“Queria entender como foram alteradas as memórias daquelas pessoas” Marcelo Gomes sobre o belíssimo “Estou me Guardando para quando o Carnaval Chegar”

Um dos filmes mais sublimes desta edição da Berlinale vem lá de Pernambuco, pelas mãos do veterano Marcelo Gomes. “Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar” empresta o seu nome dos versos de uma velha canção de Chico Buarque. A história se passa em Toritama, uma pequena cidade no nordeste brasileiro conhecida como a capital do jeans. Na entrada da cidade, vemos outdoors gigantescos anunciando que estamos em um novo território, um universo paralelo do consumo no meio do sertão Pernambucano. A paisagem árida bem poderia ser palco de um western brasileiro, não fosse as transformações econômicas que a cidade sofreu na década de 1970 e que ainda se sentem até hoje; fenômeno ao qual Marcelo Gomes comparou com a Inglaterra do século 19 em vias de industrialização.

A principal fonte de renda dos moradores de Toritama – e do capital que faz a cidade girar, vem da produção do jeans. Para se ter uma ideia da proporção do negócio, 15% de todo o jeans vendido no Brasil, vem de lá. E quase todo mundo trabalha por conta própria, em pequenas fábricas de produção improvisadas em garagens ou nas suas próprias casas, o que eles chamam de “facções”. E o trabalho é árduo e intenso. Eles acordam de manhã e só voltam para casa tarde da noite para dormir, com pequenos intervalos pelo meio para fazer as refeições. O trabalho contínuo é o leitmotiv que dá vida aos moradores de Toritama, em uma espécie de penitência para algo maior que está ali já ao virar da esquina: o carnaval.

Quando fevereiro chegar, tudo valerá a pena. É quando eles abandonam a cidade, como se fosse uma procissão religiosa, rumo ao litoral. E ali, nessa catarse coletiva, tudo é perdoado e tudo é celebrado. Mesmo que esta celebração seja no meio do que sobrou das consequências mais nefastas do capitalismo selvagem que engoliu a cidade. Mas daí a música de Chico Buarque vem à cabeça mais uma vez “e quem me vê apanhando da vida, duvida que eu vá revidar” e nós embarcamos junto com eles nessa epopeia da celebração dos corpos.

O cinema de Marcelo continua político e polissêmico, onde a denúncia é acentuada sem nunca ser impositiva. A busca pela independência aqui não é apenas financeira, há uma certa urgência de viver e de se libertar; e uma vez que a câmera se instala, essa libertação vai acontecendo sem que nos demos conta. Em imagens hipnotizantes, a câmera se transforma numa narradora voyeurista, que assiste de uma certa distância em modo contemplativo, enquanto seus personagens florescem e se deixam invadir.

O belíssimo documentário do diretor estreou hoje, sábado, na seção Panorama, com recepção entusiasmada do público e da imprensa. O diretor é um habitué do festival, tendo estado na mesma mostra Panorama em 2014 com “O Homem das multidões” (que co-dirigiu com Cao Guimarães) e em competição no ano passado com o denso e elogiado “Joaquim”.

No meio da correria dos preparativos para a sua viagem para Berlim, falamos com ele sobre o seu novo filme e sobre a sua relação criativa com Gabriel Mascaro, que também mostra em Berlim o seu magnífico novo filme “Divino Amor” no domingo.

WA: Quanto tempo estiveram em Toritama filmando e como surgiram as escolhas das “personagens” que iam dar estrutura ao filme? E estas escolhas foram feitas na sala de edição ou enquanto filmavam?

MG: Começámos a prospecção em busca de personagens em junho de 2017. Durante um ano e meio fizemos diversas viagens a Toritama. A maioria das filmagens foi realizada no período entre o Natal de 2017 e o carnaval de 2018.

Decidimos concentrar nosso filme nas facções. Nos autónomos. A partir dessa decisão fomos conhecendo pessoas na rua, nas feiras, nas pequenas fábricas, e, a partir de conversas preliminares, escolhi os personagens levando em consideração a singularidade das histórias. Em seguida, na sala de edição fizemos uma decisão afetiva, ou seja, os personagens que nos emocionavam mais ficaram na edição final.

WA: Como se entra numa história como esta, vocês tinham um roteiro a seguir? Por exemplo, o final na praia filmado pelos próprios personagens foi planejado?

MG: O documentário foi se construindo pouco a pouco. Quando começamos a visitar esses lugares, as pessoas se mostraram muito receptivas e se deixavam filmar e conversavam com tranquilidade. Só não queriam parar de trabalhar para ter que responder às minhas perguntas. O que para a gente foi ótimo: filmávamos elas respondendo às entrevistas e trabalhando ao mesmo tempo. Óbvio que eu não poderia pedir outra coisa. Então a mim só cabia escutar, ver e entender o que diziam. E ao longo do processo fomos nos dando conta que nunca tínhamos filmado na casa deles, só quando a casa também era ambiente de trabalho. Todo mundo que a gente filmou estava numa situação de trabalho. Como a gente iria então partir para a intimidade deles no carnaval? Para além disso, tinha uma questão ética em jogo: uma equipe inteira de filmagem poderia estragar o momento de celebração e alegria que representava o carnaval para eles.  O trabalho toma a vida delas de forma absoluta e no único momento de transgressão dessa lógica a presença de nossa equipe poderia arruinar justamente aquilo que queríamos registar. Pensando nessas questões, chegamos à solução de trabalhar com a ideia de dispositivo e distribuir câmaras entre eles para que cada um registasse o seu próprio carnaval da maneira que quisesse. Ao longo do processo de montagem, Leo foi se destacando entre os demais personagens. Ele é uma espécie de filósofo que sintetiza muito bem o pensamento de vários dos nossos entrevistados. Como as imagens que ele produziu no carnaval não diferem tanto assim das outras que recebemos, decidimos ficar só com a experiência dele. E essa forma de apresentar o carnaval me pareceu um desenvolvimento natural da minha postura em relação aos personagens em todos os momentos do processo, quando procurava ouvir o que pensavam e apresentar o que eles sentiam da maneira mais franca possível.

WA: Num primeiro momento, nós vemos os moradores da cidade como uma espécie de formigas operárias, que trabalham em modo automático, alienados do mundo ao seu redor mas trabalhando ininterruptamente em nome de uma causa maior.  No entanto, você deixa essa causa maior, ou este momento de catarse, para o finalzinho do seu filme, como se corroborasse a ideia de que os fins justificam os meios. Não houve uma tentação de filmar o vazio pós carnaval?

MG: Quando cheguei em Toritama me deparei com uma realidade muito impressionante, que algumas vezes me fez pensar na Inglaterra do século 19 em pleno processo de industrialização: aqueles totens enormes de propaganda na estrada, o rio azul, o trânsito caótico, a feira… Mesmo que várias cidades do Agreste tenham passado por um desenvolvimento sem planeamento dentro de um processo de industrialização esdrúxulo, acredito que nenhuma passou por mudanças tão radicais quanto Toritama. Mas o que realmente me interessava não era essa mudança da paisagem urbana, mas da paisagem humana. Queria entender como foram alteradas as memórias, as referenciais culturais daquelas pessoas. Na década de 1980 a cidade tinha uma biblioteca, uma orquestra de música, teatro… E tudo isso foi extinto, não existe mais. Então eu realmente queria entender o que aquelas pessoas, que acompanharam todas essas mudanças, pensam da vida. Com o que elas sonham, o que elas desejam? E foi um choque para mim quando elas disseram que achavam suas condições de trabalho boas e que estavam satisfeitas com a autonomia que o jeans representava. Por isso, filmar o pós-carnaval iria ser o retorno ao início do filme. Então decidimos parar ali.

WA: Por outro lado, isso também me faz lembrar que a busca pela independência é um tema constante do seu cinema, como foi no anterior Joaquim. Só que no caso de “Estou me Guardando…” a “prisão” dos seus personagens é auto-imposta pela realidade que é oferecida a eles. Por isso, aquela personagem que diz “deus me livre de trabalhar na produção de jeans” (a única do filme que não trabalha nas facções) se destaca dos demais. Seria esta personagem uma espécie de libertária, alguém que deu o seu grito de independência? O que você acha disso?

MG: A senhora que você diz é agricultora. É isso que aconteceu em Toritama. Tudo se transformou rapidamente e se queimaram etapas. O processo de industrialização se tornou esdrúxulo e muitos caíram nessa armadilha do enriquecimento rápido em função da auto-escravidão. O neoliberalismo foi muito eficiente nesse sentido, ele realmente conseguiu vender muito bem suas verdades. Talvez a gente esteja vivendo um dos momentos mais cruéis desse sistema. Em nenhuma das conversas as pessoas se enxergavam como vítimas e tínhamos que respeitar isso na construção do filme. Poderia ser muito mais fácil fazer um filme que os colocasse nesse lugar, mas a realidade é muito mais complexa. Talvez vendo uma situação tão radical como a que acontece em Toritama, a gente possa refletir sobre a nossa própria relação com o trabalho, o consumo e o que fazemos com o tempo nas nossas vidas. Essa lógica atual em que você é um ser não do “dever fazer”, mas do “poder fazer”: posso fazer não sei quantas calças para assim ganhar mais. Vejo a cidade como uma ponte entre o passado e futuro: de alguma forma ela representa a concretização de um projeto neoliberal que se deseja implantar em todo o país. No futuro viveremos todos uma realidade parecida a de Toritama, onde mesmo sendo aparentemente livres e podendo usar nosso tempo como quisermos, seremos induzidos a viver uma espécie de auto-escravização. A falácia da autonomia num sistema de desejos induzidos. E seguiremos o lema construído pelos neoliberais nos anos 1980: ganância é uma coisa boa (“greed is good”).

WA: E como foi para obter a confiança dos moradores, fazer parte da comunidade e deixá-los à vontade com a presença das câmaras?

MG: Fomos, pouco a pouco, ganhando a confiança das pessoas. Na cidade muita gente se recusou a nos dar entrevista. Pensavam que queríamos fazer alguma denúncia ou mesmo espiar a produção de jeans. Mas, pouco a pouco, fomos ganhando a confiança das pessoas e a partir daí tudo fluiu.

WA: Eles já viram o filme?

MG: O filme será exibido em Abril no festival de cinema de Taquaritinga, uma cidade próxima de Toritama. Faremos uma exibição especial para todos os participantes do filme. Eu espero que gostem. Eles têm voz. Falam do que acreditam, de seus desejos e sonhos.

WA: Vi o nome do Gabriel Mascaro (“Boi Neon”, “Divino Amor”) nos créditos do filme como consultor artístico. Pode falar um pouco dessa colaboração?

MG: O Gabriel começou no cinema sendo meu assistente em “Cinema, Aspirinas e Urubus”. A partir daí, toda vez que é possível, trocamos conversas sobre filmes. Assisto os cortes dos filmes dele e ele faz o mesmo com os meus. Eu colaborei no argumento de “Boi Neon”. Enfim, estamos sempre trocando ideias. E o Agreste e as suas transformações sociais e culturais é um tema que nos interessa aos dois. No último corte do filme, ele visitou a minha sala de montagem e trabalhou comigo no arremate final da história. Ele estava na sala ao lado finalizando a montagem do “Divino Amor” e sempre que eu podia ia lá para dar uns pitacos também. Esse intercâmbio foi muito importante para nosso filme. Acho o Gabriel muito talentoso. Ele me instiga e inspira muito.