Para além da guerra diegética entre operários e a administração da Perrin Industrie, que decide fechar portas apesar do lucro do ano anterior, há uma outra maior que opõe a realidade do documentário à encenação do real numa luta constante pela hegemonia formal deste “Em Guerra”, a mais recente e quarta colaboração de Stéphane Brizé com Vincent Lindon, cuja liderança carismática contribui para essa fricção entre narrativa, forma e mensagem.

Num filme que se pode resumir como raccord temático de “A Lei do Mercado” sobre a subjugação do proletariado às leis do jogo capitalista, o que me interessa não é tanto a narrativa em si, mas antes a forma de um filme que gravita em torno desses dois grupos opostos: a linguagem cinematográfica e a da televisão e o carisma de Vincent Lindon face aos seus coprotagonistas, todos eles não-atores e sindicalistas.

Na cena de abertura, a imagem do real toma-nos de assalto. Refiro-me a “imagem” e não a “plano”, pois a primeira pertence ao domínio da televisão, símbolo do documento, da qualidade do que é real, e a segunda, à linguagem do cinema, ao pacto secreto entre observar e ver.  

Não quero com isto dizer que uma obra de ficção não possa fazer uso do documental, neste caso, do símbolo do real que a televisão carrega, até porque quando essa mistura resulta, o resultado pode ser verdadeiramente surpreendente, como acontece, para utilizar um exemplo recente, em “Extinção”, de Salomé Lamas. Porém, “Em Guerra” perde mais do que ganha com esta sobreposição.  

Tudo o que nele existe é composto quase inteiramente por um mimetismo quase laboratorial do documentário, onde a encenação é completamente controlada e pautada com momentos musicais que absorvem as vozes dos operários em revolta, quando é precisamente a palavra dos mesmos que se deveria fazer ouvir. E se a intenção é que a música simbolize uma espécie de abafamento das suas vozes, como se de um prelúdio fatal se tratasse face às circunstâncias ditadas pela máquina capitalista, o silêncio poderia ser uma opção mais interessante. A música parece-me aqui uma muleta para tentar criar tensão ou ritmo que pouco ou nada acrescenta. 

Estas forças antagónicas colidem até nos próprios protagonistas, os operários, divididos entre a fortíssima presença carismática de Vincent Lindon – o ator profissional que personifica a luta do proletariado com proporções messiânicas – e os não-atores, os amadores, mas os verdadeiros signos do real. O que levanta a questão: porquê toda esta encenação do real se, face à liderança carismática do protagonista, tudo se eclipsa? Para não falar da imolação de Laurent Amédéo diante da sede alemã.

O mérito de “Em Guerra” está, em última análise, na sua mensagem pertinente nos dias que correm, onde o capitalismo dita as regras de um jogo amoral cuja única forma de vencer é abandoná-lo, como em “A Lei do Mercado” ou, então, morrer a tentar. Contudo, todo o esforço do realizador para trazer o peso do real para o filme sucumbe perante o artifício, muito por culpa do casamento infeliz entre essas forças e de uma cena final exagerada e desnecessária de proporções verdadeiramente shakespeareanas da martirização do agente político encarnado por Vincent Lindon.

Realização: Stéphane Brizé
Argumento: Stéphane Brizé
Elenco: Vincent Lindon, Mélanie Rover, Jacques Borderie
França/2017 – Drama
Sinopse
: Apesar dos duros sacrifícios financeiros por parte dos trabalhadores e dos elevados lucros do ano anterior, a administração da Perrin Industries decide fechar uma das suas fábricas. Liderados por Laurent Amédéo, o seu porta-voz, os 1100 trabalhadores decidem lutar contra esta decisão brutal, prontos a tudo para salvar os seus empregos.

«Em Guerra» - Um Conflito Interno
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