Bad Luck Banging or Loony Porn

Berlim 2021: Sem surpresas, o sexo e o cinema radical saem vitoriosos mais uma vez

Berlim premia o cinema radical como fez em anos recentes e entrega o seu prémio máximo a “Bad Luck Banging or Loony Porn” do realizador romeno Radu Jude, enquanto esnoba a grande estrela da competição Céline Sciamma com o seu convencional “Petite Maman”.

Desde a sua estreia no segundo dia do festival o novo filme de Radu Jude, que abre com um escandaloso vídeo porno de quase dez minutos, vinha despertando ódios e paixões pela imprensa e nas redes sociais. Por isso não foi muita surpresa que Bad Luck Banging or Loony Porn tenha arrecadado o prémio máximo do festival. A Berlinale nunca quis ser Cannes, com suas grandes vedetas e o glamour do tapete vermelho, e sendo o festival do tema que é (ou foi), inclinou-se quase sempre por premiar um cinema mais radical.

Não precisamos ir muito longe, vide o polémico urso de 2018 o documentário-ficção Nao me Toques da romena Adina Pintilie, talvez um dos mais controversos ursos do festival e que também fazia uso do sexo e da nudez para nos questionar sobre o nosso medo do que é feio e, porque não, do que é obsceno. Ou ainda o inclassificável Sinónimos, do israelita Nadav Lapid, vencedor do urso em 2019. O filme era uma desenfreada sátira sobre os códigos da hipermasculinidade ou como Israel (e não só) constrói os seus homens, a ponto de destruir as suas identidades. Lapid também utilizou-se do sexo e da nudez do seu protagonista Tom Mercier para fazer nos questionar sobre questões de identidade e género.

No entanto, é preciso notar também que a presença dos dois realizadores, Lapid e Pintilie, entre o júri internacional deste ano não parece se tratar de simples coincidência e provavelmente devem ter grande parte de responsabilidade na escolha do urso.

Apesar de irregular, o filme de Radu Jade segue a mesma linha dos dois citados, nos guiando sobre os fatores estruturais que moldam as percepções dos indivíduos sobre comportamentos sexuais apropriados para homens e mulheres, estabelecendo padrões duplos que permitem aos homens, por exemplo, mais liberdade sexual do que às mulheres.

Uma belíssima (e ignorada) entrada da Geórgia

Quando as bolsas de apostas começaram a pipocar nas redes sociais entre a imprensa que cobria o festival, muitos apostaram na belíssima entrada da Georgia What Do We See When We Look at the Sky? do realizador Alexandre Koberidze, um romance atípico que começa muito convencional e se desdobra numa belíssima homenagem ao cinema. O filme começa quando dois jovens Giorgi (Giorgi Ambroladze) e (Oliko Barbakadze) se encontram por coincidência na rua quando um deles deixa cair um caderno. Os dois então marcam um encontro num café e no dia do tal encontro ambos acordam sob o efeito de um feitiço que altera os seus rostos, tornando impossível para os dois reconhecerem-se no tal Café. Passamos então a observar os dois enquanto a narrativa se desenvolve com os protagonistas em sua nova realidade. O filme saiu de mãos vazias dos prémios oficiais, não fosse pelo prémio da Fipresci, composto por um grupo independente de críticos estrangeiros.

Outro filme completamente ignorado pelo festival foi o muito insípido novo filme de Céline Sciamma. Adorado por muitos, parece que não teve eco entre o júri. Petite Maman conta uma história de luto e de fantasmas através do olhar de uma rapariga de 8 anos. Depois do multi premiado Retrato da Rapariga em Chamas, as expectativas eram altas para o novo filme. No entanto, chega-se à conclusão que talvez o formalismo habitual da francesa não tenha lugar em Berlim.

E assim termina a primeira parte de uma Berlinale que pareceu ter acontecido às pressas. Numa semana de muita correria, com quase 100 filmes distribuídos em 5 dias e com uma janela de 24 horas para poder serem visionados pela imprensa e pela indústria, tem-se a impressão que muitos filmes ficaram por ver. Resta-nos aguardar pela segunda parte do festival, chamada de “Summer Special” e que acontecerá fisicamente em junho com a programação completa do festival. Isto é, caso até lá consigamos dar conta desta pandemia que parece não ter fim.

Competição Oficial – Longas-Metragens
Urso de Ouro
Bad Luck Banging Or Loony Porn, de Radu Jude

Grande Prémio do Júri
Wheel Of Fortune And Fantasy, de Ryusuke Hamaguchi

Urso de Prata – Prémio do Júri
Maria Speth, por Mr Bachmann And His Class

Urso de Prata – Melhor Realização
Dénes Nagy, por Natural Light

Urso de Prata – Melhor Interpretação Protagonista
Maren Eggert, em I’m Your Man

Urso de Prata – Melhor Interpretação Secundária
Lilla Kizlinger, em Forest – I See You Everywhere

Urso de Prata – Melhor Argumento
Hong Sang-soo, por Introduction

Urso de Prata – Melhor Contribuição Artística
Yibrán Asuad pela edição de “A Cop Movie”

Secção Encounters
Melhor Filme
We, de Alice Diop

Prémio Especial do Júri
Taste, de Lê Bảo

Melhor Realização – ex-aequo
Ramon Zürcher, Silvan Zürcher, por The Girl And The Spider
Denis Côté, por Social Hygiene

Menção Especial
Rock Bottom Riser, de Fern Silva

Os vencedores nas seções de curtas e Generation, anunciados ontem, podem ser vistos aqui.

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