O filme de Xavier Gens (“Os Humanos“, “Hitman – Agente 47“), “Cold Skin“, teve estreia nacional dia 5 na secção Serviço de Quarto do MOTELXFestival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa e deixou muito a desejar, particularmente no casting, apesar de munido de efeitos visuais, muita ação e sustos que, embora previsíveis, não podem faltar.

Baseado no romance “A Pele Fria“, de Albert Sánchez Piñol,  o filme conta a história de um soldado (David Oakes) que é destacado para o círculo ártico como observador meteorológico do exército britânico no início da Primeira Guerra Mundial. Ao chegar a terra, encontra uma ilha deserta habitada por um único homem, Gruner (Ray Stevenson), o oficial encarregue do farol, e por uma horda de monstros anfíbios.

“Cold Skin” até tem uma boa premissa, as consequências trágicas do isolamento, mas Ray Stevenson, no papel de Gruner, não consegue convencer. Seria preciso um ator com mais garra e maior capacidade de expressão para extrair o conflito interior da personagem. Sabemos que perdeu alguém que amava, o filme deixa a identidade dessa pessoa em aberto, sabemos que daí advém toda a amargura e fúria de Gruner. Essa é a razão pela qual se isolou num lugar tão assolador e remoto e é dessa perda que nasce a necessidade de controlo absoluto de Gruner, mas ainda que se defina como senhor do seu destino, vê na personagem de Oakes um “amigo” que recusa deixar partir. Um conflito assim precisa de um ator igualmente forte para a fazer chegar até nós, coisa que apenas acontece em doses muito pequenas.

O caso de David Oakes é semelhante, mas, neste caso, não é apenas culpa do ator, o argumento tem muitas falhas. Sabemos que foge do mundo civilizado, talvez devido à guerra, mas nunca sabemos ao certo. Sabemos apenas que foge de qualquer coisa. Esta ausência de contexto e a poker face de David Oakes não contribui nada para o desenvolvimento da personagem que, efetivamente, pouco evolui ao longo do filme, servindo mais como uma muleta para Stevenson do que como uma personagem com o mínimo de conteúdo. Mas sempre está lá para despoletar a fúria de Gruner quando a personagem de Oakes começa a revelar afeto por Aneris (Aura Garrido), uma criatura humanoide anfíbia.

Aneris foi uma coincidência infeliz. É inevitável a sua comparação com a criatura de Guillermo del Toro em “A Forma da Água”, apesar de o realizador insistir na base científica e evolutiva da espécie. A pele escamosa, o tom esverdeado, é impossível não ver a semelhança e as muitas críticas feitas ao filme devido a esta semelhança não são infundadas.

No que toca aos efeitos especiais, esses, apesar de um baixo orçamento de apenas 5 milhões, até convencem, mas não salvam o filme de parecer incompleto ou mesmo desleixado.

Resumindo, é pena que com uma premissa que até é interessante, Xavier Gens não tenha conseguido fazer melhor. Sim, um orçamento tão escasso não ajuda num filme de fantasia com a ambição de “Cold Skin”, no entanto, se se tivesse decidido investir mais tempo num casting melhor, ou talvez numa direção de atores mais eficaz, e num argumento mais trabalhado, o filme poderia ter suscitado algum interesse. Assim, não passa de um filme de sábado à tarde.

«Cold Skin» - Frio, muito frio
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