O cinema pede atenção. Pede generosidade. Entre a reação e a passividade, acalma o descontrolo, obriga ao foco num mundo de distrações, à solidariedade num momento marcado pela instabilidade política, pelo ódio e pelo sofrimento. “Dedico este filme aos cineastas mais jovens”. Foi este o grito épico Kleber Mendonça Filho, realizador do grande sucesso “O Agente Secreto”. Apelou à coragem juvenil; à ousadia de quem não teme a liberdade, mas teme perdê-la. Entregou-nos o testemunho. Seremos nós os próximos mensageiros?
Cruzando caminhos entre a memória e a introspecção, a sensibilidade da arte não escolhe idades. O cinema não é exceção. É urgente aproximar, celebrar a cultura, prestar atenção ao que nos divide, reforçar a beleza do que nos une. Muitos são os que gritam em silêncio. A voz continua a estar lá, só precisa de ser ouvida. Será o cinema o melhor dos ouvintes? Mas como ouvir um grito silencioso? E se formos incapazes de o ouvir? São vários os riscos, são vários os fatores. É preciso ir ao núcleo da questão. É preciso aprofundar o impacto que tem na vida. Estamos a falar de algo que é (ou deveria ser) uma constante. Houve-se falar do filme como um refúgio. Mas porquê? Investe-se muito na arte durante a infância, porque é algo que promove o desenvolvimento. É reduzida a um meio para atingir um fim e essa limitação é perigosa. A música pode estimular a matemática. A leitura, o desenho animado e o teatro podem estimular a fala.
A arte é encarada como um estimulante, mas não é tratada como algo essencial à vida. Vai sendo abandonada por outras prioridades, restringindo-se a um hobby ou a um programa para passar o tempo. Os artistas, os que optam por cultivá-la, por ser uma das grandes alavancas democráticas do país, são os corajosos. Sem dúvida. São verdadeiramente corajosos. Lutam contra a banalidade e demagogias baratas. Lutam pela cultura, pela literacia da sociedade, pelo país. É por isso que são corajosos. Fazem-se ouvir. Assustam o populismo.
Atrevo-me a dizer que a arte no geral, mas neste caso o cinema, é das poucas coisas que nos acompanha da infância à velhice. Não é algo temporário. É permanente. A arte como arte deixa de ser estimulada gradualmente, mas está sempre lá. Faz parte de quem somos e é um lado que não pode ser renegado. Entender os problemas geracionais que tanto preocupam a sociedade pode começar por aqui. Porque é que a criança chorou com aquele desenho animado? Porque é que não chorou? Porque é que o adulto se emocionou com aquele filme? Porque é que o jovem passa a vida no cinema? A consumir música? De headphones?
“O cinema deve ser visto no cinema”, reforça Stellan Skarsgard ao receber o Globo de Ouro. A sala de cinema é um lugar onde se constrói uma memória individual, assim como uma memória e uma experiência coletiva. Não há idades; não há vergonha para esconder emoções. Não há exclusão. Rimos em conjunto, desafiamo-nos a nós próprios. Está escuro, ninguém vê. No escuro do cinema, podemos libertar, podemos reagir. Não sei se é aqui que nasce a empatia, mas é aqui que ela é alimentada. O cinema faz muita gente feliz. Mas também abre muitas consciências para o mundo que nos rodeia. A imagem choca, a palavra também. Ecoa. Obriga-nos a pensar, a colocar-nos no lugar do outro. Ouvimos sem interrupções. Por momentos, voltamos a aprender sobre humanidade, sobre o que é ser humano, sobre a restauração de um sentimento de comunidade. A identidade vira uma epifania. Cria-se uma necessidade: precisamos do outro. Mesmo daqueles que estão atrás de toda a magia, que nos permitem viver a experiência.
Vem-me à memória a euforia da estreia do filme da Barbie, onde – um pouco por todo o mundo – foram centenas os que se vestiram a rigor para a assistir ao filme. Gostando ou não do seu conteúdo, ignorando as futilidades, a equipa de Greta Gerwig gerou um sentimento de pertença entre desconhecidos. O mesmo continua a acontecer neste início de 2026. Há sempre uma boa alma prevenida que oferece um lencinho aos mais comovidos. Um gesto simples, mas que demonstra atenção. Visibilidade. Vi um senhor de idade a cumprimentar as pessoas que iam abandonando uma das salas, enquanto estávamos na fila para que o nosso filme começasse. Conhecia toda a gente – eram espectadores regulares. É uma experiência que se alarga – um desconhecido mete conversa sobre um filme, apresenta um amigo, o amigo apresenta um amigo de um amigo e, num piscar de olhos, cria-se uma comunidade, combate-se o isolamento – quer mental, quer físico. Há um contraste respeitador, uma familiaridade que vai sendo construída.
O cinema dá-nos ferramentas para lutar contra a passividade cívica; contra os limites que a idade, na teoria, nos impõe. É por isso que sublinho a importância de não excluir o próximo, de não o limitar ao papel “que lhe é suposto” meramente pela idade que tem. Posso falar de vários realizadores que superaram essas expectativas. Porém, duas mulheres que são a prova em carne e osso do que falo são Tânia Maria, uma das estrelas de Agente Secreto – a tão amada e caricata Dona Sebastiana, e Fernanda Montenegro. Kleber Mendonça Filho retratou com a maior das mestrias a leveza do espírito jovem da Dona Sebastiana. É uma mulher com o seu toque dramático, de um mistério cómico inesquecível, altamente capaz, arrojada, sem ceder a clichés melancólicos ou artificialmente eufóricos. Kleber Mendonça utiliza a vivacidade da própria atriz para reativar a espontaneidade de quem a vê. Ativou a sensibilidade através da identificação. Uniu todas as idades para relembrar de que não há limites para um espírito como o da Dona Sebastiana.
Tudo isto alimenta um respeito mútuo, empático, entre as gerações, no qual “o cinema visto no cinema” tem um papel crucial na luta contra a brutalidade. Todos os dias esperamos algo: explicações ao passado ou um vislumbre do que poderá ser o futuro.
No escuro do cinema, não há tempo. A memória, a dimensão do presente, e a ânsia do que vai acontecer que se vive no filme só nos relembram de uma coisa: somos humanos. Se somos humanos, sentimos. E eu acredito que, enquanto sentimos, temos empatia. Por isso, volto a perguntar: Entregaram-nos o testemunho. E agora?

