Depois de dois volumes (“Volume 1, O Inquieto” e “Volume 2, O Desolado”) intensos e comoventes, retratos de um país socialmente devastado através do olhar incisivo de Miguel Gomes e o seu humor mordaz, confirma-se com o “Volume 3, O Encantado” que “As Mil e Uma Noites” é uma das obras mais promissoras do cinema português atual e a obra mais audaz de Miguel Gomes até à data.

Ao contrário dos volumes anteriores, este terceiro apresenta uma estrutura ligeiramente diferente, focando-se em dois mundos, o de Xerazade e o de “passarinheiros” e dos seus tentilhões. Comparando com os anteriores volumes, esta terceira parte é a mais fraca, ou a menos bem conseguida, o que é normal acontecer numa trilogia, com este a ser o mais desequilibrado dos três volumes.

O filme começa com a história da rainha Xerazade que com medo de não conseguir contar mais histórias que agradem ao Rei e para que este não a mate, foge do palácio e percorre o reino à procura de prazer e encantamento.

A segunda parte do filme foca-se no conto “O Inebriante Canto dos Tentilhões”, onde o realizador retrata uma certa classe social, de bairros sociais de Lisboa, um conjunto de homens que tem como ocupação ensinar pássaros (os tentilhões) a cantar. Uma atividade praticamente desconhecida a que o realizador dedica quase todo o filme, cruzando pelo meio imagens de manifestações ocorridas em Lisboa, com o relato de uma imigrante chinesa que se apaixonou por um polícia.

A história dos “passariheiros” ganha aqui uma dimensão poética, com os pássaros que cantam para lutar, para sobreviver. Cantam como se não houvesse amanhã. Se não cantarem morrem e alguns até morrem de tanto cantar.

A mensagem que passa é a de um povo que canta. é esta a forma de luta que o realizador aparenta encontrar. Só nos resta voar (o sonho) e cantar (a arma) para combatermos esta austeridade que nos é imposta, quer pelo governo, quer pelo sistema financeiro internacional, pois “a cantiga é uma arma”. Com um país destruído, o povo encanta-se com um país diferente, com cantigas de luta e com sonhos. A trilogia termina com a ideia de que ainda se luta pelo seu país, que apesar de todo o mal, da solidão e desilusão, ainda se canta.

Ao fim de três volumes, este é um povo que fica, primeiro inquieto, depois desolado e no final encantado. O Volume 3 é o mais pobre de ideias, isento do seu humor fantasioso característico dos anteriores volumes, ainda assim é nobre e funciona como obra solta, tal como os outros, mantendo a crítica social.

“As Mil e Uma Noites”, um retrato único de Portugal, é a derradeira obra de Miguel Gomes e uma das maravilhas mais cativantes e ousadas do cinema português.

Realização: Miguel Gomes

Argumento: Telmo Churro, Miguel Gomes, Mariana Ricardo

Elenco: Crista Alfaiate, Américo Silva, Carloto Cotta, Jing Jing Guo, Chico Chapas, Quitério, Bernardo Alves

Portugal/2015 – Drama

Sinopse: Xerazade duvida que ainda consiga contar histórias que agradem ao Rei, dado que o que tem para contar pesa três mil toneladas. Por isso foge do palácio e percorre o Reino em busca de prazer e encantamento. O seu pai, o Grão-Vizir, marca encontro com ela na roda gigante, e Xerazade retoma a narração : “Oh venturoso Rei, fui sabedora que em antigos bairros de lata de Lisboa, existia uma comunidade de homens enfeitiçados que, com rigor e paixão, se dedicava a ensinar pássaros a cantar … “. E vendo despontar a manhã, Xerazade calou-se.

«As Mil e uma Noites - Volume 3, O Encantado» - Um povo que canta
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