de um jovem realizador que quer passar ao mundo as suas dores e as de uma geração.
É um objeto verdadeiramente original; não há imagens que possam ser comparadas a este filme. Não é um filme tipicamente português, não tem esse selo, tem as suas influências, mas é um filme irreverente, que tenta existir por si próprio e consegue.
Frederico Serpa aprendeu a fazer filmes ou, nas suas palavras, considera que ainda não. O que é facto é que, mesmo não sabendo, conseguiu fazer um filme e torná-lo numa boa obra sobre existencialismo.
Entrevista a Frederico Serpa
Estudaste Teatro na Escola Superior de Teatro e Cinema da Amadora. Que influência é que isso teve para fazeres um filme em que grande parte se concentra neste subúrbio de Lisboa? Sendo tu ator de teatro, como é que surge a vontade de realizares ou produzires um filme?
Passear o seu pensamento pelo teatro é um privilégio. Quando eu estava na ESTC, ia muito ao teatro e via muitas peças. Os professores na escola costumavam dizer que cada um fazia a sua própria escola, e eu acho que me eduquei bem no meio daquele caos que é o departamento de teatro da ESTC. A verdade é que o meu gesto de querer ser ator é anterior ao de querer ser realizador. Eu quis ser ator e, depois, para poder representar, decidi fazer filmes.
Há todo o tipo de teatro, companhias mais modernas e pós-modernas, e outras mais arcaicas e canónicas. Eu, como espectador, gosto de navegar nas diferentes formas de fazer teatro e acho que se isso se sente no filme.
Neste filme, és também ator e protagonista. Acabas por interpretar as dores de um jovem adolescente. Que relação biográfica tens ou não com estas personagens e este texto?
Na cena do Pingo Doce, onde eu e o Martim defrontamos a minha avó e a Márcia, aquilo sou eu a meter-me com raparigas, a meter-me com as pessoas, a absorver o espaço das pessoas, a ser quase vampírico. Na faculdade sou uma personagem; aquele estudante que não quer ir à faculdade, mas vai porque não tem mais nenhum sítio para ir e torna-se uma pessoa altamente combativa. E as cenas do diálogo entre amigos, que é uma parte substancial do filme, podem parecer uma cena mais próxima de mim, mas eu ali estou a representar uma ideia jovial de mim. Na verdade, estou a representar uma ideia do que as pessoas pensam enquanto são jovens.
Confessaste, na ante-estreia, que este foi um projeto longo que demorou 8 anos. Vimos inclusive vários Fredericos; é notória essa passagem de tempo. Porque demorou tanto? Que contratempos tiveste?
Não houve ninguém que me tivesse dado autoridade para fazer um filme. Fazer um filme é uma coisa muito complicada, dispendiosa e complexa. As ideias foram-se formando na minha cabeça. O filme demorou muito tempo a fazer porque foi tripartido. Foi feito primeiro a volta de mota, depois em ARRI e depois em película, e cada uma era o arranque para a outra. A dificuldade foi subindo e a pureza, por consequência, também. A volta de mota, enquanto é poética, também é suja. A parte digital é uma citação sobre o cinema atual. E a parte em película remete à minha descoberta do cinema e ao que é fazer cinema.
Sempre foi notório para ti fazeres este filme com diversidade de formatos? Como é que isso é importante para a narrativa do filme, na tua perspetiva?
Assim como no teatro, onde existem vários formatos, no cinema também há várias formas de expressão. Essa conjugação e essa panóplia de formatos é, mais uma vez, uma vontade, uma tentativa de criar um objeto que não esteja isolado e circunscrito à própria ideia.
Em relação ao texto, principalmente sobre a conversa entre os dois amigos na clareira, existe efetivamente alguma naturalidade, mas também uma certa peculiaridade no diálogo. Existiu uma escrita pensada ou foi improvisada?
A cena do diálogo foi escrita a partir de três improvisações: uma sobre mulheres, outra sobre a sociedade de consumo e uma sobre religião. Com essas três improvisações, cortei, colei e escrevi efetivamente um guião. Mas o guião, como a palavra diz, é um guia, não foi uma imposição. Eu sinto que continuo a ser um leigo no cinema; eu quis fazer o filme a partir do lugar de uma pessoa que não sabe fazer um filme e que aprende a fazê-lo a partir do lugar de uma pessoa que está a fazer um filme. Mas acho que ainda não aprendi.
Quem são estes amigos?
Estes dois rapazes são pessoas que têm alguma coisa para dizer, mas ainda não conseguem fazê-lo. São dois jovens não artistas que querem ser artistas, mas ainda são um pouco boémios porque a arte dá trabalho. E, quando somos jovens, damos mais prioridade à diversão.
E o que podes dizer a uma pessoa que não sabe absolutamente nada sobre o filme?
Tive uma ideia e quis fazê-la, e fi-la!
“Arrabalde” é um filme que sobrevive à conjugação destas várias vidas, destes amigos e das suas questões, nos vários espaços que rodeiam Lisboa. É um filme sobre a tentativa de sobreviver, sem desviar o olhar do que há de bom na vida e, ao mesmo tempo, que nos arranca um pedaço de alma.

