O Cinema 7.ª Arte teve a oportunidade de falar com uma das mais promissoras cineastas portuguesas, Leonor Teles, de 26 anos, sobre “Terra Franca”, a sua primeira longa-metragem,  que estreou ontem na Competição Portuguesa do DocLisboa 2018.

“À beira do Tejo, numa antiga comunidade piscatória, um homem vive entre a tranquilidade solitária do rio e as relações que o ligam à terra. “Terra Franca” retrata a vida deste pescador, atravessando as quatro estações que renovam os ciclos da natureza e acompanham as contingências da vida de Albertino Lobo.”

Fonte: Uma Pedra no Sapato

C7A: Sapos, peixe, rio, mar: podem ser considerados símbolos da sua vida e de inspiração para os seus filmes?

LT: Não sei se são necessariamente símbolos da minha vida. Não lhes chamaria isso, mas são certamente elementos presentes no meu trabalho. O rio é de certeza uma inspiração. Sempre tive uma relação muito próxima com o rio e sempre quis filmar em Vila Franca de Xira perto dele. Já os sapos, não estou a ver… Mas são um símbolo com muita história na cultura cigana. Representam o mal e foi por isso que recorri a eles no “Balada de um Batráquio”. O que é definitivamente uma inspiração para os meus filmes são as pessoas e a ligação que estabeleço com elas, porque as relações não cessam quando o filme acaba. Elas continuam e ainda bem que assim é, porque isso, para mim, é o mais importante.

C7A: Que cineastas a inspiram?

LT: Tenho muitas inspirações. Wong Kar-Wai é a primeira e depois Andrea ArnoldLucrecia Martel, mas não sei até que ponto estão presentes em “Terra Franca” ou em qualquer um dos outros filmes. Se calhar indiretamente existe lá qualquer coisa, mas não sei identificar o quê.

C7A: Wong Kar-Wai é um dos favoritos do C7A. O que mais gosta no cinema dele?

LT: Tudo. O Christopher Doyle é um dos meus diretores de fotografia favoritos. Adoro cinema asiático em geral: Hou Hsiao-Hsien e o “Millennium Mambo”, o “Três Tempos”

C7A: Como foi o processo criativo por detrás de “Terra Franca”?

LT: O processo criativo foi longo e difícil. Demorámos três anos e meio a concretizar este filme. Precisava de muito mais tempo para falar sobre todo o processo de construção… Mas, basicamente, “Terra Franca” começou com um lugar e com uma personagem e com as minhas relações com esses dois pontos: Vila Franca de Xira e Albertino Lobo. E o filme é em primeiro lugar para as pessoas retratadas, de forma a devolver-lhes as imagens, como uma imagem de si. Elas participaram no processo de construção do filme e na definição do seu objeto. Sugeriam cenas, falámos sobre o que seria interessante filmar e o que seria importante para eles que fizesse parte do filme. Acabou por ser então uma procura e não apenas a aplicação prática de um tratamento já escrito. Passámos muito tempo juntos, tendo o tempo sido um aliado enorme. O filme acabou por ser o resultado dessa partilha.

C7A: Escolheu o formato 4:3. Porquê?

LT: O 4:3 foi-me imposto pelo formato do Super 8, tal como aconteceu com o “Balada de um Batráquio”. Mas é um formato que adorei utilizar e comecei a perceber que fazia sentido porque o filme é um retrato do Albertino e da sua família. E, quando penso nos retratos antigos, nas fotografias, são normalmente mais quadrados do que panorâmicos.

C7A: Qual a sua relação com o documentário? O que o torna tão especial para si?

LT: Adoro os imprevistos do documentário. De não ter tudo escrito de antemão e ver o que sai dali.  “Terra” Franca começou com a ideia de ser uma curta que gradualmente cresceu para uma longa. Percebemos que não “caberia” num espaço curto, que precisaríamos de mais tempo e espaço para aquilo que queríamos contar. Aliás, comecei por tentar criar uma ficção a partir do real, mas depressa percebi que tudo o que escrevia era uma porcaria em relação ao que a família Lobo me revelava sobre a sua maneira de ser.

C7A: A câmara é sempre um elemento constrangedor, revela o íntimo, os segredos. Como reagiu a família Lobo à sua presença?

LT: Sim, a câmara é sempre um elemento perturbador. Demorou algum tempo até que a família Lobo se sentisse à vontade com ela. Mas, a pouco e pouco, deixaram-me entrar na casa deles, deixaram-me estar lá com eles e partilhar a vida deles.

C7A: Terra Franca” e Portugal. Na tua opinião, será que o nosso país expressa esse sentimento de sinceridade e abertura em relação a fazer cinema?

LT: Diria que não.

C7A: Ser uma mulher e querer fazer cinema em Portugal, quais são os desafios?

LT: Todos os possíveis e imagináveis. E ser jovem e mulher é ainda pior. O lugar da mulher está quase sempre reservado ao guarda-roupa, à maquilhagem, à anotação… Raramente vemos uma mulher como diretora de fotografia, por exemplo. 

C7A: E em relação a si? Sente que isso é uma barreira para fazer o seu cinema?

LT: Não, mas eu sou uma das privilegiadas. Uma das exceções à regra.

C7A: E como é que vê o panorama atual do cinema português?

LT: Acho que está em forte desenvolvimento e ainda bem, sobretudo por causa da malta mais jovem que não fica de braços cruzados à espera que as coisas aconteçam. Acho que essa força e essa vontade sentem-se nos filmes, a urgência é palpável e torna os filmes objetos mesmo especiais. É incrível a multiplicidade de vozes e linguagens que vemos hoje em dia.

C7A: Depois de “Terra Franca” qual o próximo projeto?

LT: Não faço ideia…

Leonor Teles licenciou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema e possui o mestrado em Audiovisual e Multimédia pela Escola Superior de Comunicação Social. Venceu o Prémio Take One! no Curtas Vila do Conde pelo filme “Rhoma Acans” (2012), o Urso de Ouro para Melhor Curta-Metragem no Festival de Berlim com “Balada de um Batráquio” (2016) e o Prix International de la Scam no Festival Cinéma du Réel, em Paris, com “Terra Franca”.

“Terra Franca” tem distribuição garantida em França com estreia prevista para 21 de novembro. O filme só deverá chegar a Portugal no início do próximo ano.