A realizadora Leonor Teles, de 27 anos, mostra que já encontrou um equilíbrio cinematográfico perfeito (difícil de se chegar) entre o afectivo e o político no seu quarto filme, “Cães que Ladram aos Pássaros”. A curta-metragem estreia-se mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Com exibições nos dias 5 e 7 de Setembro, ela integra a secção competitiva Horizontes (veja detalhes).

Após falar do preconceito e da discriminação contra os ciganos nas curtas bem pessoais “Rhoma Acans” (2012) e “Balada de um Batráquio” (2016, Urso de Ouro em Berlim), Leonor segue agora o mesmo modelo da sua primeira longa-metragem, a maravilhosa “Terra Franca” (2018).

Ao misturar a narrativa de documentário com trechos de ficção, ela escolhe filmar novamente a rotina de uma família comum portuguesa que é impactada por políticas locais. Enquanto a guerreira comunidade piscatória é tema de “Terra Franca”, “Cães que Ladram aos Pássaros” traz a história da família Gil, representada pela mãe Maria e os quatro filhos Vicente, Salvador, Mariana e António. Na curta de vinte minutos de duração, eles são obrigados a sair da casa no centro do Porto por causa da especulação imobiliária que se agravou em 2018.

Sim, a gentrificação chegou ao Porto. A procura acelerada de turistas por casas no Centro Histórico faz com que os edifícios antigos sejam destruídos – e os antigos moradores despejados – para a construção de hotéis, alojamentos ou apartamentos com preços desmedidos. Como é possível ver no noticiário, estes valores são o suficiente para que alguns senhorios se esqueçam de que ainda há pessoas a receber salário mínimo em Portugal.

Numa das cenas mais realistas do filme, Vicente vai com a mãe visitar um apartamento que está para arrendar. O senhorio a enche de perguntas e de comentários desnecessários e inconvenientes sobre sua vida. Desde “És portuguesa mesmo? Tens fiador?” a “Quatro filhos é muito este espaço” e “Onde está o marido?”.

Então, o que deveria ser apenas as férias de verão do adolescente Vicente transformam-se num momento de viragem para a vida adulta. O que deveria ser apenas um passeio de bicicleta pela cidade é interrompido por pensamentos depressivos pois a cidade está irreconhecível (“dois guindastes ali, mais dois por lá”, diz o portuense). Ele não sabe se ri ou se chora. Interessante registar que essa curta foi financiada pela Câmara Municipal do Porto no âmbito do projecto Cultura em Expansão, numa residência artística que a realizadora, que nasceu em Vila Franca de Xira, fez por um ano na cidade.

Leonor sabe captar de forma comovente problemas pessoais que acabam por ter a ver com todos. Detalhes são importantes para o seu cinema, que emociona e denuncia o que se passa no país. Portanto, esperamos muito que essa história possa vir a ser argumento de uma próxima (e segunda) longa-metragem da carreira de Leonor.

«Cães que Ladram aos Pássaros» - cinema que denuncia e comove
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