“Você construiu uma carreira sobre corpos”, diz alguém à personagem de Karsh, o viúvo e executivo da indústria tech interpretado por Vincent Cassel, que desenvolve uma tecnologia revolucionária para conectar os vivos aos mortos dentro de seus túmulos. A escolha de Cassel para o papel, cuja aparência lembra a do próprio David Cronenberg, não é coincidência. “The Shrouds” é, de fato, o filme mais autobiográfico do realizador. É como se Cronenberg fizesse contas à vida, com um catálogo de filmes marcado por uma ligação profunda e indissociável com o “body horror”. Um género que ao mesmo tempo que definiu a filmografia de Cronenberg, agora parece tê-la enclausurada numa espiral de repetição criativa.
Dois anos após o incompreendido, e com sabor vintage, “Crimes do Futuro”, estrear em Cannes, Cronenberg junta-se aos colegas Paul Schrader e Francis Ford Coppola, visionários de um cinema que já não existe mais e que também retornam à Cannes este ano com filmes ambiciosos mas certamente falhados.
No seu mais recente trabalho, Cronenberg mergulhou nas águas turvas da inteligência artificial, e elaborou um comentário enigmático que envolvia teorias conspiratórias como parte de uma minuciosa exploração sobre o luto e a perda. No entanto, suas intenções foram recebidas com uma dose considerável de desconfiança em Cannes, desencadeando uma reação enfurecida por parte de Cronenberg, que não poupou palavras ao declarar que as críticas que andou lendo não compreenderam a essência de seu filme, rotulando-as como “estúpidas e ignorantes”.
Após perder a esposa em 2017, com quem foi casado por 43 anos, o realizador canadiano conta que escreveu “The Shrouds” como uma tentativa de lidar com esse luto. No filme, o protagonista Karsh inventa uma tecnologia que permite acessar o corpo de sua esposa, pois não consegue aceitar sua morte. Diane Kruger interpreta tanto a esposa falecida quanto a irmã dela, que ainda está viva. Esta última desenvolve com Karsh uma relação inicialmente afetuosa e fraternal, marcada pelo luto compartilhado, mas que aos poucos evolui para uma espécie de tensão sexual mal resolvida.

Cronenberg parece querer revisitar os temas das fronteiras entre corpo e mente explorados em “Irmãos Inseparáveis” (1988), centrado na vida dos gêmeos idênticos Beverly e Elliot Mantle (Jeremy Irons), ambos ginecologistas que se aproveitavam da sua semelhança para realizar experimentos no corpo humano com suas amantes. Já ali, assim como em “The Shrouds”, Cronenberg desafiava não apenas a integridade física do corpo, mas também a concepção de identidade.
Essa abordagem é reforçada pela personagem de Kruger, que sinaliza um retorno aos temas da duplicidade e da fragilidade das fronteiras entre o eu e o outro, desta vez com um enfoque no pós-vida.
“Vocês têm exatamente o mesmo corpo”, diz Karsh à cunhada em determinado momento. Essa ligação, onde a atração é fundamentada na ideia de continuidade corporal, ressoa a essência da filmografia de Cronenberg, onde a fusão das identidades os leva à desintegração. Assim, “The Shrouds” não só revisita, mas também expande os conceitos de identidade e corpo, oferecendo uma nova perspectiva sobre a interseção entre vida e morte, mesmo que com um indisfarçável gosto de déjà vu.
“Deixe os monstros entrarem”
É impossível discutir a duplicidade e o “body horror” de Cronenberg sem mencionar seus sucessores. Um exemplo disso é “The Substance”, o mais recente hype de Cannes, realizado pela francesa Coralie Fargeat, e que estreou um dia antes do novo filme de Cronenberg. “The Substance” parece consolidar uma mudança em curso em Cannes, claramente influenciada por “Titane” de Julia Ducournau, que ganhou a palma de ouro em 2021, e estabeleceu um novo paradigma num festival historicamente reticente aos filmes de género. No seu discurso de vitória, Ducournau proclamou: “deixe os monstros entrarem”, e Fargeat parece ter lhe dado ouvidos.
O resultado chegou na forma de uma sátira estilizada de horror, com pouquíssimos diálogos, e que parece habitar o mesmo universo do “Brazil” de Terry Gilliam. Demi Moore faz um daqueles papéis feito como moldura para ela, interpretando Elisabeth Sparkle (Demi Moore), uma atriz e apresentadora de TV que fez fama e fortuna com a sua beleza e agora protagoniza um programa de fitness que parece ter buscado inspiração direta naquele famoso estrelado por Jane Fonda nos anos 80.
Agora na casa dos cinquenta, Elisabeth enfrenta uma crise de identidade e autoestima quando é informada pelo executivo da estação de TV (Dennis Quaid) que será substituída por uma atriz mais jovem, e mais bonita, para o programa. É então que ela é apresentada à “substância” uma nova droga que promete oferecer “a melhor versão de si mesma”. Ao injetar o líquido no seu corpo ela dá vida a uma versão mais jovem de si, que chega na forma de Sue, interpretada pela igualmente impressionante Margaret Qualley. No entanto, as coisas não são tão simples como parecem. Elisabeth e Sue não podem existir no mesmo espaço ao mesmo tempo: quando uma está acordada, a outra deve estar inconsciente, num canto escondido a carregar as baterias. Essa premisa é utilizada por Fargeat num filme de quase duas horas e meia, para chegar numa apoteose grotesca e de fantasia gore, sugerindo que expôr as vísceras dos corpos das suas protagonistas fosse necessário para compreender a essência de seu argumento.
“The Substance” é então um filme sobre as leis da natureza e dos padrões de beleza impostos às mulheres, em especial as que comodificam a própria imagem. Aqui a realizadora explora um género que se aproxima mais da sátira feminista de terror do que necessariamente do “body horror”, mesmo que ainda este tenha sido sua gênese. Dessa forma, o filme se alinha muito mais ao mundo pós-moderno de Julia Ducournau do que ao universo cerebral de Cronenberg.
No entanto, é quase como se as narrativas de “The Substance” e “The Shrouds” corressem lado a lado, pois tanto Fargeat quanto Cronenberg utilizam a transformação física e os corpos em decomposição para simular uma desintegração psicológica, trazendo à tona os monstros internos dos personagens. Às vezes, até mesmo literalmente. Na conferência de imprensa em Cannes, a realizadora afirmou que “decidiu abraçar o género sem timidez”, e por isso não teve outra alternativa que não esse filme maquiavélico, excessivo e com sangue jorrando por todos os lados.
Para além de beber na fonte de Cronenberg, “The Substance” é um filme que canibaliza o pastiche, como numa espécie de Frankenstein enraivecido que quer deixar as suas referências claramente às vistas. Não é por acaso que a francesa fez um filme em inglês, e com um elenco só de americanos. Quase como se tivesse ido buscar os arquivos da decadência de Hollywood, não só para falar sobre os seus padrões de beleza inatingíveis, mas também expôr uma realidade que em época de (pós) #MeToo, parece continuar tudo como sempre esteve.
Por exemplo, está aqui a busca pela juventude eterna de “A Morte Fica-Vos Tão Bem” onde Meryl Streep e Goldie Hawn tomavam uma poção que lhes prometia beleza e juventude eterna. Está aqui também a Gloria Swanson de “Sunset Boulevard”, que fazia uma ex-estrela do cinema mudo que se recusava a aceitar sua obsolescência. E por fim, chega-se a sua conclusão com o gore e a catarse de “Carrie” de Brian De Palma, e a podridão dos corpos de “Braindead” de Peter Jackson.
Uma bela e improvável entrada em uma das edições mais fracas de Cannes dos últimos anos, e que se revelará por completo no palmarés de sábado. Até lá, talvez tenhamos uma ideia mais clara do impacto desse monstro grotesco que tomou as atenções de Cannes 2024. Saberemos se que realmente poderá entrar ou se permanecerá confinado sob a escuridão das trevas.

