Casa do Cinema de Coimbra: Desde 2021, com muita teimosia e persistência, a formar públicos para o cinema português

Casa do Cinema de Coimbra
Casa do Cinema de Coimbra

A Casa do Cinema de Coimbra é um espaço “que nasceu de muita teimosia e persistência”, diz-nos Tiago Santos, um dos programadores da sala de cinema independente de Coimbra, que celebra agora em maio o seu segundo aniversário.

A Casa do Cinema, que comemora dois anos de vida (maio de 2021 – maio de 2023), tem feito e continua a realizar um trabalho de formação de públicos, sobretudo dedicado para o cinema português.

Esta é uma sala da década de 1980 com cerca de 200 lugares, que ganhou uma nova vida em 2021, depois de muitos anos de abandono e esquecimento. O projecto que nasceu do Festival Caminhos reúne três associações que assumem a gestão e programação da sala: o Caminhos do Cinema Português – Associação de Artes Cinematográficas, o Centro de Estudos Cinematográficos da AAC e a Fila K Cineclube.

Em 2022, a Casa do Cinema de Coimbra conseguiu integrar a rede Europa Cinemas, aumentando para 12 o número de salas em Portugal que integram essa rede europeia. Foi uma conquista muito desejada pelos promotores da sala de cinema, que sentem um maior reconhecimento da qualidade e mérito do seu trabalho, mas também maior responsabilidade.

No entanto, uns meses antes de integrarem a rede europeia de cinemas, a sala de cinema viveu um período de grandes incertezas, pois os “donos” do espaço colocaram as duas salas em leilão público. O Município foi a entidade que melhor respondeu ao nosso apelo, reconhecendo o trabalho de fundo do associativismo cinematográfico, bem como a forma sustentada e justificada com que apresentámos o projecto Casa do Cinema de Coimbra”. O Município de Coimbra salvou a Casa do Cinema de Coimbra, mas há sempre espaço para se fazer mais e crescer”.

A Casa do Cinema de Coimbra celebra o segundo aniversário com uma programação composta por cerca de 20 filmes. Entre os dias 11 e 17 de maio, a Casa do Cinema exibe “várias ante-estreias de grande interesse entre documentários, obras de ficção, sem esquecer a animação produzida em contexto escolar.“

O Cinema Sétima Arte falou com Tiago Santos, membro do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) e da direção do Caminhos do Cinema Português, sobre os desafios da ainda jovem “renascida” sala de cinema, que vive muito do esforço e militância de um pequeno grupo de cinéfilos que garantem a programação e as condições técnicas da sala, assim como da fidelização do público.

A Casa do Cinema de Coimbra é um belo exemplo de resistência, resiliência e devoção à própria sala de cinema e ao cinema português.


Em novembro de 2022 a Casa do Cinema de Coimbra passou a integrar a rede Europa Cinemas, aumentando para 12 o número de salas em Portugal que integram essa rede europeia. Qual o impacto deste reconhecimento e o que mudou para vocês?

O principal impacto da aceitação na rede Europa Cinemas foi o reconhecimento da qualidade e mérito do nosso trabalho. É necessário ter um conjunto de requisitos que nos levou cerca de dez anos a obter e todos eles tanto foram resultado de um percurso, como todos eles, se vieram a mostrar tangíveis na recta final desse percurso referido de dez anos. Falamos do acesso à projeção digital de cinema (DCP), do acesso a uma sala de cinema de dimensões adequadas à nossa programação e dinâmica dos eventos e com a sala e o DCP revelaram-se as demais oportunidades.

Há diversos impactos secundários que não sendo imediatos no nosso quotidiano, são muito importantes para a visibilidade da nossa sala e da região. integrar a rede europa cinemas é integrar uma rede de oportunidades. Sempre que uma cidade vê um seu cinema dentro da rede passa a ser divulgada diariamente em mais de 700 cidades europeias ou se quisermos aumentar a escala, mais de 3000 salas de cinema. Isto quer dizer que a nossa atividade começa a ser observada a nível europeu e não somente ao nível local ou regional. Depois há um conjunto muito regular de oficinas, workshops, encontros e painéis de discussão e formação que se fazem entre pares, entre membros da rede, procurando partilhar metodologias de trabalho, formação de públicos, oportunidades de financiamento e há um conjunto de linhas de investimento, como por exemplo o incentivo à adoção de práticas ambientais sustentáveis ou a transição digital, que se afiguram possíveis quando se marcarem mais de dois anos de permanência na rede.

Estar presente na rede é igualmente um compromisso importante de programação com o todo cinema europeu.

Casa do Cinema de Coimbra

A Câmara Municipal de Coimbra reconheceu o vosso trabalho em 2022, com financiamento. Sentem que é suficiente ou o Município poderia fazer mais no apoio ao cinema da região?

A Casa do Cinema de Coimbra é um espaço que nasceu de muita teimosia e persistência. Teria sido muito difícil sem os apoios extraordinários que houve durante a primeira vaga da pandemia do COVID-19 termos tido a capacidade técnica de ocupar e programar o espaço que hoje dinamizamos. Há muitas premissas que se não fossem cumpridas nos impossibilitaram de termos ocupado um espaço que muitos vaticinaram como uma atividade insustentável, tanto de custos, como de recursos humanos. É claro que há muita cumplicidade entre os muito teimosos que permitiram que o espaço hoje seja uma casa disponível para os mais diversos públicos, mas no início foi muito importante termos as condições técnicas, para depois tentarmos perceber como é que se construía uma sala de cinema, não no sentido físico, mas comunitário. Contudo havia um elemento que não tínhamos descurado e íamos apostar, progressivamente, a nosso favor: a memória comum de um espaço de iniciação à cinefilia. E nós pensávamos mesmo que seria progressivamente, mas não foi pois a resposta foi imediata e logo vimos caras na sala que nos eram desconhecidas. 

Até chegarmos ao momento chave de 2022, em que o Município de Coimbra salvou a Casa do Cinema de Coimbra, temos que olhar para a atividade da casa em 2021 e em 2022, percebendo-se e criticando a forma como se apoia a atividade de exibição de cinema em Portugal. O primeiro ano, como se esperava, foi um ano de grande atividade com mais de 180 exibições, muitas relativas ao festival Caminhos, mas com sessões distribuídas em somente 3 dias da semana.

No fundo estávamos a cumprir com os regulamentos e possibilidades dadas pelo concurso da Exibição em Circuitos Alternativos. Com a passagem do ano de 2021 para 2022 fomos confrontados os projectos de exibição de 2021 executados, um novo concurso em 2022 por abrir e uma sala com hábitos criados por programar. Isto é, tivemos que lidar com uma realidade diferente e adoptar uma postura de “exibição comercial”, com uma oferta mais regular. Ao longo de 2022 começámos por oferecer duas sessões ao longo de quatro dias da semana até que em outubro assumimos que tínhamos capacidade para trabalhar uma semana inteira e assim conseguimos acompanhar obras em estreia nacional.

No total de 2022, realizámos mais de 800 sessões, com mais de 15000 espectadores dos quais, em 2022, 85% viram cinema português e europeu. Sinto que esse momento inicial de 2022 foi um dos passos fundamentais que tomamos na nossa atividade de exibidores, transformando um subsídio de um elemento de subsistência para um elemento capacitante.

Essa decisão mostrou-se acertada após o primeiro mês do ano, mas no final do primeiro trimestre de 2022 fomos surpreendidos negativamente. Foram precisos 16 anos para que a “massa insolvente” que era responsável pelo espaço que estávamos a dinamizar se lembrasse de o colocar em leilão público. A comunidade de espectadores reagiu com uma onda de solidariedade, mas foi um momento de grande frustração e incerteza, sobretudo porque não teríamos qualquer capacidade para licitar nesse leilão. Restava-nos pedir ajuda às diversas entidades da região. O Município foi a entidade que melhor respondeu ao nosso apelo, reconhecendo o trabalho de fundo do associativismo cinematográfico, bem como a forma sustentada e justificada com que apresentámos o projecto “Casa do Cinema de Coimbra”.

Assim que tivemos a boa notícia que o município adquiriu as duas salas de cinema – pensamos nós como uma prenda do primeiro aniversário – tivemos a vistoria inicial da IGAC que nos ajudou a perceber alguns pontos infra-estruturais a melhorar nas condições do espaço. Neste momento o Município está empenhado em colaborar na promoção da cultura cinematográfica e dar as melhores condições para laborarmos.

Sentimos um apoio que durante muito tempo foi inexistente, mas há sempre espaço para se fazer mais e crescer, sobretudo na atividade do festival Caminhos em que gostaríamos de ter maneio para ter maior presença de convidados e imprensa, atividades paralelas de formação e indústria, entre outros objetivos.

Voltando à atividade da Casa do Cinema de Coimbra e de forma geral aos apoios à atividade,  considerando a dimensão, resultados atingidos e a oferta da nossa programação atual, sentimos que deveríamos ser elegíveis ao Programa de Apoio ao Cinema – Subprograma de Apoio à Exibição do ICA. Não achamos minimamente justo que se defina a admissibilidade a um concurso em função da forma jurídica de uma entidade e não em função do tipo de atividade que é proposta e definida em regulamento. Esse era um salto importantíssimo para satisfazer condignamente – a par com outros cinemas tradicionais – tanto as nossas despesas, como os nossos recursos humanos. 

Casa do Cinema de Coimbra

Sendo Coimbra uma cidade predominantemente de estudantes, qual tem sido a adesão por parte destes à sala de cinema?

Sempre que se pensa em Coimbra, pensasse na cidade em que o estudante é a peça central da economia da cidade. Apesar de ser importante para a região e de a universidade ser um dos grandes pontos mobilizadores de população da cidade, o estudante continua a ser uma minoria no leque do público da nossa atividade. Nós procuramos e estimulamos a uma maior dinâmica com os alunos das diversas instituições da cidade. Aliás recorrentemente temos professores a comentar sessões, mas os estudantes representaram: 39% dos espectadores em 2023; 22% dos espectadores em 2022; 15% dos espectadores em 2021. 

Há um crescimento da fidelização dos estudantes, porém Coimbra é uma cidade em que a sua população flutuante muda a cada 3 anos e nesse sentido temos que continuamente estar a realizar um trabalho de formação de públicos. Por outro lado, sentimos que há uma falta significativa de hábitos culturais na população mais jovem e que se sedimenta a partir dos 25 anos de idade e com a atividade laboral. É aí que sentimos estar o nosso público mais fiel.

Um dos vossos principais trabalhos é a contínua formação de novos públicos. Vocês recebem muitas escolas do infantário e ensino primário, permitindo assim que essas crianças tenham contacto com uma sala de cinema. Que público é que querem formar?

Queremos formar públicos para o cinema português. Esse sempre foi o nosso objectivo #1, sobretudo desde 2005 quando introduzimos a secção Caminhos Juniores no Festival. Com a casa do cinema de Coimbra conseguimos ter uma regularidade que não tínhamos e temos desenvolvido um trabalho persistente junto das famílias para estimular os hábitos culturais entre pais e filhos. Esse é um elo em que investimos bastante e que possibilita tanto formar novos espectadores para o cinema europeu, como divulgar a nossa oferta ao  público adulto. 

A participação das escolas nas nossas atividades é menos regular que o desejável, mas por trimestre recebemos no mínimo um grupo escolar que concilia a pedagogia com o cinema.

Olhando para a vossa programação vemos que apostam muito no cinema português, que é, se me permitem, a cinematografia com mais destaque no vosso programa anual. Mas, sem deslindar, o também cinema europeu e asitático através dos mais conceituados festivais de cinema. Como tem sido a adesão do público de Coimbra às sessões de cinema português?

Fantástica na medida em que quase 20% dos filmes que programamos em 2023 são portugueses e do total de espectadores do corrente ano 43% vieram ver produções portuguesas! Recorde-se que na generalidade e no mesmo período os espectadores de filmes nacionais representam 2,3% do total de audiências. 

A Casa do Cinema de Coimbra tenta articular-se com o resto do distrito, levando o cinema a outras regiões onde o consumo de cinema é escasso ou inexistente?

Tentamos com a programação fora de portas, mas tal só é possível em estreita colaboração com as freguesias e entidades que acolhem a nossa proposta. Nos dois últimos anos, em colaboração com a União de Freguesias de Coimbra e com a União de Freguesias de Eiras e São Paulo de Frades, levámos uma sala de cinema a 14 localizações para cerca de 2000 pessoas. Em cada local adaptamos a programação ao perfil dos públicos e oportunidades culturais existentes. É muito recompensador conseguirmos democratizar o acesso à cultura em locais sem ofertas culturais. Em 2021, foram 860 espectadores, 7 Sessões / Locais e 2 Cine-Concertos. Em 2022, foram 1131 espectadores e 7 Sessões / Locais.

Casa do Cinema de Coimbra

Cinema Ideal, Cinema Trindade, Casa do Cinema de Coimbra e recentemente o Cinema Batalha. Nos últimos anos assistimos à reabertura de antigas salas de cinema que estiveram fechadas durante muito tempo. A maioria fechou definitivamente ou foram demolidas, mas estas conseguiram novamente ver a luz ser projetada na tela. Há ainda espaço para mais salas destas, noutras cidades?

Claro que há, mas é preciso separar as salas em função das suas realidades. O Cinema Ideal e o Cinema Trindade são cinemas de bairro dinamizados por duas empresas com muita experiência na distribuição. Neste lote poder-se-á ainda agregar o Nimas. O Cinema Batalha é um projecto do Município do Porto em que se reconstruiu um edifício de grande porte e se investiu em equipamentos modernos. A Casa do Cinema de Coimbra resultou do esforço de 3 associações terem uma sala condigna para programar, mas na realidade só a ocupamos com um projector digital, uma tela nova e depois, na medida das possibilidades, fomos e vamos resolvendo um problema de cada vez . Cada associação ajuda com o que tem e em proporção programa na sala.

Agrupando as salas referidas desta forma é possível perceber como outras salas de cinema esquecidas podem ser recuperadas como espaços de fruição cinematográfica. Ainda há dias fechou uma em Oliveira de Azeméis, outra em Ovar, há várias nos classificados do Facebook e do OLX.

O que faz uma sala é a programação e a forma como esta consegue estimular uma comunidade em torno desta.

Considerando as inequívocas assimetrias na oferta e acesso às práticas culturais, sobretudo ao cinema, creio que há muitas oportunidades e há muita gente capacitada a fazer um trabalho similar ou melhor que o nosso.

Quase dois anos depois, qual o balanço geral deste projecto que reabriu uma sala quase esquecida pela comunidade?

No geral é um balanço muito bom, mas com muitos percalços. Há várias condicionantes da sala a resolver que só serão possíveis com a boa vontade do município. Há outras que só surgem da falta de bom senso dentro da nossa vizinhança. É no conjunto desses percalços que sabemos que ainda temos um longo caminho a percorrer para conseguir ganhar a confiança de todo o público que sabemos ser possível fidelizar à Casa do Cinema de Coimbra. Também é desses percalços e da forma como lidamos com eles que sentimos que houve um enorme amadurecimento da nossa equipa, com grande flexibilidade e autonomia, entrosando-se os elementos e as tarefas de forma natural. 

Que programa podem revelar para a comemoração do segundo aniversário da Casa do Cinema de Coimbra?

Procurámos, sem descurar alguns dos filmes em cartaz,  trazer as novidades que irão marcar a “cinematografia independente” da segunda metade do ano e em boa medida trazemos várias ante-estreias de grande interesse entre documentários, obras de ficção, sem esquecer a animação produzida em contexto escolar. Cremos que o programa de aniversário é uma bandeira da programação da casa, confluindo nele diversidade temática, mas também a investigação da academia e a criatividade das gerações mais novas.

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