Double Bill Filmin é uma rubrica quinzenal inspirada no fenómeno da indústria cinematográfica em que as salas de cinema exibiam dois filmes pelo preço de um. Double Bill dá a conhecer dois filmes a ver na plataforma de streaming Filmin. Dois Filmes, uma Filmin.

 

O segundo episódio do Double Bill Filmin centra-se em duas obras de Stéphane Brizé, dois filmes interligados pela sua urgência temática.  É um capitalismo desgovernado, esmiuçado pelo olhar crítico de Stéphane Brizé, que sugerimos para este fim de semana.

A Lei do Mercado (2015)

Há quem trace comparações entre “A Lei do Mercado” e “Eu, Daniel Blake”, apesar do primeiro ter estreado em 2015 e o segundo em 2016. No entanto, quem o faz, não está errado. Existem semelhanças temáticas evidentes. No caso de “A Lei do Mercado”, é Thierry Taugordeau, interpretado por um Vincent Lindon contido, porém com uma eficácia verdadeiramente sublime, que se vê à rasca para encontrar emprego por entre os entulhos da burocracia e a sua própria idade. Por um lado, talvez “Eu, Daniel Blake” seja o filme que mais arrisca, Daniel Blake é uma personagem-manifesto, sem dúvida alguma, mas, por outro, Stéphane Brizé, ao explorar de forma mais circunspecta os limites de Thierry à lei selvagem e brutal do mercado, não arrisca menos. A sua personagem é constantemente posta à prova perante um mundo hostil que força aqueles que queiram vingar nele a submeterem-se às regras do jogo. Não é tanto um filme afetivo, como o de Ken Loach, mas um de reflexão sobre até que ponto estamos dispostos a participar nesse jogo faustiano.

Em Guerra (2018)

“Em Guerra” pode resumir-se a um raccord de “A Lei do Mercado”, um filme sobre a subjugação do proletariado às leis do jogo capitalista. Este sim foi pensado por Brizé como um filme-monumento em que Vincent Lindon tem todo o gravitas de um Cristo redentor. Aqui o realizador não se centra apenas no indivíduo, como em “A Lei do Mercado”, mas num coletivo, em sindicatos, para ser mais preciso, que tentam fazer frente ao seu despedimento da fábrica de componentes de automóveis onde trabalhavam. Enquanto em “A Lei do Mercado” Thierry se recusa a entrar no “jogo”, aqui Laurent vai mais longe, sendo ele próprio simultaneamente símbolo de sacrifício e esperança cega. O filme assume a forma de documentário, quase de reportagem televisiva, que o transforma num filme mais intrinsecamente político do que “A Lei do Mercado”, onde os sindicalistas, com a exceção de Lindon, são todos eles isso mesmo fora do universo diegético. Apesar da urgência da sua mensagem, “Em Guerra” pode, por vezes, pecar por ser demasiado propagandista. Por tentar manter-se à margem do real, como observador, mas acabando por ser consumido pela sua própria missão anticapitalista. Seja como for, não deixa de ser um filme vincadamente contemporâneo que merece atenção.