A edição de 2018 da competição de longas-metragens de terror europeias do MOTELXFestival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa arrancou ontem, dia 4, com a estreia nacional do thrillerDie Vierhändige” (Four Hands), a segunda longa-metragem do jovem realizador alemão Oliver Kienle, que se seguiu a “Bis Aufs Blut – Brüder auf Bewährung” (Stronger than Blood).

O filme conta a história de Sophie e Jessica, duas irmãs que assistiram ao brutal e sangrento assassinato dos seus pais enquanto crianças. Ao cobrir os olhos de Sophie para protegê-la de ver o massacre, Jessica reconforta a irmã dizendo-lhe que irá sempre protegê-la. 20 anos depois, essa necessidade de proteger Sophie torna-se uma obsessão desmedida e violenta que leva Jessica a perseguir incansavelmente a irmã e a jurar vingar-se dos assassinos que mataram os seus pais. Inevitavelmente, a cruzada paranoica de Jessica resulta em consequências trágicas para ela e para Sophie, sendo que uma delas morre e a que sobrevive fica à mercê do seu espírito fragmentado.

Thrillers e filmes de terror que exploram personalidades múltiplas são comuns dentro desses géneros, mas “Die Verhändige” consegue ser um filme competente, ainda que lhe falte alguma maturidade, como demonstra o sóbrio trabalho de câmara, fotografia e, particularmente, o casting das atrizes principais, Frida-Lovisa Hamann e Friederike Becht.

De relance, dir-se-ia que Sophie e Jessica foram interpretadas pela mesma pessoa, confusão essa que amplifica a luta interior e solitária da irmã que sobrevive ao acidente. No entanto, é difícil de manter a coerência nestes jogos de dualidade ao longo de 94 minutos, por vezes até menos, e é aqui que o filme começa a ceder aos seus tropos já demasiado gastos que, apesar de poderem seduzir os fãs do género, podem alienar quem procura algo diferente. A luz intermitente, o gravador de chamadas, os espelhos, estes símbolos anunciam a rutura com a realidade e antecipam o conflito interno da personagem, mas detraem substância ao excelente trabalho de casting, câmara, fotografia e música do filme, para além de que, com essa vontade do realizador de viver destes pequenos enigmas, induzem um espetador atento a adivinhar o twist final demasiado cedo porque facilmente se apercebe que há demasiado esforço para tentar encobrir o que já se tornou manifestamente evidente. Há ainda uma outra pista na tatuagem de uma das irmãs, uma janela, que identifica e marca a sua verdadeira identidade que, quanto a mim, não foi utilizada da melhor forma.

Não quero com isto dizer que estes símbolos são ineficazes, mas quero, sim, afirmar que o uso excessivo de simbolismo deve ser repensado. Até porque, neste caso, encerra um significado que, afinal, não é assim tão ambíguo. Se o realizador tivesse optado por explorar mais os movimentos de câmara e fotografia que tão bem trabalhou para revelar essa ambiguidade, o filme poderia ter dispensado esses códigos.

“Die Vierhändige” é um bom filme, particularmente para os fãs de thrillers e de terror, mas fica um pouco aquém de atingir o potencial que a sua execução técnica promete ao comprometer a história com tropos excessivamente banais que podem descortinar o twist final demasiado cedo a um olho mais treinado.

«Die Vierhändige» - por vezes quatro mãos atrapalham
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