“Crime 101”: local sob pressão

“Crime 101” confirma a mão segura de Bart Layton na criação de atmosfera e ritmo, mas tropeça num argumento frouxo que deixa pontas soltas e personagens por cumprir
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"Crime 101" (2026), de Bart Layton

Bart Layton dirige o seu segundo filme de ficção e da passos seguros na criação do ambiente no registo que quer levar ao grande ecrã. Depois de um documentário, “The Imposter”, e um filme com uma vertente documental, “American Animals”, ambas obras sobre crime, o realizador britânico traz-nos uma vez mais um thriller do mesmo género, mas desta feita uma história totalmente ficcional. Ora se por um lado, a realização caminha no sentido certo, a adaptação do argumento através da obra de Don Winslow não é a melhor.

A narrativa começa bem, apresenta com calma as personagens e dá-lhes alguma substância, mas não demora em deixa-las cair. Identifica bem o que não é tão importante, mas larga-o de forma repentina e sem desfecho deixando pontas soltas. Um exemplo da fraca qualidade da adaptação do argumento é a personagem Maya, que serve apenas para dar alguma humanidade à personagem principal e que acrescenta muito pouco.

Outro é o facto de abordar de tal forma as personagens secundárias que dão início à narrativa, dando a sensação pela forma como é feita essa mesma abordagem que terão uma maior importância no filme, mas que acabam por desaparecer abruptamente.

“Crime 101” é bom no que toca às partes técnicas. Para além de uma realização segura, o que salta à vista são as transições muito bem conseguidas através de uma montagem praticamente eximia ao longo de todo o filme, o que favorece também a criação de cenas de acção que foram igualmente bem desenhadas e executadas.

Por trás há uma banda sonora que ajuda a sustentar estas mesmas cenas criando a tensão necessária. Isto faz como que o filme tenha o seu tempo, que respire e que caminhe com tranquilidade não se fazendo notar as 2h20 que acabam por passar bastante rápido. Como em quase todos os filmes de ação, há sequências de tensão que não conseguem deixar de ser previsíveis. Tirando o final que é um cliché absoluto e que não faz jus ao resto, o filme tem apenas dois pequenos momentos que fazem com que este pertença a essa lista.

Para além de repetir a experiência com o ator irlandês Barry Keoghan, Layton conseguiu juntar na sua obra Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Halle Berry, Monica Barbaro, Payman Maadi, Nick Nolte e ainda, para uma fugaz aparição, Jennifer Jason Leigh. Os quatro primeiros, e principais, revelam muita seriedade e atuam com segurança. De ressalvar, para além da mestria de Ruffalo, a interpretação de Keoghan que é tudo o que a personagem precisa de ser. Mesmo com um papel mais pequeno e menos exigente o ator não baixa a fasquia. E é incrível poder desfrutar disso mesmo.

Maya, uma casa à beira da praia e assaltos a objetos de valor fazem lembrar “Heat – Cidade sob Pressão”, mas isso não chega para colocar uma cidade inteira sob pressão. “Crime 101” é um filme que se vê bem, que se desfruta com tranquilidade, sem ser um filme pequeno, de puro entretenimento. É um filme consistente, pouco denso, que peca sobretudo pelo argumento e pela sua incapacidade em lidar com pontas soltas, mas que revela a criação de um bom ambience, um elenco incrível e partes técnicas muito bem executadas.

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“Crime 101”: local sob pressão
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